Presidente do TRE-PR revela que processos eleitorais quase triplicaram em 2026
Em entrevista ao Gcast, Luciano Carrasco Falavinha de Souza abordou a segurança das urnas eletrônicas, o uso da inteligência artificial, o julgamento de candidaturas e os desafios da Justiça Eleitoral no Paraná
Em entrevista ao Gcast, da Gazeta do Paraná, conduzida pelo jornalista Carlos Moraes, o presidente do Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR), desembargador Luciano Carrasco Falavinha de Souza, revelou que o número de processos relacionados às eleições de 2026 no Estado quase triplicou em comparação com o pleito de 2022.
Durante a conversa, gravada antes do segundo turno das eleições presidenciais, o magistrado abordou o aumento das disputas judiciais, os desafios impostos pela inteligência artificial, a segurança das urnas eletrônicas e o funcionamento da Justiça Eleitoral. Também esclareceu aspectos jurídicos relacionados ao registro da candidatura de Deltan Dallagnol ao Senado.
Segundo o presidente, apesar do crescimento expressivo da demanda judicial, a estrutura da Justiça Eleitoral paranaense conseguiu responder aos processos dentro dos prazos estabelecidos.
“Houve um aumento de quase três vezes o número de processos da eleição de 2022 para 2026. Tudo transcorreu bem, a Corte enfrentou bem todos os problemas, julgou todos os processos no tempo devido”, afirmou.
Inteligência artificial gerou menos processos do que o esperado
Falavinha explicou que o TRE-PR iniciou a campanha eleitoral preocupado com a possibilidade de circulação de vídeos manipulados, áudios falsos e outras formas de desinformação produzidas com ferramentas digitais.
Por esse motivo, o tribunal intensificou as orientações aos eleitores sobre como identificar possíveis conteúdos fraudulentos. Apesar da preocupação inicial, o presidente afirmou que a quantidade de representações judiciais envolvendo especificamente o uso de inteligência artificial ficou abaixo das expectativas.
O desembargador avaliou que esse resultado pode estar relacionado às campanhas educativas promovidas pela Justiça Eleitoral. Entretanto, ressaltou que ainda seria necessário realizar um levantamento completo após o encerramento das eleições.
Presidente reforça segurança das urnas eletrônicas
Durante a entrevista, o magistrado também defendeu a confiabilidade das urnas eletrônicas e destacou os mecanismos de proteção utilizados no sistema brasileiro de votação.
Segundo ele, as urnas não possuem conexão com a internet durante a votação e contam com diferentes camadas de segurança para impedir interferências externas.
Falavinha destacou ainda a importância do boletim de urna, documento emitido ao término da votação que apresenta a quantidade de votos registrados para cada candidato em determinada seção eleitoral. O documento permite conferir os resultados e verificar os números posteriormente totalizados pela Justiça Eleitoral.
O presidente afirmou que, ao longo de três décadas de utilização do sistema eletrônico no Brasil, não foi demonstrada fraude que comprovasse o desvio de votos de um candidato para outro.
Para o magistrado, parte das críticas ao sistema está relacionada ao inconformismo com os resultados eleitorais.
Caso Deltan Dallagnol e os prazos da Justiça Eleitoral
A situação jurídica da candidatura de Deltan Dallagnol (Novo) ao Senado também foi discutida durante a entrevista.
Falavinha explicou que o TRE-PR havia analisado o pedido de registro e, por decisão colegiada, considerado que o candidato preenchia os requisitos necessários para concorrer.
A decisão, entretanto, foi objeto de recurso encaminhado ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na ocasião da entrevista, o desembargador evitou antecipar qualquer resultado e ressaltou que caberia ao TSE decidir sobre o registro e suas eventuais consequências.
Durante a explicação, também destacou uma dificuldade enfrentada pelos tribunais eleitorais: a redução do período de campanha de 90 para 45 dias, sem uma adaptação proporcional de todos os prazos processuais.
Segundo ele, dependendo dos recursos apresentados, a tramitação de um pedido de registro pode ultrapassar o próprio período de campanha.
O presidente citou a complexidade do processo envolvendo Dallagnol, mencionando conjuntos de documentos que, somados, alcançavam aproximadamente 35 mil páginas.
Ao ser questionado se a quantidade de votos recebidos por um candidato poderia influenciar a análise jurídica, afirmou que a legislação não estabelece tratamento diferenciado conforme o desempenho eleitoral.
Para Falavinha, a decisão deve considerar os requisitos previstos em lei, independentemente de o candidato ter recebido poucos votos ou milhões deles.
TRE-PR utilizou monitoramento meteorológico para proteger locais de votação
Outra informação apresentada na entrevista foi a parceria entre o TRE-PR e o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar).
O acordo permitiu acompanhar as condições meteorológicas nos locais de votação de todo o Estado, oferecendo informações antecipadas sobre chuvas fortes, tempestades e possíveis interrupções no fornecimento de energia.
Segundo Falavinha, a ferramenta foi importante para a organização das eleições, especialmente diante das condições climáticas registradas no primeiro turno.
O presidente relatou que mais de 94 municípios apresentaram falta de energia elétrica no início da votação, mas afirmou que essas ocorrências não provocaram atrasos na abertura das seções eleitorais.
Desembargador defende que democracia não seja avaliada apenas pelo custo
A possibilidade de unificação das eleições municipais e gerais também foi abordada durante a entrevista.
Questionado sobre uma eventual redução de despesas com a realização de eleições a cada quatro anos, o presidente do TRE-PR defendeu que os custos da democracia precisam ser analisados considerando sua importância para a sociedade.
Para ilustrar, mencionou regiões brasileiras onde o transporte das urnas depende de embarcações e exige longos deslocamentos, necessários para assegurar o direito ao voto de populações distantes.
Falavinha ressaltou que qualquer alteração no calendário eleitoral dependeria de decisão do Congresso Nacional e que a Justiça Eleitoral teria condições de executar o modelo estabelecido pela legislação.
Polarização política e respeito ao eleitor
Ao analisar o comportamento dos eleitores, o desembargador afirmou que prefere utilizar a expressão “voto calcificado” em vez de apenas classificar as eleições como polarizadas.
Segundo ele, parte significativa do eleitorado já possui uma preferência política consolidada, o que reduz o espaço para mudanças de opinião durante a campanha.
Nesse ambiente, as discussões frequentemente deixam de buscar o diálogo e passam a tentar demonstrar que o adversário está errado.
O presidente defendeu o respeito entre eleitores de diferentes posições políticas e destacou que a Justiça Eleitoral atua para garantir que todos possam exercer livremente o direito de voto.
Ao longo da entrevista, também ressaltou a importância dos mecanismos de denúncia eleitoral, como o aplicativo Pardal, e da atuação de servidores e forças de segurança para prevenir irregularidades durante a votação.
A entrevista ao Gcast reuniu esclarecimentos sobre o funcionamento da Justiça Eleitoral, os desafios tecnológicos e jurídicos das eleições de 2026 e a importância da transparência na apuração dos votos. A conversa completa com o presidente do TRE-PR está disponível nos canais oficiais da Gazeta do Paraná.
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