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“Agora eu sei exatamente o que fazer”: a história do jornalista Mano Nunes

Em entrevista ao Mais, o jornalista Mano Nunes relembra quase duas décadas de produção independente na internet, fala sobre a democratização da comunicação, cultura hip-hop, jornalismo e os desafios da profissão

Por Julia Maraschi

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“Agora eu sei exatamente o que fazer”: a história do jornalista Mano Nunes Créditos: Divulgaçaõ

Há 19 anos produzindo conteúdo para a internet, quando o YouTube ainda dava os primeiros passos no Brasil, o jornalista Mano Nunes acompanhou de perto as transformações da comunicação digital. Criador do canal Bem Bolado TV, ele recebeu artistas, músicos, políticos e personagens da cultura brasileira, construindo uma trajetória marcada pelo jornalismo independente. Em entrevista ao Mais, Mano falou sobre o início da carreira, a influência da cultura hip-hop, a entrevista com os Racionais MC's, a importância do networking e refletiu sobre o papel do jornalismo em meio ao crescimento dos influenciadores digitais.

Início de tudo

Antes de se tornar jornalista, Mano Nunes já tinha o hábito de gravar vídeos com os amigos, a câmera servia para gravar ideias, rotinas e brincadeiras entre eles. Foi nesse contexto que surgiu o contato com uma ferramenta que ainda dava os primeiros passos: o YouTube.

Em 2007, um amigo de Mano Nunes voltou dos Estados Unidos e apresentou a nova plataforma ao grupo. Na época, o Youtube ainda era novidade e não tinha o espaço que ocupa atualmente na produção e distribuição de conteúdo. Ao perceber o potencial da ferramenta, Mano e os amigos decidiram levar para internet o trabalho que faziam de maneira informal, e então no dia 20 de abril de 2007, foi criado o programa Bem Bolado Tv.

O canal teve início sem a estrutura de empresa e sem a dimensão que teria anos depois. Era, inicialmente, um espaço construído entre amigos que encontraram na internet uma nova possibilidade de criação. Com o tempo, porém, o conteúdo passou a incorporar o jornalismo e a cobertura de diferentes acontecimentos, dando origem ao que Mano define como uma experiência de jornalismo alternativo.

A trajetória também revela uma percepção antecipada sobre os caminhos da mídia. Quando o projeto começou, a internet ainda não era vista por todos como um dos principais espaços para produção jornalística. Mano, no entanto, decidiu apostar naquele ambiente e acompanhou de dentro a transformação provocada pela expansão das plataformas digitais.

Hoje, ao olhar para os 19 anos de trajetória, ele não enxerga apenas a história de um canal, mas também parte da transformação da própria comunicação. O que começou com uma câmera entre amigos se tornou um projeto de jornalismo independente e acompanhou a internet deixar de ser uma novidade para se tornar um dos principais meios de produção, circulação e consumo de informação.

Uma trajetória construída em coletivo

Desde o início, o Bem Bolado Tv foi construído com a visão do “coletivo”, o entrevistado conta que sempre gostou de trabalhar com outras pessoas, e que mesmo antes do início do canal, a produção nunca foi feita individualmente. A câmera, os projetos e as ideias circulavam entre pessoas que compartilhavam a vontade de criar conteúdo e experimentar novas possibilidades na comunicação.

Ao longo dos 19 anos de trajetória, mais de 50 pessoas já passaram pelo Bem Bolado TV. Para Mano, essa construção coletiva é parte fundamental da história do projeto. A ideia de fazer jornalismo na internet surgiu, desde o começo, acompanhada pela disposição de convidar outras pessoas para participar, testar formatos e colocar projetos em prática.

Essa construção também se estende para as relações criadas no meio jornalístico, o entrevistado conta sobre a carreira, os vínculos construídos e troca de experiências com quem estava ao seu redor. Essa lógica aparece não apenas nos profissionais que passaram pelo canal, mas também nos convidados e artistas que aceitaram compartilhar suas histórias.

Mais do que uma produção feita por várias mãos, o coletivo se tornou parte da identidade do Bem Bolado TV. Para Mano, a comunicação nunca foi uma atividade isolada: é justamente a partir das pessoas, das parcerias e das histórias compartilhadas que novos projetos ganham vida.

Periferia como ponto de partida

A relação de Mano Nunes com o rap e com a cultura periférica começou antes de o Bem Bolado TV se consolidar como um projeto jornalístico. Nascido no bairro Guarujá, na região do extremo sul de Cascavel, o jornalista cresceu em contato com uma realidade que, segundo ele, é marcada por uma forte identidade cultural. Foi desse ambiente que surgiu também uma aproximação natural com as histórias e os personagens da periferia.

Quando começou a trabalhar com jornalismo, Mano passou a observar naquele espaço diferentes pautas e pessoas que considerava interessantes. A proximidade com o rap veio, então, como uma extensão dessa vivência. Muitos dos artistas que entrevistava já faziam parte de seu círculo de amizades, o que fez com que a cultura hip-hop ocupasse naturalmente um espaço importante em seu trabalho. E foi então que o Bem Bolado TV passou a dar visibilidade a artistas e histórias que nem sempre encontravam espaço nos meios tradicionais de comunicação. Mano acompanhou de perto a cena do rap em Cascavel e entrevistou nomes ligados ao movimento e transformou em pauta um universo que já fazia parte de sua própria trajetória.

Entrevista com os Racionais MC's

Entre as histórias que marcaram a trajetória de Mano Nunes, uma das mais simbólicas aconteceu em 2013, quando o jornalista conseguiu entrevistar os quatro integrantes dos Racionais MC's durante uma passagem do grupo por Cascavel.

Na época, o acesso aos artistas era restrito e a presença da imprensa no camarim não era algo simples de conseguir. Para Mano, a entrevista acabou se tornando um dos momentos mais importantes de sua carreira, não apenas pelo nome dos entrevistados, mas pelo caminho percorrido até chegar até eles.

A oportunidade veio justamente de onde menos esperava: o segurança do evento, que abriu a porta para a entrevista. E mais do que o encontro com um dos maiores nomes do rap brasileiro, porém, a experiência deixou uma lição que Mano carrega na profissão: valorizar todas as pessoas.

O jornalista lembra que o profissional que está diante de uma oportunidade nem sempre sabe quem poderá ajudá-lo a chegar até ela. Para Mano, o episódio resume uma das características fundamentais do jornalismo: construir relações, fazer contatos e reconhecer a importância de cada pessoa envolvida em uma história.

“Se eu já tenho o não, vou fazer o que eu gosto”

A escolha pelo jornalismo também foi marcada por dúvidas, críticas e pela necessidade de romper com um caminho que não fazia sentido para Mano Nunes. Apesar de cursar outra área antes de se tornar jornalista, o entrevistado conta que sempre se interessou pela área da Humanas, Ciências Sociais e política, mas acabou optando por seguir inicialmente uma formação que não correspondia aos seus interesses.

A decisão de mudar de área veio depois de perceber que o medo de não ter sucesso não deveria ser maior do que a vontade de trabalhar com aquilo que realmente gostava. Mano relembra que, assim como muitos profissionais da área, ouviu que poderia “passar fome” ao escolher o jornalismo. Para ele, porém, a realidade de onde veio já era marcada por dificuldades e pela presença do “não”. Se o risco existiria de qualquer forma, então valeria a pena tentar em uma profissão que despertasse interesse e propósito.

Foi a partir desse raciocínio que decidiu apostar no jornalismo. “Vou na qual eu gosto. Porque lá eu tenho o não, mas pelo menos eu posso tentar e posso fazer algo que eu amo”, afirmou. A escolha representa não apenas uma mudança de curso, mas também a decisão de transformar uma atividade que já fazia por paixão em profissão, encontrando na comunicação um espaço para contar histórias, conhecer pessoas e construir sua própria trajetória.

Humildade abre mais portas que fama

Entre as histórias que mais marcaram sua trajetória, Mano destaca a relação com convidados como KL Jay e Pedro Muffato. Para ele, os dois representam algo que vai além da fama: a capacidade de manter a simplicidade e estender a mão para quem está começando. Mesmo com trajetórias consolidadas, ambos aceitaram participar do Bem Bolado TV e compartilhar suas histórias.

Para Mano, essas experiências reforçam uma das principais lições que aprendeu na comunicação: valorizar todas as pessoas. Segundo ele, muitas vezes, quem parece estar mais distante de uma oportunidade é justamente quem pode ajudar a abrir uma porta.

jornalismo continua sendo sobre pessoas

Depois de quase duas décadas produzindo conteúdo na internet, Mano Nunes olha para a própria trajetória e encontra uma certeza: a comunicação mudou, mas a essência permanece. Do YouTube que ainda dava os primeiros passos às novas plataformas, foram entrevistas, amizades e histórias que ajudaram a construir seu caminho no jornalismo.

Entre artistas consagrados, personagens da periferia e pessoas que encontrou pelo caminho, Mano aprendeu que nenhuma história se constrói sozinho. Para ele, mais do que alcançar grandes nomes ou números na internet, comunicar é criar conexões, ouvir diferentes realidades e dar espaço para quem tem algo a dizer.

E talvez seja justamente essa a maior marca de seus 19 anos de Bem Bolado TV: continuar acreditando que, por trás de cada pauta, existe uma pessoa.

Acesse aqui a entrevista completa

Créditos: Julia Maraschi Acesse nosso canal no WhatsApp