Denúncia questiona preparação do Paraná para o Pisa e aponta possível manipulação de indicadores
Dossiê apresentado a órgãos de controle acusa Seed de treinamento direcionado, pressão sobre escolas e alterações na composição da amostra
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Divulgação
A preparação da rede estadual do Paraná para o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) passou a ser alvo de uma denúncia apresentada à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), ao Ministério Público Federal (MPF) e ao Ministério da Educação (MEC).
O documento foi elaborado pelo professor da rede estadual Jeferson de Souza e reúne informações obtidas por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI). O dossiê questiona práticas adotadas pela Secretaria de Estado da Educação (Seed) e afirma que elas poderiam comprometer a confiabilidade dos resultados obtidos pelos estudantes paranaenses.
Entre os principais pontos está o Projeto InvestigAÇÃO, criado pela Seed para preparar estudantes para a avaliação internacional. O próprio governo confirma que a iniciativa teve como objetivo melhorar o desempenho dos alunos no Pisa e que envolveu cerca de 5 mil estudantes e 360 professores em 30 escolas durante 2025.
A denúncia, porém, sustenta que a preparação teria ultrapassado os limites de uma atividade pedagógica convencional. Segundo o professor, estudantes selecionados para o programa foram submetidos a uma rotina intensa de atividades e simulados alinhados ao formato da avaliação.
O ponto mais sensível do dossiê é a alegação de que a preparação teria sido utilizada para elevar artificialmente os resultados. O documento cita regras técnicas do Pisa e questiona se o treinamento específico dos estudantes poderia comprometer a comparação entre os participantes de diferentes regiões.
A Seed, por sua vez, apresenta oficialmente o InvestigAÇÃO como uma iniciativa pedagógica voltada ao desenvolvimento do pensamento crítico, da investigação científica e à preparação dos alunos para avaliações externas. Em novembro de 2025, a secretaria informou que o projeto havia sido realizado em 30 escolas e envolvido aproximadamente 5 mil estudantes.
Suspeita de alteração da amostra
Outro ponto levantado pela denúncia é a chamada “limpeza amostral”. O dossiê acusa a rede estadual de retirar ou transferir estudantes com baixo desempenho ou histórico de faltas antes da realização da avaliação, o que poderia alterar o perfil dos participantes.
Segundo o documento, entre as práticas questionadas estão encaminhamentos para exames da Educação de Jovens e Adultos, transferências e alterações de registros escolares.
A acusação é especialmente relevante porque o Pisa depende de uma amostra representativa dos estudantes. Qualquer mudança indevida no grupo selecionado pode afetar a comparação dos resultados e, consequentemente, a posição atribuída ao Paraná.
O dossiê também relata pressão sobre profissionais da educação para o cumprimento de metas e questiona o impacto da cobrança por indicadores sobre a rotina das escolas.
Investigação e pedidos
Diante das acusações, o professor pede a abertura de procedimentos para apurar eventuais responsabilidades, além da preservação de documentos e registros digitais relacionados ao projeto.
Entre as solicitações estão a análise independente dos indicadores educacionais, a apuração de possíveis irregularidades na composição das amostras e a revisão de práticas adotadas durante a preparação para avaliações externas.
A denúncia não representa, por si só, comprovação de fraude. As acusações ainda precisam ser analisadas pelos órgãos competentes, que deverão verificar documentos, registros escolares e demais evidências apresentadas.
O caso coloca em discussão uma questão que vai além do resultado do Pisa: até que ponto a busca por posições melhores em rankings educacionais pode influenciar a própria forma como as escolas trabalham. Preparar alunos para avaliações pode fazer parte de uma política educacional, mas transformar indicadores em metas rígidas cria o risco de fazer com que o resultado passe a ser mais importante do que aquilo que ele deveria medir: a qualidade efetiva da educação.
