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Caixa-preta da Voepass revela piloto comparando avião a um "Fusquinha" antes da queda

Laudo da Polícia Federal mostra que a tripulação já conhecia falhas no sistema de degelo da aeronave. Conversas gravadas na cabine revelam preocupação com o acúmulo de gelo antes do acidente que matou 62 pessoas

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Caixa-preta da Voepass revela piloto comparando avião a um Créditos: Divulgação

O laudo da Polícia Federal sobre a queda do voo 2283 da Voepass, que matou 62 pessoas em Vinhedo (SP), revelou novos detalhes sobre os momentos que antecederam o acidente. A perícia concluiu que a aeronave apresentava falhas recorrentes no sistema de degelo, problema que já era conhecido pelas tripulações e havia sido registrado em voos anteriores.

As informações constam em uma reportagem exibida pelo Fantástico, da TV Globo, que teve acesso exclusivo ao documento da Polícia Federal. A investigação reconstruiu os últimos voos da aeronave e apontou uma sequência de falhas técnicas e operacionais que, segundo os peritos, contribuíram para a perda de controle do avião.

O relatório mostra que o problema no sistema de degelo já havia se manifestado no voo imediatamente anterior ao acidente, realizado entre Guarulhos e Cascavel.

Durante esse trajeto, o comandante comenta sobre o gelo acumulado na aeronave.

Piloto: "Ó lá o gelo... o gelo foi embora agora, finalmente. Escutei um barulho aqui, foi o gelo que voou."

Após o pouso, aliviado, o comandante conversa com o copiloto.

Copiloto: "Muito bom, comandante."

Piloto: "Chegamos vivos."

Pouco tempo depois, a mesma aeronave voltou a decolar para realizar o voo entre Cascavel e Guarulhos, que terminaria em tragédia.

Alerta apareceu ainda durante a subida

Logo após a decolagem, o sistema da aeronave registrou um alerta de falha.

Piloto: "É o 'Airframe' que deu 'fault'... pode tirar, pode tirar... pelo menos a gente já sabe que tá..."

Segundo a Polícia Federal, a mensagem AIRFRAME FAULT indicava uma falha no sistema pneumático de degelo.

De acordo com os procedimentos do fabricante da aeronave, a tripulação deveria abandonar imediatamente a região com formação de gelo. No entanto, a análise do gravador de voo indica que esse procedimento não foi realizado.

Enquanto discutiam as condições meteorológicas, os pilotos comentaram a necessidade de voar em uma altitude maior para evitar gelo.

Copiloto: "Olha a situação, se bem que não tá reportado isso aí, mas pra gente não pegar gelo teria que ir no 110, né?"

O comandante respondeu fazendo uma comparação curiosa.

Piloto: "Foi só eu falar. O avião escutou. Esse avião parece aquele Fusquinha, Herbie lá... Herbie, filme bem antigo."

"Essa b... não tá funcionando"

Quase uma hora depois, quando a aeronave já se aproximava de São Paulo, o acúmulo de gelo voltou a preocupar a tripulação.

Copiloto: "Bastante gelo."

Na tentativa de resolver o problema, ele tenta novamente acionar o sistema de degelo.

Copiloto: "Ligar o airframe."

A resposta do comandante foi imediata.

Piloto: "Essa bosta não tá funcionando, né?"

Copiloto: "É."

Logo depois, os alertas passaram a se intensificar.

Copiloto: "Gelo."

Em seguida, o avião entrou em estol.

Durante cerca de 48 segundos, o gravador registrou o alarme de estol enquanto novos avisos eram emitidos.

Copiloto: "Gelo."

Na sequência, o sistema de alerta de proximidade do solo (TAWS) começou a emitir uma das mensagens mais críticas da aviação.

TAWS: "Pull up... Pull up."

O aviso indica risco iminente de colisão com o terreno e orienta os pilotos a interromper imediatamente a descida e elevar o nariz da aeronave.

Segundo a investigação, os computadores de bordo passaram então a emitir uma sequência de alertas, incluindo Performance Degraded, Increase Speed e, posteriormente, o alarme de estol.

Em menos de um minuto, a aeronave perdeu sustentação, entrou em estol e depois em parafuso até atingir o solo.

Sistema apresentava falhas havia vários voos

A perícia também identificou que a mensagem AIRFRAME FAULT não apareceu apenas no voo do acidente.

Os registros mostram que o alerta já havia sido emitido em outros três voos realizados pela aeronave.

Em todos eles, as tripulações adotaram o mesmo procedimento: desligavam e religavam o sistema de degelo diversas vezes na tentativa de restabelecer o funcionamento.

Somente no voo imediatamente anterior ao acidente, identificado como PTB 2282, o alerta foi registrado oito vezes e o sistema passou por pelo menos cinco tentativas de reinicialização.

Para a Polícia Federal, isso demonstra que o comandante já tinha conhecimento de que o sistema apresentava falhas intermitentes antes de decolar novamente para uma rota que possuía previsão oficial de formação de gelo.

Falhas deixaram de ser registradas

Segundo o laudo, se essas ocorrências tivessem sido registradas formalmente pelas tripulações anteriores, a aeronave não poderia ter sido liberada para operar em condições de formação de gelo.

Isso porque a Lista de Equipamentos Mínimos proíbe esse tipo de operação quando o sistema de degelo apresenta falhas.

O relatório afirma que a ausência desses registros permitiu que problemas críticos permanecessem ocultos.

"Quando as tripulações dos voos anteriores deixaram de registrar falhas do sistema de degelo, permitiram que discrepâncias repetitivas e críticas permanecessem ocultas, contribuindo para que o sistema de degelo pneumaticamente comandado continuasse operando com intermitência não sanadas", diz o documento.

PF aponta falhas na condução do voo

Além dos problemas técnicos, os peritos concluíram que os pilotos deixaram de executar, no momento adequado, procedimentos previstos pelo fabricante para situações de falha no sistema de degelo, degradação de desempenho, condições severas de formação de gelo e recuperação de estol.

A investigação aponta que houve um intervalo de aproximadamente 20 segundos entre o alerta Increase Speed e o início do parafuso da aeronave, período em que ainda existia possibilidade de intervenção da tripulação.

Outro ponto destacado foi o despacho operacional do avião.

Embora não tenha sido considerado causa direta do acidente, a aeronave foi liberada para voar mesmo apresentando uma falha no limpador de para-brisa, contrariando a Lista de Equipamentos Mínimos diante da previsão de chuva no destino.

Segundo a Polícia Federal, houve desvio tanto por parte do Despachante Operacional de Voo quanto do comandante.

Conclusão da investigação

Ao longo de quase 200 páginas, o laudo conclui que a queda do voo foi resultado da combinação de diversos fatores.

Entre eles estão as falhas recorrentes no sistema de degelo, a operação da aeronave em uma área com formação severa de gelo, o descumprimento de procedimentos previstos pelo fabricante e o rompimento sucessivo de barreiras de segurança que poderiam ter evitado o acidente.

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