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Trabalho infantil recua 9,2%, mas ainda atinge 1,5 milhão no Brasil

Dados do IBGE mostram queda em 2025, mas 525 mil crianças e adolescentes estavam nas piores formas de trabalho infantil

Gabriel Porta · · 5 min de leitura
Trabalho infantil recua 9,2%, mas ainda atinge 1,5 milhão no Brasil
Trabalho infantil recua 9,2%, mas ainda atinge 1,5 milhão no Brasil — Crédito: Reprodução / Redes Sociais

O Brasil tinha 1,499 milhão de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos em situação de trabalho infantil em 2025, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta sexta-feira (16). O número representa 4% da população brasileira nessa faixa etária.

Apesar do contingente ainda elevado, houve uma redução de 9,2% em relação a 2024, quando 1,65 milhão de crianças e adolescentes estavam nessa condição. Na comparação com 2016, quando eram 2,1 milhões, a queda chega a 28,6%.

A redução ocorre depois de um período de oscilações. Entre 2016 e 2019, o trabalho infantil caiu 15,7%, mas voltou a crescer em 2022, com alta de 7%, em um período marcado pelos efeitos da pandemia de Covid-19. Depois, houve queda de 14,7% entre 2022 e 2023 e novo aumento, de 2,1%, entre 2023 e 2024.

Segundo o pesquisador do IBGE Gustavo Fontes, diferentes fatores podem ter contribuído para o resultado mais recente, entre eles políticas públicas, aumento da renda e um mercado de trabalho com menor taxa de desocupação.

Bolsa Família

O levantamento mostra que a redução foi mais acentuada entre crianças e adolescentes que vivem em domicílios beneficiários do Bolsa Família.

Em 2025, 4,4% das pessoas de 5 a 17 anos que moravam em famílias atendidas pelo programa estavam em situação de trabalho infantil. A taxa era de 7,3% em 2016.

No mesmo período, a proporção considerando toda a população dessa faixa etária caiu de 5,2% para 4%.

O contingente de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil entre beneficiários do Bolsa Família caiu 41% entre 2016 e 2025, enquanto a redução no total da população foi de 29%.

A pesquisa também aponta que 89,8% dos trabalhadores infantis que viviam em domicílios beneficiários do programa frequentavam a escola. No total da população nessa situação, o índice era de 86,9%.

Mais de 500 mil estavam nas piores formas

Entre os 1,499 milhão de crianças e adolescentes submetidos ao trabalho infantil em 2025, 525 mil estavam em ocupações classificadas como piores formas de trabalho infantil.

São atividades que oferecem riscos à saúde, ao desenvolvimento e à moral de crianças e adolescentes. A classificação inclui situações como escravidão, exploração sexual e tráfico de drogas.

Mesmo nesse grupo houve redução. Em 2025, as piores formas representavam 1,4% da população de 5 a 17 anos, menor índice da série. Em 2024, eram 560 mil, ou 1,5%.

Trabalho aumenta conforme a idade

A incidência do trabalho infantil cresce entre os adolescentes mais velhos. Em 2025, 280 mil crianças de 5 a 13 anos estavam nessa situação, o equivalente a 1,1% da população da faixa etária.

Entre os adolescentes de 14 e 15 anos, eram 348 mil, ou 5,9%. Já entre aqueles de 16 e 17 anos, o número chegava a 871 mil, correspondente a 14,5% da população.

O IBGE considera trabalho infantil qualquer atividade econômica remunerada ou trabalho para autoconsumo realizado por crianças de até 13 anos. Aos 14 e 15 anos, é permitido somente o trabalho como aprendiz. Aos 16 e 17 anos, são permitidas outras ocupações com carteira assinada, desde que não sejam atividades perigosas, insalubres ou realizadas no período noturno.

Jornadas chegam a 40 horas ou mais

A maior parte das crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, 1,141 milhão, exercia atividades econômicas. Outros 358 mil realizavam apenas atividades de autoconsumo, voltadas à própria subsistência da família.

Em 36,3% dos casos, a jornada ultrapassava 25 horas semanais. Em 21,4%, chegava a 40 horas ou mais.

O cenário é mais intenso entre os adolescentes de 16 e 17 anos: 49,6% trabalhavam 25 horas ou mais por semana, enquanto 29,6% enfrentavam jornadas de pelo menos 40 horas.

Diferenças entre as regiões

Em números absolutos, o Sudeste concentrava o maior contingente de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, com 481 mil pessoas em 2025. O Nordeste vinha na sequência, com 408 mil.

Quando considerada a proporção em relação à população de 5 a 17 anos, o Norte apresentou o maior índice, de 6,3%. O Sudeste teve o menor, com 3,3%.

O Nordeste também registrou a maior redução do contingente desde 2016, de 45,6%, e em relação a 2022, de 29,2%.

Quem são os trabalhadores infantis

Os meninos representavam 65,4% das crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, embora correspondam a 51,2% da população de 5 a 17 anos.

Na divisão por cor ou raça, pretos e pardos representavam 67% dos trabalhadores infantis, enquanto correspondiam a 59,7% da população nessa faixa etária. Os brancos eram 32% dos submetidos ao trabalho infantil e representavam 39,5% da população.

As atividades que mais concentravam trabalhadores infantis eram o comércio, com 29%, e outras atividades, com 23,1%. Agricultura e pecuária respondiam por 16,7%, indústria por 12,5% e alojamento e alimentação por 12,2%. O trabalho doméstico representava 6,5%.

Entre os adolescentes de 16 e 17 anos, 67% estavam na informalidade, segundo o IBGE. Ainda assim, essa foi a menor taxa da série histórica: 69,4% em 2024 e 76,3% em 2022.

Impacto na frequência escolar

A presença no mercado de trabalho também aparece associada à frequência escolar, principalmente entre os adolescentes mais velhos.

Entre crianças de 5 a 13 anos em situação de trabalho infantil, 99,7% frequentavam a escola. Na faixa de 14 e 15 anos, o índice era de 95%, contra 98,1% na população total.

Entre adolescentes de 16 e 17 anos, 79,6% dos que estavam em situação de trabalho infantil frequentavam a escola, enquanto a média para toda a população dessa idade era de 89,6%.

A Pnad também mostrou que 42,1% dos 37,8 milhões de brasileiros de 5 a 17 anos realizavam algum trabalho doméstico não remunerado ou cuidavam de outras pessoas. Essas atividades, quando realizadas em casa, não são classificadas pelo IBGE como trabalho infantil.

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