Menina de nove anos usa sinal de socorro e escapa de tentativa de estupro em Curitiba; suspeito já havia sido condenado pelo mesmo crime
Criança aprendeu gesto silencioso com a avó e foi socorrida após o primo reconhecer o pedido de ajuda; homem de 54 anos cumpria pena fora da prisão e usava tornozeleira eletrônica
Um gesto silencioso, ensinado pela avó e reconhecido pelo primo, ajudou uma menina de apenas nove anos a escapar de uma possível violência sexual enquanto caminhava para a escola, em Curitiba. O caso aconteceu na manhã da última sexta-feira (9), mas ganhou repercussão nacional nesta semana. O homem preso pela Guarda Municipal, de 54 anos, já havia sido condenado por estupro de vulnerável e cumpria pena sob monitoramento eletrônico.
Conforme informações oficiais da Prefeitura de Curitiba, a criança seguia para a escola quando foi abordada pelo suspeito, que teria oferecido R$ 50 para convencê-la a acompanhá-lo até um terreno próximo. Diante da recusa, o homem teria segurado a mão da menina e pedido que permanecesse em silêncio. Sem conseguir pedir ajuda verbalmente, ela colocou uma das mãos para trás e fez um gesto conhecido internacionalmente como sinal de socorro. O movimento foi percebido pelo primo, que caminhava logo atrás. O menino reconheceu o pedido de ajuda, ultrapassou os dois e correu até um posto de combustíveis, onde alertou funcionários sobre o que estava acontecendo. A intervenção dos trabalhadores e de uma equipe da Patrulha Escolar da Guarda Municipal, que realizava rondas nas proximidades, resultou na prisão em flagrante do suspeito.
Avó havia ensinado o gesto às crianças
O conhecimento que ajudou a menina a pedir socorro havia sido transmitido pela própria avó, que conheceu o sinal por meio de uma reportagem televisiva sobre violência doméstica. Depois de assistir à orientação, ela decidiu ensinar o movimento aos netos, explicando que ele poderia ser utilizado sempre que estivessem em perigo e não conseguissem pedir ajuda diretamente. Em comunicado divulgado pela Prefeitura de Curitiba na terça-feira (13), a avó afirmou ter ficado satisfeita ao descobrir que as crianças haviam compreendido e utilizado o ensinamento. O gesto não foi percebido por todos que estavam nas proximidades. O primo, no entanto, conseguiu identificar a situação de risco e buscar auxílio de adultos.
Funcionária relata desespero da menina após o resgate
O relato de uma funcionária do posto de combustíveis revela o estado emocional da criança após a intervenção. Em entrevista divulgada nesta quarta-feira (14), pela RPC TV, Josiane Rodrigues Aires, que ajudou a acolher a menina, contou que ela chorava, tremia e demonstrava medo de que o suspeito se aproximasse novamente. Segundo a funcionária, o primo chegou ao estabelecimento bastante nervoso, pedindo ajuda porque acreditava que a menina estava sendo sequestrada. Os trabalhadores reagiram ao pedido e o homem tentou fugir. Uma equipe da Guarda Municipal, que patrulhava a região, realizou a abordagem e efetuou a prisão. A guarda municipal Andressa Ruthes, que participou da ocorrência, destacou à imprensa a importância de o primo ter reconhecido o gesto e procurado auxílio.
Suspeito já havia sido condenado por estupro de vulnerável
Além das circunstâncias da abordagem, o histórico criminal do suspeito passou a chamar atenção após a prisão. Segundo informações divulgadas pela Guarda Municipal de Curitiba e pela Polícia Civil do Paraná, o homem de 54 anos, identificado como Rolandi Aureliano da Silva, já havia sido condenado a 17 anos de reclusão por estupro de vulnerável em um caso ocorrido na região da Cidade Industrial de Curitiba (CIC), em 2017. Ele cumpria pena em regime aberto, com monitoramento por tornozeleira eletrônica, quando foi preso novamente. O suspeito também possuía registro policial por ato obsceno, ocorrido em 2025, no município de Colombo, na Região Metropolitana de Curitiba. Na ocasião, foi lavrado um termo circunstanciado.
Após a prisão de sexta-feira, o homem foi encaminhado ao Núcleo de Proteção à Criança e ao Adolescente Vítimas de Crimes (Nucria), da Polícia Civil, onde foi autuado em flagrante por suspeita de tentativa de estupro de vulnerável. A nova investigação não deve ser confundida com a condenação anterior. A responsabilidade criminal pelo episódio de 9 de outubro ainda depende da apuração e das decisões judiciais correspondentes. Também não há, nas informações oficiais consultadas, confirmação de que tenha ocorrido falha no funcionamento da tornozeleira eletrônica. O equipamento é utilizado para monitorar condições de cumprimento da pena, mas não impede fisicamente a prática de novos delitos.
O que é o sinal de socorro que ajudou a salvar a menina?
O gesto utilizado pela criança é conhecido como Signal for Help, ou sinal de pedido de ajuda. Criado em 2020, pela organização canadense Canadian Women's Foundation, o movimento surgiu durante a pandemia da covid-19 como uma forma de permitir que mulheres em situação de violência doméstica pedissem auxílio discretamente, inclusive durante videochamadas.
O sinal é feito em três etapas: mostrar a palma de uma das mãos aberta; dobrar o polegar em direção ao centro da palma; fechar os outros quatro dedos sobre o polegar. O movimento pode ser realizado sem palavras, permitindo comunicar uma situação de perigo quando falar abertamente pode aumentar o risco. Embora tenha sido criado inicialmente para situações de violência doméstica, o gesto também passou a ser divulgado como ferramenta de alerta diante de ameaças, assédio, violência sexual e outras situações de risco.
A guarda municipal Andressa Ruthes orienta que, ao reconhecer o sinal, a pessoa procure ajuda de maneira segura, evitando alertar ou confrontar diretamente o possível agressor. O caso de Curitiba demonstra a importância de ensinar não apenas como fazer o gesto, mas também como reconhecê-lo e buscar auxílio.
Como denunciar situações de violência contra crianças
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estabelece a proteção integral de crianças e adolescentes e prevê mecanismos de prevenção e enfrentamento à violência. Em situações de perigo imediato, a população pode acionar a Polícia Militar pelo telefone 190 ou a Guarda Municipal de Curitiba pelo 153. Suspeitas de violência e violações de direitos contra crianças e adolescentes também podem ser comunicadas ao Disque Direitos Humanos, pelo número 100, ou aos Conselhos Tutelares. O episódio ocorrido na capital paranaense evidencia como uma orientação simples, compartilhada dentro da família, pode contribuir para que uma criança identifique uma situação de perigo, peça ajuda e receba proteção antes que a violência se agrave.
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