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Agroindústrias habilitadas a vender em todo o Paraná mais que triplicam em dois anos e meio

Expansão do sistema de certificação sanitária abre novos mercados para pequenos produtores de queijos, embutidos, mel e derivados; custos de adequação ainda representam desafio para os empreendimentos familiares

Gazeta do Paraná · · 7 min de leitura
Produtos lácteos da agricultura familiar comercializados pela cooperativa Siscooplaf, de Cascavel, durante o Show Rural
Produtos lácteos da agricultura familiar comercializados pela cooperativa Siscooplaf, de Cascavel, durante o Show Rural — Crédito: IDR-Paraná/Divulgação

O número de agroindústrias habilitadas a comercializar produtos de origem animal em todo o território paranaense mais que triplicou em dois anos e meio. Entre dezembro de 2023 e maio de 2026, a quantidade de estabelecimentos passou de 55 para 173, crescimento de aproximadamente 214,5%. A expansão reflete o avanço da regularização sanitária e a abertura de novos mercados para pequenos empreendimentos rurais, que antes tinham suas vendas limitadas aos municípios de origem.

A ampliação ocorre por meio do Sistema Unificado Estadual de Sanidade Agroindustrial Familiar, Artesanal e de Pequeno Porte (Susaf-PR), que permite a comercialização de produtos inspecionados municipalmente em outras cidades do Paraná, desde que os estabelecimentos atendam às exigências sanitárias e sejam habilitados no sistema.

Na prática, a certificação pode transformar o alcance comercial de uma pequena agroindústria. Um produtor de queijos, salames ou derivados de leite que antes estava restrito ao mercado local passa a ter a possibilidade de negociar com supermercados, distribuidores, restaurantes e consumidores de outras regiões do Estado.

O crescimento, entretanto, não significa que todos os empreendimentos estejam vendendo em escala estadual ou que tenham registrado aumento de faturamento. A habilitação representa uma autorização para ampliar a comercialização, enquanto o desempenho econômico depende de fatores como capacidade produtiva, logística, custos e acesso aos compradores.

 

De mercados municipais para todo o Paraná

Criado por legislação estadual em 2013 e regulamentado em 2020, o Susaf-PR busca superar uma das principais barreiras enfrentadas pelas pequenas agroindústrias: a limitação territorial da comercialização de produtos de origem animal.

Tradicionalmente, estabelecimentos registrados apenas no Serviço de Inspeção Municipal (SIM) podem vender seus produtos dentro do próprio município. Para alcançar mercados mais amplos, precisam atender a exigências específicas de inspeção e reconhecimento sanitário.

Com o Susaf, os serviços municipais que cumprem os requisitos estabelecidos podem ter sua equivalência reconhecida no âmbito estadual. Dessa maneira, as agroindústrias indicadas e habilitadas passam a comercializar seus produtos em todo o Paraná.

O sistema contempla alimentos como queijos, leite e derivados, embutidos, carnes processadas, pescado, ovos e mel. A autorização depende da regularidade sanitária do estabelecimento e do cumprimento das normas aplicáveis a cada atividade.

Para os pequenos produtores, a possibilidade de ultrapassar as fronteiras municipais representa uma mudança importante. Em cidades com poucos milhares de habitantes, o mercado consumidor local pode ser insuficiente para sustentar a expansão da produção. A habilitação estadual amplia o universo de potenciais compradores, embora não garanta, por si só, a conquista desses mercados.

 

Oeste do Paraná reúne experiências de expansão

A região Oeste tem participação importante nesse processo, especialmente pela presença de propriedades familiares, cooperativas e pequenas empresas dedicadas à transformação de produtos agropecuários.

Durante o Show Rural Coopavel de 2026, realizado em Cascavel, duas agroindústrias da região receberam certificações do Susaf: a Embutidos Espigão Azul, de Cascavel, e a Embutidos Grassi, de Matelândia

A conquista permite que os estabelecimentos ampliem suas possibilidades de comercialização para além dos municípios onde estão instalados.

No caso da Embutidos Espigão Azul, o agricultor familiar André Henrique Paetzold relatou que o processo de adequação envolveu aproximadamente cinco anos de reformas e investimentos. O período demonstra que a regularização sanitária pode exigir planejamento de longo prazo, especialmente para empreendimentos com menor capacidade financeira.

Outras agroindústrias da região também avançaram na obtenção de certificações. Durante o mesmo evento, empreendimentos de Diamante D’Oeste e Catanduvas receberam o Selo Arte, destinado a produtos alimentícios artesanais de origem animal que atendem aos requisitos estabelecidos pela legislação federal.

Diferentemente do Susaf, que permite a comercialização estadual dos produtos habilitados, o Selo Arte autoriza a venda em todo o território nacional dos produtos específicos que recebem a certificação.

 

Adequação sanitária exige investimentos

Embora a expansão das habilitações represente novas oportunidades, a regularização continua sendo um desafio para parte das agroindústrias familiares.

As exigências sanitárias podem envolver adequações na estrutura física, aquisição de equipamentos, implantação de procedimentos de controle de qualidade, organização de documentos e realização periódica de análises laboratoriais.

Para estabelecimentos de pequeno porte, essas despesas podem comprometer uma parcela significativa dos recursos disponíveis para investimento.

O custo dos exames laboratoriais, por exemplo, é uma das dificuldades reconhecidas pelo próprio governo estadual. Em outubro, a Secretaria da Agricultura e do Abastecimento divulgou um projeto de apoio a agroindústrias de pequeno porte, com previsão de investimento de R$ 2,08 milhões para subsidiar análises físico-químicas e microbiológicas de produtos.

A iniciativa busca permitir que estabelecimentos indicados ao Susaf realizem exames sem arcar diretamente com os custos durante o período de participação no projeto.

O benefício, entretanto, não elimina a necessidade de manutenção permanente dos controles sanitários. Após o encerramento do subsídio, os empreendimentos deverão continuar cumprindo as exigências aplicáveis à produção e à comercialização.

A medida evidencia um dos principais desafios da expansão do setor: garantir que a abertura de mercados seja acompanhada de condições econômicas para manter a regularidade dos estabelecimentos.

 

Certificação não significa aumento automático das vendas

A possibilidade de comercializar produtos em todo o Paraná representa uma oportunidade, mas também coloca as pequenas agroindústrias diante de novas exigências comerciais.

Para fornecer a supermercados e distribuidores, por exemplo, os estabelecimentos precisam assegurar regularidade de produção, padronização, embalagens adequadas e capacidade de entrega.

Em determinados segmentos, especialmente os de alimentos perecíveis, o transporte refrigerado e a manutenção da cadeia de frio podem elevar os custos logísticos.

A distância entre a propriedade e os centros consumidores também influencia a competitividade. Um empreendimento localizado no interior do Estado pode encontrar dificuldades para atender compradores de regiões mais distantes, mesmo possuindo autorização sanitária para isso.

Outro fator é a concorrência com indústrias de maior porte, que geralmente apresentam maior capacidade de produção e distribuição.

Por essa razão, a ampliação do número de estabelecimentos habilitados não permite concluir que houve crescimento proporcional do faturamento ou da geração de empregos. Para medir esses resultados, seriam necessários dados específicos sobre vendas, produção e desempenho econômico das agroindústrias.

 

Agricultura familiar busca agregar valor à produção

A transformação de matérias-primas em alimentos industrializados ou artesanais constitui uma alternativa para ampliar a renda das propriedades rurais.

Em vez de comercializar exclusivamente leite, carne ou outros produtos primários, os agricultores podem investir na fabricação de queijos, iogurtes, embutidos, defumados e alimentos com características regionais.

O processamento permite agregar valor à produção e diversificar as fontes de receita. Também pode contribuir para a permanência das famílias no campo, especialmente quando envolve diferentes gerações na administração dos empreendimentos.

Entretanto, os benefícios dependem da viabilidade econômica de cada atividade. A industrialização exige investimentos, conhecimentos técnicos, atendimento às normas sanitárias e capacidade de comercialização.

O Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná (IDR-Paraná) atua na orientação de produtores familiares, incluindo o planejamento das instalações, os processos de fabricação, a rotulagem e a busca por novos mercados.

A assistência técnica é especialmente importante para estabelecimentos que pretendem deixar a informalidade ou ampliar sua área de atuação comercial.

 

Crescimento amplia desafio da fiscalização

A expansão das agroindústrias habilitadas também exige atenção à capacidade de fiscalização dos serviços públicos responsáveis pela segurança dos alimentos.

O funcionamento do Susaf depende da atuação dos Serviços de Inspeção Municipal e do reconhecimento dos procedimentos adotados, sob coordenação da Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar).

A regularização não se resume à concessão de um certificado. Os estabelecimentos precisam manter condições sanitárias adequadas, cumprir procedimentos de controle e permanecer sujeitos às atividades de inspeção.

À medida que aumenta o número de agroindústrias participantes, cresce também a necessidade de estrutura técnica, profissionais qualificados e acompanhamento dos processos produtivos.

O desafio é conciliar a ampliação das oportunidades econômicas com a proteção dos consumidores, garantindo que os produtos comercializados atendam aos padrões de qualidade e segurança exigidos pela legislação.

O avanço de 55 para 173 estabelecimentos habilitados demonstra que mais empreendimentos conseguiram superar a barreira sanitária que restringia suas vendas ao mercado municipal. A próxima etapa será avaliar em que medida essa abertura efetivamente se transforma em aumento de renda, empregos e fortalecimento da economia rural.

Para os pequenos produtores paranaenses, conquistar a autorização para vender em todo o Estado representa uma oportunidade importante. Transformá-la em crescimento sustentável, porém, depende de condições que vão muito além da certificação.

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