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Empresa que recebeu R$ 21 milhões do Banco Master tem sala vazia na frente e casa ligada a contador de Ratinho nos fundos

Repórter vai a Marumbi e encontra imóvel sem atividade empresarial; estrutura contrasta com volume milionário e reforça dúvidas sobre destino dos recursos

Por Gazeta do Paraná

Empresa que recebeu R$ 21 milhões do Banco Master tem sala vazia na frente e casa ligada a contador de Ratinho nos fundos Créditos: Diário de Maringá

O endereço informado como sede de uma das empresas que receberam milhões do Banco Master não resiste a uma verificação simples: basta ir até lá.

Foi o que fez o jornalista Gilmar Ferreira, do portal O Diário de Maringá. Em Marumbi, ele encontrou um cenário que, confrontado com os registros oficiais, expõe um descompasso evidente entre o que está no papel e o que existe no local.

Na fachada do imóvel indicado como sede, há uma sala comercial. O espaço estava fechado no momento da visita. Não havia placa de identificação da empresa, nem qualquer referência visual que indicasse funcionamento. Também não foi observada circulação de funcionários, entrada e saída de clientes ou movimentação que sugerisse atividade empresarial em curso.

“Quando cheguei ao local, não vi sinais aparentes de uma estrutura empresarial compatível com uma operação desse porte. Na frente, encontrei um salão comercial fechado. Além disso, não observei fluxo de funcionários, rotina administrativa visível nem sinal externo de atividade intensa”, descreveu o repórter.

A observação se torna ainda mais relevante quando considerada a natureza da atividade registrada nos cadastros empresariais, que apontam para serviços de consultoria e intermediação — áreas que, em regra, pressupõem algum nível de organização operacional, equipe técnica ou ao menos sinais mínimos de funcionamento.

A poucos metros dali, no mesmo terreno, a configuração muda. Nos fundos do imóvel, há uma residência. Segundo a apuração presencial, é nesse espaço que mora a ex-mulher do contador ligado à empresa associada ao grupo de Carlos Massa. “Nos fundos do imóvel, segundo a apuração presencial, mora a ex-mulher do contador ligado à empresa”, registrou o jornalista.

A coexistência desses dois ambientes — uma sala comercial sem atividade aparente e uma residência ocupada por pessoa ligada ao núcleo financeiro do grupo — é um dos pontos centrais da apuração. Trata-se de um mesmo endereço que reúne, ao mesmo tempo, um espaço formalmente vinculado a uma empresa milionária e um ambiente doméstico diretamente conectado ao círculo interno desse universo empresarial.

Esse dado ganha ainda mais relevância quando cruzado com as informações financeiras. Documentos da Receita Federal encaminhados à CPI do Crime Organizado indicam que empresas do Grupo Massa receberam, entre 2022 e 2025, ao menos R$ 24 milhões do banco. Desse total, cerca de R$ 21 milhões teriam sido direcionados à Massa Intermediação (esta empresa em Marumbi), enquanto aproximadamente R$ 3 milhões foram registrados em nome da Gralha Azul Empreendimentos e Participações.

Os valores, segundo os registros, estão associados a contratos publicitários e ações de divulgação de produtos financeiros, como o CredCesta — cartão consignado voltado a servidores públicos, cuja operação chegou a ser alvo de restrições em diferentes estados.

No entanto, a materialidade observada em Marumbi introduz um elemento concreto nessa equação: a ausência de sinais de funcionamento no endereço indicado como sede da empresa que figura nesses contratos.

A análise do interior do imóvel, dentro dos limites possíveis de verificação presencial, também trouxe elementos adicionais. “Dentro do imóvel, no limite do que consegui apurar presencialmente, também não encontrei elementos que identificassem de forma clara a operação da empresa. Ao contrário, alguns móveis aparentavam ligação com o universo da La Baby, e não com uma estrutura voltada à consultoria e à intermediação descritas no cadastro empresarial”, relatou Gilmar Ferreira.

É nesse ponto que a apuração documental se cruza com o ambiente empresarial local. O sobrenome Labegalini aparece de forma recorrente em registros públicos vinculados a empresas sediadas em Marumbi. A I. G. Labegalini Ltda., por exemplo, consta como matriz no município e está associada ao nome fantasia La Baby Outlet. Já a Confecções e Fios Labegalini Ltda. também mantém operações registradas na cidade.

Esse conjunto de informações indica a existência de um núcleo empresarial consolidado no município, ligado ao setor de confecções e comércio varejista. Ao mesmo tempo, esse mesmo universo aparece, ainda que de forma indireta, no ambiente físico identificado no endereço da empresa associada aos contratos milionários.

O contraste é objetivo: enquanto os registros empresariais apontam para uma empresa de serviços financeiros e intermediação, os elementos materiais observados no local remetem a outro tipo de atividade econômica.

Durante a apuração, também surgiu uma informação adicional relacionada ao vínculo familiar dentro desse ambiente empresarial. “Também recebi a informação de que esse contador seria pai do dono da La Baby. Registro esse ponto com cautela. Não apresento essa informação como prova documental fechada. Ainda assim, ela é relevante e exige resposta objetiva dos envolvidos”, acrescentou o jornalista.

A menção é feita com ressalvas, mas reforça a interconexão entre os personagens que aparecem, direta ou indiretamente, vinculados ao endereço.

O caso se insere em um contexto mais amplo, que envolve não apenas relações comerciais, mas também o ambiente político do estado. O Paraná é governado por Ratinho Junior, filho do empresário que figura no centro das relações comerciais mencionadas nos documentos.

Ainda que não haja indicação de vínculo formal do governador com as empresas citadas, a sobreposição entre os elementos — valores expressivos, estruturas empresariais e conexões pessoais — amplia o interesse público sobre o caso.

A visita ao imóvel em Marumbi cumpre um papel específico dentro da apuração: transformar registros abstratos em um cenário verificável. O endereço existe. O imóvel existe. A configuração descrita também. E é justamente essa correspondência entre o que está nos documentos e o que foi encontrado no local que sustenta a principal questão levantada pela reportagem: onde, de fato, funciona a empresa que recebeu milhões?

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp