Créditos: Valter Campanato/Agência Brasil
Confiança do empresário do comércio recua no Paraná, mostra Fecomércio-PR
Levantamento da Fecomércio-PR mostra queda no Índice de Confiança do Empresário do Comércio (ICEC), influenciada por juros altos, eleições, reforma tributária e cenário internacional
Os comerciantes paranaenses encerraram o primeiro semestre de 2026 mais cautelosos em relação ao cenário econômico. É o que aponta um levantamento da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Paraná (Fecomércio-PR), realizado em parceria com a Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Apesar da redução no nível de confiança, a entidade afirma que o setor ainda projeta estabilidade e investimentos para os próximos meses.
Segundo o coordenador de Desenvolvimento Econômico da Fecomércio-PR, Rodrigo Schmidt, a confiança dos empresários é influenciada por uma combinação de fatores, como a situação econômica atual, as expectativas para o futuro e o ambiente político.
Já o assessor econômico da Fecomércio-PR, Lucas Dezordi, afirma que a queda foi modesta, mas revela uma preocupação crescente entre os comerciantes, principalmente em relação ao segundo semestre.
De acordo com ele, um dos principais motivos é a aproximação das eleições, que costuma gerar um ambiente de incerteza política e econômica.
O economista destaca ainda que os empresários acompanham com atenção os efeitos da reforma tributária, especialmente em relação aos impostos indiretos que poderão impactar o setor. Além disso, a desaceleração da economia mundial e os conflitos no Oriente Médio também influenciam as expectativas dos comerciantes.
"Existe uma avaliação do empresário em relação ao momento econômico e político. Ele vê a questão das vendas e analisa se é o momento para contratar funcionários ou investir [no negócio]", explica Rodrigo Schmidt.
Segundo ele, a questão política foi um dos fatores mais mencionados pelos empresários na pesquisa. A expectativa é de que, após o período eleitoral e com maior previsibilidade econômica, a confiança volte a crescer.
Schmidt ressalta, porém, que os indicadores não apontam um cenário de crise.
"Não é algo tão preocupante, como foi na pandemia. É mais relacionado às percepções sobre o volume de vendas e como o próprio consumidor recorre ao comércio para fazer aquisições. Talvez não seja uma avaliação tão positiva, mas não é tão significativa", afirma.
Setores sentem impactos diferentes
A pesquisa mostra que os efeitos variam conforme o segmento do comércio.
Schmidt cita como exemplo os lojistas que adquiriram camisetas da Seleção Brasileira apostando em uma campanha mais longa na Copa do Mundo. Com a eliminação da equipe, o período de vendas foi reduzido e parte do estoque deverá ser comercializada posteriormente, possivelmente por meio de liquidações.
Empresários mantêm planos de investimento
Mesmo com um cenário de maior cautela, muitos empresários continuam planejando investir e preservar o nível de emprego.
A Pesquisa de Opinião do Empresário, realizada pela Fecomércio-PR em parceria com o Sebrae/PR, mostra que 27,5% dos empreendedores do setor terciário esperam aumentar o faturamento até o fim do ano.
Segundo a entidade, embora esse seja o menor índice de expectativa positiva de toda a série histórica da pesquisa, a maior parte dos empresários ainda prevê estabilidade ou crescimento.
Outros 27,2% acreditam que o faturamento permanecerá estável, enquanto 17,8% projetam redução. Já 27,5% afirmaram que ainda não conseguem definir uma expectativa para os próximos meses.
Para Lucas Dezordi, não há sinais claros de retração da economia brasileira.
"Alguns setores vão ter aumento de investimentos; alguns empresários vão continuar investindo quando necessário, em maquinário, reforma e modernização de instalações, marketing e na capacitação das suas equipes", avalia.
Índice de confiança fica abaixo da linha de satisfação
Em junho, o Índice de Confiança do Empresário do Comércio (ICEC) apresentou queda de 3,1% em relação a maio e passou a marcar 93,1 pontos.
O indicador ficou abaixo da linha de satisfação, fixada em 100 pontos. A última vez que o Paraná superou esse patamar foi em março deste ano e em dezembro de 2025, quando o índice atingiu 103 pontos.
Segundo Dezordi, o levantamento mede principalmente as expectativas dos empresários em relação ao próprio faturamento e aos meses seguintes.
"Se o cliente consome mais, a perspectiva de faturamento dele é maior e o otimismo também", resume o economista.
Juros altos e bets preocupam comerciantes
Rodrigo Schmidt afirma que um dos fatores que mais afetam a confiança do setor é o atual patamar elevado das taxas de juros.
Segundo ele, muitos consumidores dependem de financiamentos ou parcelamentos para adquirir bens, e o custo mais elevado do crédito acaba reduzindo o consumo.
"Nesse cenário de juros elevados, que estamos vivendo neste momento, é uma questão da política monetária que interfere nesse ambiente de negócios", explica.
O coordenador também demonstra preocupação com o crescimento das apostas esportivas online.
Embora não exista uma pesquisa específica sobre o impacto das chamadas bets no Paraná, Schmidt avalia que parte da renda que poderia ser destinada ao comércio está sendo direcionada para as plataformas de apostas.
"No Paraná não temos uma pesquisa mais aprofundada, mas pelo volume movimentado, vemos as bets que podem estar desviando aquele dinheiro que normalmente iria para o consumo de bens e serviços", afirma.
Consumo das famílias volta a crescer
Enquanto os empresários demonstram maior cautela, a intenção de consumo das famílias apresentou recuperação em junho.
A Pesquisa de Intenção de Consumo das Famílias (ICF), também elaborada pela Fecomércio-PR em parceria com a CNC, registrou alta de 2,5% em relação a maio, encerrando uma sequência de três meses de queda e alcançando 95,1 pontos.
Na comparação com junho de 2025, o avanço foi de 8,2%.
Segundo Dezordi, os consumidores continuam mais cautelosos por causa dos juros elevados, do aumento do custo de vida e da restrição ao crédito.
Ele observa que financiamentos de longo prazo vêm sendo evitados e que a inflação dos alimentos reduz parte da renda disponível para outras compras.
O economista destaca ainda que setores como venda de veículos financiados, materiais de construção e equipamentos de escritório apresentaram desaceleração, reflexo do crédito mais caro e da menor capacidade de financiamento das famílias.
De acordo com a Fecomércio-PR, o principal fator para a melhora da intenção de consumo foi o aumento de 11,2% na perspectiva de consumo, que chegou a 73 pontos.
Outro destaque foi o indicador que mede a disposição para comprar bens duráveis, como móveis e eletrodomésticos. O componente registrou alta de 9,6% em junho, alcançando 65,6 pontos.
