Após perder mandato por corrupção, Dudu Barbosa volta à mira do MP por suposto esquema de contratos públicos
Inquérito Civil do Gepatria investiga eventual enriquecimento ilícito de ex-vereador de Toledo e do secretário municipal Junior Henrique Pinto por meio de empresas que celebraram ao menos 67 contratos com órgãos públicos. Investigação já reúne relatórios do Gaeco, pedido de quebra de sigilo bancário, diligências patrimoniais e análise de contratos em diversas cidades do Paraná.
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Câmara de Toledo
Pouco mais de um mês após perder o mandato de vereador em decorrência de uma condenação criminal por corrupção, Edimilson Dias Barbosa, o Dudu Barbosa, voltou ao centro de uma investigação do Ministério Público do Paraná. Desta vez, o foco não é um suposto pedido de propina para aprovação de um projeto de lei, mas a atuação de empresas das quais foi sócio e que, segundo o Ministério Público, firmaram dezenas de contratos com administrações municipais paranaenses para prestação de cursos, consultorias e assessorias voltadas à gestão pública.
O procedimento, conduzido pelo Grupo Especializado na Proteção ao Patrimônio Público (Gepatria), busca apurar eventual prática de improbidade administrativa por enriquecimento ilícito envolvendo Dudu Barbosa, o secretário municipal do Meio Ambiente de Toledo, Junior Henrique Pinto, além das empresas IFAG – Instituto de Formação e Assessoria em Gestão Pública, IFAG-PR e IFAG-MS. A hipótese investigada é a existência de um modelo empresarial utilizado para celebrar contratos públicos em diversos municípios, com possível benefício patrimonial aos agentes políticos investigados.
Uma investigação que extrapolou Toledo
O inquérito teve origem em denúncias recebidas pela 4ª Promotoria de Justiça de Toledo, inicialmente relacionadas à contratação da IFAG para organizar o Encontro da Acamop — Associação de Câmaras e Vereadores do Oeste do Paraná.
Na fase inicial, os promotores verificaram que não havia pagamentos diretos da Câmara de Toledo ou da Prefeitura à empresa, afastando, naquele momento, a hipótese específica de contratação vedada ao vereador.
Foi justamente a continuidade das diligências que alterou o rumo da investigação. Ao consultar a base de contratos públicos do Tribunal de Contas e outros sistemas oficiais, o Ministério Público encontrou um cenário muito maior: 67 contratos firmados pelas empresas investigadas com o poder público, distribuídos entre diversos municípios da região Oeste.
Entre as cidades mencionadas aparecem Cascavel, Guaíra, Palotina, Mercedes, Braganey, Santa Teresa do Oeste, Ouro Verde do Oeste e Entre Rios do Oeste. Na avaliação da promotoria, o elevado número de contratos justificava retirar a investigação da esfera exclusivamente local e transferi-la ao Gepatria, órgão especializado no combate à improbidade administrativa.
Contratos de alto valor chamaram atenção
Embora o inquérito ainda não apresente um levantamento financeiro consolidado de todas as contratações, alguns contratos foram destacados pelos investigadores como exemplos do volume de recursos movimentados. Em Entre Rios do Oeste, o Ministério Público cita um contrato de R$ 35.924, firmado em 2018, e outro de R$ 92.990, celebrado em 2019.
Posteriormente, durante diligências de campo, os investigadores localizaram outros contratos relacionados à mesma contratação, apontando movimentação de aproximadamente R$ 138.984 apenas naquele município. Outro exemplo citado envolve Capitão Leônidas Marques. Segundo relatório do Gepatria, após a alteração societária da empresa em 2020, foram identificadas contratações que somariam aproximadamente R$ 137 mil, incluindo um contrato de R$ 39.999,95 para execução de projeto social financiado com recursos do Sistema Único de Saúde durante a pandemia.
Alterações societárias viraram alvo da investigação
Um dos aspectos mais explorados pelo Ministério Público é a sequência de alterações ocorridas no quadro societário das empresas. A IFAG original foi criada em 2017 tendo como sócios Dudu Barbosa e Domenice Ceretta.
Em 2020, Dudu deixou formalmente a empresa e sua participação foi assumida por Junior Henrique Pinto, que posteriormente seria nomeado secretário municipal do Meio Ambiente de Toledo.
Além disso, outra empresa com praticamente o mesmo objeto social foi aberta no Mato Grosso do Sul. Para o Ministério Público, essa reorganização societária merece aprofundamento justamente porque coincidiu com o período em que as empresas passaram a celebrar contratos públicos em diferentes municípios.
Crescimento patrimonial entrou no radar
A investigação também dedica atenção ao patrimônio dos investigados. O inquérito registra que chegaram ao Ministério Público diversas informações sobre aquisição de veículos de luxo, viagens frequentes e até notícia da compra de uma aeronave de pequeno porte.
São mencionados automóveis como BMW e Jeep Compass, além de publicações em redes sociais que, segundo os promotores, demonstrariam um padrão de vida aparentemente incompatível com os rendimentos oficialmente conhecidos. O próprio documento ressalta que esses elementos não constituem prova de irregularidade, mas serviram como fundamento para aprofundar as diligências patrimoniais.
Operação Gulon reforçou a investigação
Outro elemento que fortaleceu a apuração veio de uma investigação completamente distinta. O Ministério Público informa ter analisado mensagens extraídas de celulares apreendidos durante a Operação Gulon, que investigava irregularidades na Câmara de São Pedro do Iguaçu.
Segundo os investigadores, as conversas mostram a oferta informal de cursos da IFAG para câmaras municipais, negociação direta de datas e até proposta de prestação de assessoria legislativa. Esses diálogos passaram a integrar o conjunto probatório utilizado para justificar novas diligências.
Investigação já chegou ao sigilo bancário
A relação de documentos juntados ao procedimento demonstra que o caso já ultrapassou a fase de simples coleta documental. Entre os atos praticados aparecem: relatórios de missão; diligências do Gaeco; cooperação técnica entre unidades do MP; análise de contratos sociais; levantamentos patrimoniais; e pedido de quebra de sigilo bancário dos investigados.
O conjunto indica que o Ministério Público considera haver elementos suficientes para aprofundar a apuração sobre movimentações financeiras e eventual evolução patrimonial incompatível.
Segunda investigação em pouco tempo
A nova investigação amplia a pressão sobre Dudu Barbosa. Em maio deste ano, o então vereador perdeu o mandato após condenação criminal por corrupção relacionada à suposta cobrança de R$ 300 mil para aprovação de um projeto de lei em Toledo. A decisão abriu caminho para a posse dos suplentes Professor Genário e Geraldo Weissheimer, conforme noticiado pela Gazeta do Paraná.
Agora, embora trate de fatos distintos, o novo inquérito recoloca o ex-parlamentar no centro de uma investigação de grande alcance, desta vez voltada à contratação de empresas privadas por administrações públicas em diferentes municípios do Paraná.
Apesar do volume de documentos reunidos e das medidas investigativas já adotadas, o procedimento continua em fase de instrução. Não há, até o momento, decisão judicial reconhecendo a prática de improbidade administrativa ou enriquecimento ilícito, cabendo ao Ministério Público decidir, ao final das diligências, pelo arquivamento ou pelo ajuizamento das ações cabíveis.
Créditos: Redação
