Especial Copas: o ‘velho Lobo’, o único tetracampeão mundial
Na reportagem de hoje vamos entender a relação de Zagallo com a Seleção Brasileira em Copas do Mundo
Por Luciano Neves
Créditos: CBF
“Vocês vão ter que me engolir!” A célebre frase só podia ser dele, Mário Jorge Lobo Zagallo, um grande ícone do futebol mundial. Logo após a Seleção Brasileira comandada por ele ter sido campeão da Copa América, sobre a Bolívia, em 1997, ele olhou para a lente de uma câmera durante uma entrevista disse de maneira enfática: “Vocês vão ter que me engolir!” O desabafo foi para os jornalistas que questionavam o desempenho da Seleção Brasileira que se preparava para a Copa do Mundo da França, em 1998.
A minha lembrança de Zagallo como treinador da Seleção ocorreu justamente no Mundial da França. O velho Lobo soltou mais uma frase impactante depois que sua Seleção foi superada pela Noruega, na fase de grupos do Mundial, o que não mudou a condição do Brasil no torneio. “Perdemos quando poderíamos perder”.
Zagallo foi mesmo autêntico, a melhor versão de Zagallo, no confronto contra a forte Holanda nas semifinais. As duas seleções empataram em 1 a 1 no tempo normal e o empate persistiu na prorrogação. Zagallo foi protagonista de uma série de atos que elevaram a confiança para a grande decisão. Antes da disputa de pênaltis, o treinador passou por um a um de seus atletas e repetia insistentemente com os punhos cerrados. “Nós vamos ganhar isso!” E ainda, o Velho Lobo deu um beijo discreto num escapulário que carregava consigo. Resultado? Taffarel brilhou, o Brasil avançou por 4 a 2 para fazer a final contra a França. É pena que a trajetória de Zagallo na Seleção tenha sido concluída daquela forma: uma desastrosa derrota por 3 a 0 para a França de Zidane, que rendeu o primeiro título aos franceses e o vice para o Brasil. Mas isso não reduziu a rica história de Zagallo na Seleção Brasileira, uma história de mais de quatro décadas. Inclusive, Zagallo, que morreu há mais de dois anos, no dia 05 de janeiro de 2024, aos 92 anos, continua com o único tetracampeão mundial na história. Ele esteve envolvido nos dois primeiros títulos do Brasil, em 1958 e 1962 como jogador. Foi o treinador do tricampeonato em 1970. E foi o coordenador técnico da Seleção Brasileira na campanha do tetra, em 1994. Ou seja, dos quatro títulos, ele conquistou dois na América do Norte. Logo, talvez lá de cima, ele possa dar uma forcinha ao Brasil no Mundial de 2026, que será nos Estados Unidos, no México e no Canadá.
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O início
O então ponta do Botafogo, Zagallo, apareceu na lista de convocados do técnico Vicente Feola para o Mundial de 1958. Para o ataque, o time canarinho contava com jogadores como Garrincha, Vavá, Mazzola, que depois viria a defender a Itália, Pepe e o garoto Pelé. Ou seja, Zagallo seria reserva. Tecnicamente era um time que tinha condições de voltar da Suécia com o primeiro título mundial. Mas a Seleção carregava o estigma da perda do título em 1950 em casa. E também havia caído nas quartas de final do Mundial de 1954, na Suíça.
Zagallo começou a Copa de 58 como titular em virtude da lesão de Pepe. Se bem que, no jogo de estreia contra a Áustria, nem Pelé nem Garrincha foram titulares, uma comprovação do potencial da equipe de Feola que venceu por 3 a 0. Mas ainda sem os dois principais nomes, o Brasil não venceu a Inglaterra, empate sem gols. Garrincha e Pelé se juntaram a Vavá e Zagallo no ataque contra a União Soviética do bom goleiro Yashin. E o Brasil venceu por 2 a 0. Pelé marcou o seu primeiro gol em Copas nas quartas de final, quando o Brasil derrotou o País de Gales por 1 a 0 e voltava para uma semifinal. E aí o ataque funcionou: goleada de 5 a 2, que fez o Brasil cruzar o caminho da anfitriã Suécia na final do dia 29 de junho em Estocolmo. O mundo se rendeu a Pelé, que marcou duas vezes na decisão. Vavá fez outros dois. E Zagallo, que parecia um mero coadjuvante neste ataque, marcou o seu primeiro gol em Copas, o quarto da vitória brasileira. Mas ele atuou nos seis jogos da campanha do primeiro título, em 1958.
O bi de Zagallo
O bicampeonato da Seleção Brasileira é também o bicampeonato de Zagallo. No Chile, em 1962, o Brasil já havia tirado o peso e entrado para o rol de campeões mundiais. E contava com a base do time que havia vencido na Suécia. Zagallo foi o autor do primeiro gol brasileiro na campanha de 62, vitória por 2 a 0 sobre o México. Só que no segundo jogo contra a Tchecoslováquia, o Brasil perdeu seu principal jogador, Pelé, machucado. Mesmo assim, o Brasil venceu a Espanha no terceiro jogo. E seguiu no torneio. Zagallo seguiu no quarteto ofensivo, ao lado de Garrincha, Vavá e Amarildo, o substituto de Pelé. O Brasil fez 3 a 1 na Inglaterra nas quartas, venceu o Chile nas semifinais por 4 a 2, e reencontrou a Tchecoslováquia na final. Com gols de Amarildo, Zito e Vavá, o Brasil venceu por 3 a 1 de virada, em Santiago. Zagallo foi titular nos seis jogos. Zagallo encerrou sua carreira como jogador profissional em 1965, aos 34 anos de idade, atuando pelo Botafogo. Logo, não esteve no grupo da Seleção, no Mundial de 1966. Mas ele retornaria com uma função diferente.
O tri
Zagallo se tornou treinador da Seleção Brasileira às vésperas da Copa de 1970, no México. A CBD, hoje CBF, queria Dino Sani ou Oto Glória para o posto deixado por João Saldanha. O ex-ponta esquerda da Seleção ainda engatinhava na trajetória de treinador com apenas três anos de trabalho. Mas por ter sido bicampeão como atleta, conhecia bem o ambiente de uma Copa do Mundo. E foi o escolhido para o posto. E o agora treinador também foi alvo de questionamentos. Na visão de Zagallo, Tostão e Pelé não poderiam jogar juntos. O desejo de Zagallo era manter um esquema 4-3-3. A pedido dos próprios jogadores, o Velho Lobo abriu mão do sistema de jogo. E o que se viu na Copa do Mundo do México, e já relatado na reportagem anterior, é que Zagallo colocou Pelé, Jairzinho, Rivelino, Tostão e Gérson, todos camisas 10 em seus clubes, para atuarem juntos na Seleção.
E Zagallo se tornou o primeiro homem a ser campeão mundial como jogador e como treinador. O Brasil venceu os seis jogos e se tornou o primeiro tricampeão mundial.
O único tetra
Depois da conquista do tri no México, a Seleção Brasileira até teve bons desempenhos em Copas do Mundo, mas não figurou mais em decisões. O pior desempenho ocorreu na Copa da Itália, em 1990, quando o técnico foi Sebastião Lazaroni. Queda nas oitavas de final para a Argentina. Logo, o ciclo antes da Copa de 1994, nos Estados Unidos, também foi turbulento. O Brasil tentou Paulo Roberto Falcão, que não emplacou. Em 1991, a CBF trouxe de volta Carlos Alberto Parreira, que teve trabalhos anteriores na Seleção, um deles com o próprio Zagallo, em 1970, como preparador físico. E Zagallo também voltou como coordenador técnico. É por isso que ele não apareceu tanto na campanha. O fato é que o Brasil, liderado pela dupla Bebeto e Romário, acabou com o jejum de 24 anos sem conquistar a Copa. Nos Estados Unidos, o Brasil fez sete jogos com cinco vitórias e dois empates.
Alguns resultados ocorreram com teor de drama. Nas oitavas, o Brasil superou a seleção anfitriã por 1 a 0, gol de Bebeto, com um jogador a menos após a expulsão de Leonardo. Nas quartas, enfrentou a boa seleção da Holanda. Fez 2 a 0 no placar, permitiu o empate e o lateral Branco, que havia assumido a vaga de titular justamente de Leonardo, marcou o gol da vitória por 3 a 2. Nas semifinais, o Brasil, todo de azul, derrubou a Suécia por 1 a 0, gol de Romário. E na final do dia 17 de julho, no Rose Bowl, em Los Angeles, Zagallo reencontrou a Itália numa decisão. Ele viu do banco, ao lado de Parreira, o empate sem gols. Viu ainda Roberto Baggio cobrar um pênalti para o espaço. E o Brasil ser tetracampeão mundial. Ele, Zagallo, se tornou o único tetra no planeta. E poderia ser penta, já que reassumiu o cargo de treinador no ciclo para o Mundial de 1998, na França. Porém, teve o dissabor da derrota por 3 a 0 na final, em seu último jogo pela Seleção.
Créditos: Luciano Neves
