Setembro/2026

Entre rimas e resistência: Mamacita MC fala sobre trajetória, preconceito e novos caminhos no rap

“10 anos não são 10 dias”: em entrevista ao Mais+, Mamacita MC conta sua história no hip hop, os desafios enfrentados como mulher nas batalhas de rima e os novos projetos que marcam a próxima fase da carreira

Por Julia Maraschi

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Entre rimas e resistência: Mamacita MC fala sobre trajetória, preconceito e novos caminhos no rap Créditos: Divulgação

Há quase dez anos, Raquel Kleinhans Pereira encontrou no hip hop mais do que uma forma de fazer música. Sob o nome de Mamacita MC, ela construiu uma trajetória marcada por batalhas, aprendizado, posicionamento e pela busca por espaço em uma cena na qual, segundo ela, mulheres ainda precisam enfrentar obstáculos para serem reconhecidas. Atual campeã do regional misto de Cascavel, a rapper foi a convidada de Valéria Mendes no Mais+, podcast de variedades e cultura da Gazeta do Paraná.

A artista conta que a relação com a música começou ainda em casa, influenciada pelos pais, mas foi o rap que despertou uma identificação diferente. Entre as primeiras referências, Mamacita lembra de ouvir Racionais e, posteriormente, descobrir o rap gospel e outros nomes do hip hop. A artista também passou por diferentes elementos da cultura antes de consolidar sua trajetória como MC.

Respeito na cena

Ao falar sobre a presença feminina nas batalhas de rima, Mamacita relembra que, no início, adotava roupas largas e comportamentos que considerava mais próximos do que era visto como masculino dentro daquele ambiente.

Ela conta que percebeu que a aparência poderia interferir na forma como era recebida pelo público e passou a questionar por que uma mulher precisaria abrir mão da própria feminilidade para ser levada a sério. “Eu me comportava como homem para eu poder sobreviver naquele meio”, relembra a artista.

Com o tempo, decidiu assumir também roupas mais femininas, sem deixar que isso definisse sua capacidade dentro das batalhas. A discussão se amplia para situações de preconceito vivenciadas por mulheres e por outros grupos dentro do hip hop. Mamacita também compartilha experiências pessoais relacionadas à sua identidade racial e afirma que passou a observar com mais atenção comportamentos que, durante muito tempo, estavam naturalizados ao seu redor. Para ela, o movimento precisa manter o caráter antirracista que historicamente o acompanha.

Trajetória

A construção da carreira também aconteceu longe dos grandes centros. Sem empresário, Mamacita conta que foi construindo público de maneira independente, utilizando as redes sociais não apenas para divulgar suas rimas, mas também para criar conteúdos que aproximasse novos espectadores das batalhas.

Foi nesse processo que surgiu a aproximação com a Batalha da Aldeia. Depois de acompanhar seu trabalho por cerca de dois anos, a organização passou a interagir com a artista. Mamacita então entrou em contato com Lucão, um dos nomes ligados à batalha, e conseguiu viabilizar sua participação.

Chegar a um dos maiores palcos das batalhas de rima no país, saindo do interior do Paraná, trouxe também uma nova dimensão de pressão. Câmeras, público e expectativa transformaram a experiência em um desafio diferente daqueles enfrentados nas batalhas locais.

Para Mamacita, entretanto, a experiência foi resultado de um processo gradual. A artista destaca que não houve uma chegada repentina ao reconhecimento: antes dos grandes palcos, houve anos de construção, produção independente e presença constante na cena.

Rap e posicionamento

Outro eixo da conversa foi a relação entre rap, liberdade de expressão e posicionamento. Mamacita afirma que não acredita em um hip hop neutro e defende que os artistas precisam considerar o impacto daquilo que dizem, especialmente quando determinadas falas podem reforçar preconceitos.

A rapper também falou sobre os ataques que recebe na internet e sobre a maneira como escolhe lidar com eles. Em vez de responder a todas as provocações, passou a selecionar quais discussões realmente valem sua energia. Para ela, aprender a não entrar em todos os conflitos também fez parte do amadurecimento proporcionado pelo hip hop.

A artista resume essa mudança ao diferenciar visibilidade de relevância. Em sua avaliação, mais importante do que simplesmente ser vista é construir uma trajetória que tenha significado e coerência com aquilo que acredita.

Projetos

A trajetória de Mamacita também passa pela música autoral. Entre os trabalhos que considera importantes está "Memorial das Noites Claras", projeto que, segundo ela, nasceu de um período difícil e aborda superação e a tentativa de acreditar novamente em si mesma de uma maneira menos romantizada.

Já "Respira e Ora” ocupa um lugar ainda mais pessoal. A música, lançada anos atrás, deu origem ao nome artístico Mamacita e aborda a depressão a partir de experiências distintas. A rapper explica que uma das faixas é direcionada a outra pessoa, enquanto a segunda volta o olhar para si mesma, explorando a sensação de viver sem encontrar sentido nas atividades cotidianas.

Agora, a artista prepara uma nova fase. Um single deve ser lançado antes do fim do ano e, em dezembro, está previsto um novo EP, o primeiro maior projeto da artista em três anos, com participações de artistas paranaenses que admira. A proposta, segundo Mamacita, é construir um trabalho mais amplo e conceitual, fortalecendo a conexão com o público.

No encerramento da conversa, a rapper deixou um conselho que resume a própria trajetória: persistir sem romantizar os riscos de uma carreira artística. Depois de uma década no hip hop, ela defende que é possível construir uma carreira sem necessariamente abandonar toda a estabilidade financeira de uma vez.

“10 anos não são 10 dias”, afirma Mamacita ao falar sobre o tempo necessário para construir uma trajetória. Para ela, persistência não significa ignorar a realidade, mas encontrar maneiras de continuar avançando sem colocar toda a vida em risco.

A conversa completa com Mamacita MC está disponível no Mais+, com Valéria Mendes, e percorre desde as primeiras experiências da rapper no hip hop até os grandes palcos, os enfrentamentos dentro e fora das batalhas e os próximos capítulos de sua carreira.

Acesse a íntegra no Youtube do Gcast

Créditos: Julia Maraschi Acesse nosso canal no WhatsApp