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Tecnologia com bactérias aumenta produtividade da soja em 8,3% no Paraná e reduz custos no campo

Pesquisa da Embrapa e do IDR-Paraná realizada em lavouras comerciais de 17 municípios mostra que uso de microrganismos benéficos eleva a produção de grãos e dispensa fertilizantes nitrogenados

Gazeta do Paraná · · 7 min de leitura
soja
soja — Crédito: Geraldo Bubniak/AEN

Uma tecnologia baseada na utilização de bactérias benéficas pode aumentar a produtividade da soja em mais de 8% e reduzir a necessidade de insumos químicos nas lavouras paranaenses. Resultados de pesquisas conduzidas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e pelo Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná) apontam que a aplicação conjunta de microrganismos nas sementes proporcionou um ganho médio de 8,33% na produção de grãos, além de contribuir para a redução dos custos agrícolas.

A técnica, conhecida como coinoculação, utiliza bactérias capazes de favorecer o desenvolvimento das plantas e melhorar o aproveitamento do nitrogênio disponível na atmosfera. O processo representa uma alternativa para aumentar a eficiência da produção sem depender da aplicação de fertilizantes nitrogenados minerais, tradicionalmente associados a custos elevados e impactos ambientais.

Os resultados foram obtidos a partir de uma década de acompanhamento de lavouras comerciais no Paraná, iniciado na safra 2015/2016. Na temporada 2024/2025, os pesquisadores avaliaram 22 Unidades de Referência Tecnológica distribuídas por 17 municípios, com diferentes características de solo, clima e sistemas de cultivo.

Nas áreas que receberam a coinoculação, a produtividade média alcançou 3.916 quilos de soja por hectare, enquanto nas áreas sem inoculação o rendimento foi de 3.615 quilos. A diferença de 301 quilos por hectare equivale a aproximadamente cinco sacas adicionais de 60 quilos para cada hectare cultivado.

Os resultados reforçam o potencial da biotecnologia para melhorar a rentabilidade da agricultura paranaense, especialmente em um cenário no qual os produtores precisam conciliar custos de produção, produtividade e sustentabilidade ambiental.

 

Cinco sacas a mais por hectare

A diferença de produtividade observada nas áreas pesquisadas pode representar um ganho expressivo quando considerada a dimensão das propriedades rurais. Em uma lavoura hipotética de 100 hectares, por exemplo, um aumento de 301 quilos por hectare corresponderia a 30,1 toneladas adicionais de soja, ou pouco mais de 500 sacas de 60 quilos.

O cálculo é ilustrativo e considera a repetição do resultado médio observado na pesquisa. Na prática, o desempenho varia conforme as condições de cada propriedade, a qualidade do solo, o clima, o manejo agrícola e a correta aplicação dos microrganismos.

Além de superar o rendimento das áreas sem inoculação, as lavouras que receberam a tecnologia apresentaram produtividade superior às médias estadual e nacional da safra 2024/2025.

Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) utilizados no levantamento, a produtividade média paranaense foi de 3.663 quilos por hectare, enquanto a brasileira ficou em 3.561 quilos. Nas unidades avaliadas com coinoculação, o resultado de 3.916 quilos por hectare superou ambos os indicadores.

A pesquisa foi realizada em condições reais de cultivo, e não apenas em ambientes laboratoriais. As unidades de referência foram instaladas em propriedades comerciais, permitindo acompanhar a resposta da tecnologia diante das condições enfrentadas pelos agricultores.

 

Como as bactérias ajudam a produzir mais soja

A coinoculação consiste na aplicação conjunta de microrganismos que desempenham funções complementares no desenvolvimento das plantas. No caso da soja, os pesquisadores utilizaram bactérias dos gêneros Bradyrhizobium e Azospirillum.

As bactérias do gênero Bradyrhizobium são responsáveis pela fixação biológica do nitrogênio, processo no qual o elemento presente na atmosfera é transformado em formas que podem ser aproveitadas pelas plantas.

O nitrogênio é essencial para o crescimento vegetal e para a formação dos grãos. A soja necessita de aproximadamente 80 quilos desse nutriente para produzir uma tonelada de grãos, segundo a Embrapa.

Ao estabelecer uma relação com as raízes, as bactérias formam estruturas chamadas nódulos, nas quais ocorre a fixação biológica. Dessa maneira, a planta consegue obter o nitrogênio necessário ao desenvolvimento sem depender da aplicação de fertilizantes nitrogenados minerais.

Já as bactérias do gênero Azospirillum atuam como promotoras do crescimento vegetal. Sua utilização conjunta com Bradyrhizobium favorece a formação de nódulos nas raízes e potencializa os benefícios da inoculação.

A técnica não elimina a necessidade de outros cuidados com a fertilidade do solo nem substitui todos os fertilizantes utilizados na agricultura. Nutrientes como fósforo e potássio continuam sendo necessários conforme as características da lavoura.

 

Economia pode chegar a bilhões de dólares

Além dos ganhos de produtividade, a utilização de bactérias fixadoras de nitrogênio representa uma importante economia para a agricultura brasileira.

De acordo com estimativas apresentadas pela Embrapa, a inoculação e a coinoculação da soja proporcionaram, somente em 2024, uma economia de aproximadamente US$ 25 bilhões ao país, principalmente pela dispensa de fertilizantes nitrogenados minerais na cultura.

O impacto econômico está relacionado à capacidade da tecnologia de fornecer nitrogênio às plantas por meio de processos biológicos, reduzindo a dependência de produtos industriais.

A Embrapa também estima que a utilização dessas bactérias tenha contribuído para evitar emissões superiores a 260 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente em 2024.

Esses valores representam estimativas nacionais dos benefícios da fixação biológica de nitrogênio e não correspondem exclusivamente aos resultados das 22 unidades paranaenses avaliadas na safra 2024/2025.

O potencial ambiental está associado principalmente à redução da necessidade de fabricação e utilização de fertilizantes nitrogenados, processos que demandam energia e podem gerar emissões de gases de efeito estufa.

 

Tecnologia ainda tem espaço para crescer

Apesar dos benefícios identificados pela pesquisa, a adoção da coinoculação ainda não alcança a maioria das propriedades produtoras de soja.

Segundo levantamento citado pela Embrapa, aproximadamente 64% dos agricultores paranaenses consultados utilizaram inoculantes na safra 2024/2025. Entretanto, a aplicação conjunta das bactérias Bradyrhizobium e Azospirillum foi registrada em cerca de 28% das áreas cultivadas com soja no Estado, conforme pesquisa de mercado da ANPII Bio/Kynetec.

A diferença demonstra que a inoculação convencional já está relativamente difundida, enquanto a coinoculação ainda apresenta potencial de expansão.

No Brasil, a utilização de inoculantes também ocupa uma parcela expressiva das lavouras. Estimativas referentes a 2024 indicam que aproximadamente 85% dos 47 milhões de hectares cultivados com soja adotavam a inoculação anual, enquanto a coinoculação estava presente em cerca de 35% da área.

A ampliação dessas práticas depende de fatores como acesso à assistência técnica, disponibilidade de produtos de qualidade, conhecimento sobre a aplicação correta e condições adequadas de armazenamento e utilização dos microrganismos.

 

Pesquisa aproxima ciência da realidade dos produtores

Um dos diferenciais do trabalho desenvolvido pela Embrapa Soja e pelo IDR-Paraná está na realização dos experimentos diretamente em propriedades rurais.

As 22 unidades de referência avaliadas na safra 2024/2025 contemplaram diferentes tipos de solo, condições climáticas, épocas de semeadura e sistemas de produção, incluindo áreas com sucessão de culturas como milho segunda safra, trigo, aveia e azevém.

Essa diversidade permite avaliar a tecnologia em situações próximas daquelas encontradas pelos agricultores no cotidiano, embora os resultados médios não representem uma garantia de aumento de produtividade em todas as propriedades.

O pesquisador André Prando, da Embrapa Soja, e o coordenador técnico do projeto Grãos do IDR-Paraná, Edivan Possamai, destacam que o acompanhamento realizado ao longo de dez anos confirmou benefícios produtivos, econômicos e ambientais da utilização adequada dos inoculantes.

A pesquisa também demonstra a importância da cooperação entre instituições científicas e órgãos de extensão rural para transformar conhecimento técnico em alternativas aplicáveis à produção agrícola.

Com a necessidade crescente de melhorar a eficiência das lavouras e controlar despesas, a utilização de microrganismos benéficos tende a ganhar relevância nas decisões dos produtores. Os resultados obtidos no Paraná mostram que parte dos ganhos de produtividade pode vir não apenas de máquinas, fertilizantes ou defensivos, mas também de processos biológicos que ocorrem no próprio solo.

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