Cantoras ficam no limite da correção ao reviverem sucessos nordestinos no álbum 'Forró do mundo'
Por Giuliano Saito
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Assucena, Céu, Gabi da Pele Preta, Gaby Amarantos, Juliana Linhares, Luedji Luna, Mariana Aydar e Rachel Reis abordam músicas projetadas nas vozes de Elba Ramalho, Marinês, Clara Nunes e Maria Bethânia. Capa do álbum 'Forró do mundo', idealizado por Pupillo com Marcelo Soares Arte de Ricardo Magrão Resenha de álbum Título: Forró do mundo Artistas: Assucena, Céu, Gabi da Pele Preta, Gaby Amarantos, Juliana Linhares, Luedji Luna, Mariana Aydar e Rachel Reis Edição: Musak Music Cotação: ★ ★ 1/2 ♪ Três anos após Orquestra Frevo do Mundo (2020), disco idealizado por Pupillo e Marcelo Soares com elenco estelar para tentar dar ar contemporâneo ao gênero folião de Pernambuco, a mesma dupla apresenta Forró do mundo, álbum coletivo na mesma linha, lançado hoje, 15 de junho, com capa criada por Ricardo Magrão. Com produção musical de Pupillo e sob direção artística de Soares, oito cantoras da cena contemporânea brasileira – Assucena, Céu, Gabi da Pele Preta, Gaby Amarantos, Juliana Linhares, Luedji Luna, Mariana Aydar e Rachel Reis – dão vozes a sucessos da música nordestina encampada sob o genérico rótulo de forró, com beats mais atuais, para tentar revitalizar um gênero atualmente pautado por batidas e letras banais. A questão é que as intérpretes ficam no limite da correção com gravações que perdem no confronto com os registros originais das músicas. Juliana Linhares, por exemplo, é cantora potente, mas não conseguiu imprimir a Não sonho mais (Chico Buarque, 1979) o tom febril pedido pela música e alcançado por Elba Ramalho na gravação rascante do álbum Ave de prata (1979). Assucena tem canto mais afogueado do que faz supor a abordagem do xote Sou o estopim (Antonio Barros, 1976), lançado por Marinês (1935 – 2007) no mesmo ano em que foi gravado pela atriz Sônia Braga para o disco com a trilha sonora da novela Saramandaia (Globo, 1976). Já o canto de Luedji Luna soa aveludado em Gostoso demais (Dominguinhos e Nando Cordel, 1986) em interpretação mais próxima da gravação lapidar de Maria Bethânia no álbum Dezembros (1986) do que do forrozeiro registro original de Dominguinhos (1941 – 2013). Do mesmo Dominguinhos, mas em parceria com Anastácia, Quero um xamego (1975) poderia ter ganhado mais dengo no canto de Rachel Reis – em gravação pontuada pelo acordeom de Waldonys – da mesma forma que Mariana Aydar poderia ter adicionado mais vitalidade a Você endoideceu meu coração (Nando Cordel, 1986), sucesso de Fagner. Céu tampouco consegue animar o forró ao moldar Maçã do rosto (1976), única música de pegada nordestina no primeiro álbum de Djavan, voltado para o samba (Elba regravou bem a música em disco de 2020). Ainda que force a voz em determinadas passagens de Feira de mangaio (Sivuca e Glória Gadelha, 1977), faixa arranjada com metais orquestrados pelo trombonista Nilsinho Amarante, Gaby Amarantos consegue ao menos soar arretada ao encarar essa música projetada em todo o Brasil na gravação feita por Clara Nunes (1942 – 1983) para o álbum Esperança (1979). No arremate do disco, A terceira lâmina (Zé Ramalho, 1981) reaparece com a correção recorrente no disco, mas sem a devida densidade, na voz de Gabi da Pele Preta. Enfim, o álbum Forró do mundo carece de eneregia. O disco pode até animar quem desconhece os registros mais emblemáticos das oito músicas. Para quem ouviu essas composições em vozes como as de Elba Ramalho, Marinês, Maria Bethânia e Clara Nunes, fica difícil entrar na dança. O forró ficou morno.
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