Estudo identifica alterações cerebrais que podem explicar sintomas da Covid longa
Pesquisa publicada na revista científica eBioMedicine encontrou redução de até 20% em marcador relacionado à dopamina no cérebro de pacientes com sintomas persistentes, como fadiga, perda de memória e dificuldade de concentração
Uma pesquisa científica identificou alterações no sistema de dopamina do cérebro que podem ajudar a explicar sintomas persistentes da Covid longa, como cansaço extremo, falta de motivação, dificuldade de memória e lentidão de raciocínio. O estudo, publicado na revista científica eBioMedicine, encontrou uma redução de 16% a 20% em um marcador cerebral associado aos neurônios que liberam dopamina.
A descoberta representa uma nova possibilidade para compreender as sequelas neurológicas da Covid-19, que podem permanecer por meses ou até anos depois da infecção, inclusive entre pessoas que tiveram manifestações leves ou moderadas da doença.
A dopamina é um neurotransmissor envolvido em funções como motivação, movimento, atenção e aprendizagem. Alterações em seu funcionamento podem afetar atividades cotidianas e contribuir para dificuldades cognitivas e físicas.
Exames identificaram redução de até 20% em marcador cerebral
A pesquisa foi conduzida em Toronto, no Canadá, com 24 adultos que apresentavam Covid longa, incluindo sintomas como apatia, fadiga e a chamada névoa mental. Os resultados foram comparados inicialmente aos de 24 pessoas saudáveis da mesma faixa etária. Posteriormente, o grupo de comparação foi ampliado para análises complementares.
Os cientistas utilizaram a tomografia por emissão de pósitrons (PET), um exame avançado de imagem, para medir a disponibilidade de uma proteína cerebral conhecida como VMAT2.
Essa proteína participa do armazenamento de neurotransmissores, incluindo a dopamina, e funciona como um indicador da integridade das terminações nervosas responsáveis por sua liberação.
Os resultados revelaram que os pacientes com Covid longa apresentavam níveis de ligação ao marcador VMAT2 entre 16% e 20% menores em regiões do estriado, área cerebral relacionada ao movimento, à motivação e a determinadas funções cognitivas.
É importante destacar que os pesquisadores não mediram diretamente uma queda de 20% na quantidade de dopamina. A redução foi identificada em um marcador associado ao sistema dopaminérgico, o que sugere possíveis alterações nas terminações nervosas envolvidas na liberação desse neurotransmissor.
Por que a Covid pode afetar o cérebro?
Os pesquisadores investigam diferentes mecanismos capazes de explicar essas alterações neurológicas.
Uma das hipóteses envolve a neuroinflamação persistente, caracterizada pela atividade prolongada de células de defesa do sistema nervoso após a infecção.
Nesse processo, células conhecidas como micróglias podem apresentar alterações em seu funcionamento e contribuir para danos às conexões nervosas.
Outra possibilidade envolve a vulnerabilidade de determinados neurônios aos efeitos do coronavírus, incluindo mecanismos relacionados aos receptores ACE2, utilizados pelo SARS-CoV-2 para entrar em algumas células.
Essas explicações, entretanto, ainda precisam ser investigadas. O estudo identificou alterações associadas à Covid longa, mas não demonstrou definitivamente qual mecanismo provoca a redução do marcador cerebral.
Alterações podem persistir por anos
Outro aspecto relevante da investigação é que as alterações foram observadas em pacientes com diferentes períodos de duração dos sintomas.
O intervalo desde a infecção variou de aproximadamente dois a 56 meses, o equivalente a mais de quatro anos.
A pesquisa também incluiu análises relacionadas a fatores como variantes do coronavírus e sintomas depressivos, buscando compreender se as alterações no sistema dopaminérgico poderiam estar associadas especificamente às manifestações prolongadas da doença.
Os cientistas observaram ainda que determinadas regiões cerebrais apresentavam associações entre a redução do marcador VMAT2 e sintomas como dificuldade de motivação, lentidão dos movimentos e problemas de memória.
Os resultados reforçam a hipótese de que parte das manifestações neurológicas da Covid longa pode estar relacionada a alterações biológicas mensuráveis no cérebro, e não apenas a sintomas inespecíficos.
Existe relação com a doença de Parkinson?
As alterações observadas chamaram a atenção dos pesquisadores porque o sistema dopaminérgico também está envolvido em doenças neurológicas como o Parkinson.
Nessa condição, ocorre a degeneração progressiva de neurônios responsáveis pela produção e liberação de dopamina, provocando principalmente alterações motoras.
Entretanto, a identificação de alterações no marcador VMAT2 em pacientes com Covid longa não significa que essas pessoas tenham Parkinson ou necessariamente desenvolverão a doença.
Embora existam semelhanças em determinados mecanismos cerebrais, são condições distintas, e ainda não há evidências suficientes para estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre os resultados da pesquisa e o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas.
Descoberta pode abrir caminho para novos tratamentos
Os resultados também podem contribuir para o desenvolvimento de estratégias direcionadas aos sintomas neurológicos da Covid longa.
Com a identificação de alterações no sistema dopaminérgico, pesquisadores poderão investigar, em ensaios clínicos, se medicamentos ou outras intervenções capazes de modificar esse sistema podem melhorar manifestações como fadiga, apatia e dificuldades cognitivas.
Outra possibilidade é o aprimoramento de exames de imagem que permitam identificar alterações cerebrais em pacientes com sintomas persistentes.
Apesar das perspectivas, os autores ressaltam a necessidade de estudos com amostras maiores para confirmar os resultados e avaliar sua aplicação clínica.
Por enquanto, a descoberta não estabelece um novo tratamento comprovado nem transforma o exame de VMAT2 em um teste diagnóstico de rotina para Covid longa.
A pesquisa amplia o conhecimento sobre possíveis consequências da infecção pelo coronavírus e reforça a importância do acompanhamento médico de pacientes que continuam apresentando dificuldades físicas, cognitivas ou emocionais após a recuperação da fase aguda da doença.
Fontes: CNN Brasil
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