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Casos de violência revelam colapso da saúde mental na PM do Paraná

O duplo homicídio cometido por um policial militar em Terra Boa, em janeiro de 2026, expõe falhas no cuidado psicológico da corporação e reacende o debate sobre estresse, violência e omissão do governo Ratinho Junior

Por Gazeta do Paraná

Casos de violência revelam colapso da saúde mental na PM do Paraná Créditos: Divulgação

Na madrugada de 31 de janeiro de 2026, a cidade de Terra Boa, no Noroeste do Paraná, entrou para as estatísticas mais sombrias da violência no Estado. Um policial militar de folga foi até a residência da ex-companheira e matou Jéssica Brito de Lima, de 30 anos, e o atual companheiro dela, Gabriel Dulo, de 23 anos, com disparos de arma de fogo. Após o crime, o policial se apresentou espontaneamente ao destacamento local da Polícia Militar do Paraná, entregou a arma institucional e foi preso. O caso é investigado pela Polícia Civil como feminicídio e homicídio.

O episódio, no entanto, extrapola o fato policial. Desde os primeiros desdobramentos, ele passou a ser tratado por analistas e pesquisadores como um retrato extremo de um problema estrutural: o adoecimento psicológico crônico de policiais militares no Paraná e a fragilidade das políticas públicas voltadas à saúde mental desses profissionais.

Levantamentos jornalísticos publicados ao longo de 2024 e 2025 já indicavam que, no Estado, o número de policiais militares mortos fora do serviço, especialmente por suicídio, vinha superando as mortes em confrontos armados. Embora o caso de Terra Boa não se enquadre nessa estatística específica, ele se conecta diretamente ao mesmo pano de fundo: estresse contínuo, conflitos emocionais não tratados, acesso permanente a armas de fogo e ausência de mecanismos eficazes de prevenção.

Essa leitura é reforçada por estudos acadêmicos recentes. Um artigo publicado em 2023 no Brazilian Journal of Development, intitulado “Estresse ocupacional e saúde mental em policiais militares”, aponta que a atividade policial está entre as profissões com maior carga de sofrimento psíquico no país. O estudo destaca que “a exposição cotidiana à violência, associada à pressão hierárquica e à rigidez institucional, produz um ambiente propício ao desenvolvimento de ansiedade, depressão e esgotamento emocional”.

No mesmo sentido, pesquisa divulgada em 2022 na Revista Eletrônica Acervo Saúde analisa a presença da síndrome de burnout em policiais militares, apontando índices elevados de exaustão emocional e distanciamento afetivo. Segundo os autores, “o policial aprende a silenciar o sofrimento como estratégia de sobrevivência institucional”, o que dificulta a busca por ajuda profissional e aprofunda o adoecimento ao longo do tempo.

Outro estudo, publicado em 2021 na revista Gralha Azul, do Tribunal de Justiça do Paraná, chama atenção para a relação entre saúde mental, violência doméstica e uso da arma funcional. O artigo afirma que “a ausência de acompanhamento psicológico sistemático aumenta o risco de que conflitos pessoais sejam atravessados pela lógica da violência aprendida no exercício profissional”. Para os pesquisadores, casos como o de Terra Boa não podem ser analisados apenas como crimes passionais isolados, mas como eventos que dialogam com falhas institucionais de cuidado.

Dentro da corporação, esse cenário é agravado por uma cultura que ainda associa sofrimento psíquico à fragilidade profissional. Um policial ouvido por pesquisadores em estudo publicado em 2024 relatou que “procurar psicólogo é visto como atestado de fraqueza; ninguém quer ser rotulado como problema”. Essa percepção ajuda a explicar por que muitos policiais só chegam ao atendimento especializado quando o quadro já está agravado.

Diante desse contexto, o Governo do Paraná costuma destacar a existência de políticas de atenção psicossocial. Desde 2021, o Estado mantém um programa voltado ao atendimento psicológico e social das forças de segurança, oferecendo acompanhamento individual, orientação familiar e ações preventivas. Em nota institucional, o governo afirma que o programa “tem como objetivo promover qualidade de vida e reduzir os impactos emocionais da atividade policial”.

Apesar disso, especialistas avaliam que a política ainda é insuficiente. Em audiência pública realizada em maio de 2025, na Assembleia Legislativa do Paraná, parlamentares e pesquisadores defenderam a ampliação e o aperfeiçoamento dessas ações. Durante o debate, foi destacado que “não basta oferecer atendimento; é preciso garantir confiança, sigilo e acesso real para quem está na ponta”. Outro ponto levantado foi a ausência de dados oficiais consolidados sobre suicídios e afastamentos por transtornos mentais na PM, o que dificulta diagnósticos precisos e políticas baseadas em evidências.

O caso de Terra Boa, ocorrido no início de 2026, surge nesse cenário como um marco simbólico. Ele evidencia como o sofrimento psíquico não tratado pode transbordar da esfera profissional para a vida privada, com consequências fatais. Para pesquisadores da área, a tragédia reforça a urgência de uma mudança de abordagem. Como resume um dos estudos analisados, “cuidar da saúde mental do policial não é concessão, é condição básica para a segurança pública”.

Enquanto o Estado responde com programas pontuais e discursos institucionais, a sucessão de episódios violentos mantém o tema no centro do debate. A forma como o Paraná irá transformar essas discussões em políticas estruturais e permanentes pode definir se casos como o de Terra Boa permanecerão como exceções trágicas — ou como sintomas recorrentes de um problema ainda não enfrentado em sua profundidade.

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp