Vazamento expõe dados de 58 mil câmeras do Smart Sampa; prefeitura afasta servidor
Informações sigilosas teriam ficado acessíveis na internet por cerca de 11 meses; gestão Ricardo Nunes nega falha na plataforma e afirma que reforçou a segurança do sistema
A Prefeitura de São Paulo investiga o vazamento de informações sigilosas do Smart Sampa, sistema de monitoramento por câmeras e reconhecimento facial da capital paulista. Segundo informações divulgadas nesta terça-feira (20), dados que permitiriam acesso indevido a imagens de mais de 58 mil câmeras ficaram expostos na internet por aproximadamente 11 meses.
A administração municipal confirmou o vazamento, mas negou que tenha ocorrido uma falha de segurança na plataforma. Segundo a prefeitura, a divulgação ilegal foi feita por um agente que tinha autorização para acessar o sistema. O servidor foi afastado, e sua conduta está sendo investigada pela Corregedoria da Guarda Civil Metropolitana.
As câmeras conectadas ao Smart Sampa estão instaladas em diferentes locais da cidade, incluindo ruas, escolas, creches e hospitais.
PREFEITURA DIZ QUE REFORÇOU A SEGURANÇA
A gestão municipal informou que o repositório de dados disponibilizado ilegalmente foi retirado do ar e que os mecanismos de proteção do sistema foram reforçados.
Entre as medidas anunciadas estão o uso de senhas exclusivas, autenticação em dois fatores e exigência de códigos enviados por SMS para a criação de novas senhas.
A prefeitura sustenta que não houve uso indevido da plataforma e afirma que o programa passa por fiscalização do Tribunal de Contas do Município, consultoria especializada em governança e privacidade de dados e auditorias previstas em contrato.
A administração também informou que envia relatórios semestrais de transparência ao Ministério Público.
SISTEMA CUSTA R$ 10 MILHÕES POR MÊS
Lançado em 2024, durante a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB), o Smart Sampa é uma das principais iniciativas municipais na área de segurança pública. A central de monitoramento funciona 24 horas por dia e recebe imagens de câmeras públicas e privadas integradas ao programa.
O custo mensal do sistema é de aproximadamente R$ 10 milhões. A tecnologia utiliza inteligência artificial para comparar imagens captadas pelas câmeras com bases oficiais de pessoas procuradas pela Justiça e desaparecidas. Também permite identificar veículos roubados, furtados ou com suspeita de clonagem de placas.
Segundo o balanço mais recente divulgado pela prefeitura, o programa contribuiu para a captura de 3.628 foragidos da Justiça e a localização de 284 pessoas desaparecidas.
ESTUDO QUESTIONOU EFICÁCIA
A eficácia do Smart Sampa na redução da criminalidade também foi questionada por pesquisadores. Um estudo do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), divulgado em 2025, concluiu que a implantação do sistema não produziu redução estatisticamente significativa nas taxas de furtos, roubos e homicídios analisadas.
O levantamento comparou dados de São Paulo entre março de 2024 e abril de 2025 com indicadores de outros municípios paulistas que não haviam adotado o programa. A pesquisa também não identificou aumento significativo na produtividade policial, medida por prisões em flagrante e cumprimento de mandados.
O estudo apontou ainda casos de identificação equivocada pelo sistema e levantou preocupações sobre vieses raciais e a utilização de bancos de dados desatualizados. A prefeitura contestou a metodologia e as conclusões da pesquisa.
MODELO INSPIROU PROPOSTA NACIONAL
O Smart Sampa também serviu de referência para uma proposta de segurança pública apresentada pelo candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL), chamada Smart Brasil.
O plano prevê a criação de um sistema nacional de monitoramento por câmeras e reconhecimento facial, integrado a bancos de dados criminais, com a instalação de mais de 1 milhão de câmeras em parceria com estados e municípios.
O vazamento agora investigado amplia o debate sobre a segurança e a privacidade em sistemas de vigilância que concentram grandes volumes de imagens e informações pessoais. A apuração deverá esclarecer como os dados ficaram expostos, quais informações foram acessadas e se houve consequências para as pessoas monitoradas.
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