Corte de R$ 200 bilhões nos gastos públicos pode atingir programas sociais, alertam economistas
Especialistas afirmam que redução expressiva das despesas federais dificilmente seria realizada sem afetar aposentadorias, benefícios sociais e serviços públicos
Uma redução de aproximadamente R$ 200 bilhões nas despesas do governo federal dificilmente poderia ser realizada sem atingir programas sociais, aposentadorias e serviços públicos. A avaliação é de economistas ouvidos pela Agência Brasil, em meio ao debate sobre as propostas de ajuste fiscal dos candidatos à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).
Segundo o professor Pedro Paulo Zahluth Bastos, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), cerca de 90% das despesas primárias federais são obrigatórias, incluindo Previdência Social, Benefício de Prestação Continuada (BPC), Bolsa Família, salários do funcionalismo e os pisos constitucionais de saúde e educação.
O restante, formado pelas despesas discricionárias, soma pouco mais de R$ 200 bilhões e inclui investimentos públicos e recursos para o funcionamento de universidades, hospitais federais e da Polícia Federal. Na avaliação do economista, um corte dessa magnitude exigiria redução de despesas obrigatórias ou comprometeria o funcionamento de serviços públicos.
A professora Maria Lourdes Mollo, da Universidade de Brasília (UnB), também alerta que cortes expressivos podem reduzir a atividade econômica, afetando empregos, renda e arrecadação de impostos, o que poderia diminuir os recursos disponíveis para saúde e educação.
Propostas dos presidenciáveis
O debate ganhou destaque após Flávio Bolsonaro defender um ajuste fiscal inspirado nas medidas adotadas pelo presidente argentino Javier Milei. A equipe econômica do candidato propõe uma redução de despesas equivalente a 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB), aproximadamente R$ 190 bilhões, considerando os valores de 2025.
Flávio afirma que não pretende reduzir benefícios sociais e defende concentrar os cortes em privilégios do funcionalismo público, supersalários, desperdícios administrativos e combate a fraudes. Economistas ouvidos pela Agência Brasil, porém, avaliam que essas medidas, isoladamente, não seriam suficientes para alcançar a economia pretendida.
Já a equipe de Lula defende um ajuste fiscal gradual, distribuído ao longo de quatro anos. O ministro do Planejamento, Bruno Moretti, projeta uma transição do déficit público de 0,5% do PIB em 2026 para um superávit de 1,5% em 2030, com desaceleração das despesas obrigatórias.
Juros e dívida pública
Outro ponto destacado pelos especialistas é o peso dos juros sobre as contas públicas. Segundo Pedro Paulo Bastos, as despesas com juros da dívida brasileira se aproximam de R$ 1 trilhão por ano e representam uma das principais pressões sobre o resultado fiscal.
Enquanto Lula defende a manutenção do atual arcabouço fiscal, com controle do crescimento das despesas e preservação das políticas sociais, Flávio propõe mudanças nas regras para estabilizar e reduzir a dívida pública.
O debate sobre os gastos federais deve permanecer entre os principais temas econômicos da disputa presidencial, especialmente diante das divergências sobre quais despesas poderiam ser reduzidas e seus possíveis impactos sobre a população.
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