Debate da Globo: confira seis declarações de Lula e Flávio Bolsonaro sobre educação, apostas e segurança pública
No terceiro bloco do debate presidencial, candidatos abordaram o reajuste dos professores, o orçamento do ensino integral, o Jogo do Tigrinho, a saída temporária de presos, o combate às facções criminosas e declarações sobre roubo de celulares. A Gazeta do Paraná confrontou as afirmações com dados oficiais, legislação e registros documentais.
A dois dias do segundo turno das eleições presidenciais de 2026, marcado para domingo (25), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) participaram, nesta sexta-feira (23), do debate promovido pela Rede Globo. Em meio à reta final da disputa pelo Palácio do Planalto, os candidatos confrontaram dados sobre políticas públicas, segurança e medidas adotadas por governos anteriores. No terceiro bloco do encontro, declarações sobre educação, apostas on-line, criminalidade e organizações criminosas foram selecionadas para verificação pela Gazeta do Paraná.
A checagem reúne seis afirmações e examina o que pode ser confirmado por documentos oficiais, legislação federal, registros de órgãos públicos e verificações anteriores. As declarações são classificadas como verdadeira, verdadeira com ressalvas, imprecisa, sem comprovação ou falsa, considerando o conteúdo específico de cada alegação, sem representar uma avaliação geral dos candidatos ou de seus governos.
1. Flávio diz que Lula zerou o orçamento para o ensino integral
Classificação: IMPRECISA
A proposta orçamentária enviada pelo governo federal para 2025 previa aproximadamente R$ 4,8 bilhões para apoiar a implantação de escolas em tempo integral. Entretanto, durante a tramitação da Lei Orçamentária Anual, o Congresso Nacional retirou essa previsão específica. A retirada dos recursos não significou a extinção do ensino integral nem de todas as suas fontes de financiamento. Parte do financiamento passou a depender de recursos vinculados ao Fundeb. A alteração, porém, teve consequências. Uma nota técnica do Ministério da Educação, produzida em 2025, registra que o primeiro ciclo do Programa Escola em Tempo Integral, em 2023 e 2024, foi integralmente financiado pelo orçamento do MEC. No segundo ciclo, 4.910 redes de ensino pactuaram a criação de 943.125 matrículas. Em 2025, 4.748 redes declararam 880.434 matrículas que não chegaram a receber financiamento pela sistemática da Lei nº 14.640/2023, em razão de restrições orçamentárias. Conclusão: é comprovado que a dotação específica de R$ 4,8 bilhões foi retirada do Orçamento de 2025 e que houve consequências para o financiamento das matrículas. A afirmação é imprecisa ao atribuir exclusivamente a Lula a decisão tomada pelo Congresso e ao sugerir que todo o financiamento do ensino integral foi eliminado.
Fontes primárias:
2. Flávio diz que Bolsonaro deu o maior reajuste da história aos professores, de 33%
Classificação: VERDADEIRA COM RESSALVAS
Em 2022, durante o governo Jair Bolsonaro, o Ministério da Educação homologou um reajuste de 33,24% no piso salarial nacional dos profissionais do magistério público da educação básica. O valor passou de R$ 2.886,24 para R$ 3.845,63, considerando a jornada de 40 horas semanais. O reajuste foi oficializado pela Portaria MEC nº 67, de 7 de fevereiro de 2022. O percentual foi o maior reajuste anual nominal desde a implementação do piso nacional. A ressalva está na abrangência e na origem do aumento. A atualização seguiu o mecanismo previsto na Lei nº 11.738/2008, sancionada durante o segundo mandato de Lula. A aplicação desse critério em 2022 ocorreu em meio a discussões jurídicas relacionadas à reformulação do Fundeb. Além disso, o aumento incidiu sobre o piso nacional, não necessariamente sobre os salários de todos os professores. Profissionais que já recebiam acima do valor mínimo não tiveram automaticamente reajuste de 33,24%. Conclusão: o percentual de 33,24% e sua homologação durante o governo Bolsonaro são comprovados. A afirmação exige ressalvas porque o aumento resultou da aplicação de uma regra legal anterior e não representou reajuste uniforme para todos os professores brasileiros.
Fontes primárias:
3. Lula diz que Bolsonaro criou o Jogo do Tigrinho, em 2022
Classificação: FALSA
O chamado Jogo do Tigrinho, conhecido comercialmente como Fortune Tiger, foi desenvolvido pela empresa privada Pocket Games Soft (PG Soft), e não pelo governo brasileiro. O jogo foi lançado comercialmente em 2022. Não há evidências de que Jair Bolsonaro tenha participado de sua criação ou desenvolvimento. A legislação brasileira permite distinguir a criação do jogo da regulamentação das apostas. Em dezembro de 2018, ainda no governo Michel Temer, foi sancionada a Lei nº 13.756, que instituiu a modalidade de apostas de quota fixa, inicialmente relacionada às apostas esportivas. Posteriormente, em dezembro de 2023, o governo Lula sancionou a Lei nº 14.790, que estabeleceu regras para apostas de quota fixa, incluindo jogos on-line baseados em resultados aleatórios. Conclusão: Bolsonaro não criou o Jogo do Tigrinho. O produto foi desenvolvido por uma empresa privada. Seu lançamento durante o mandato do ex-presidente não comprova participação do governo em sua criação.
Fontes:
4. Flávio: "o sargento Dias, de Minas Gerais, foi assassinado por um preso que estava na saidinha”
Classificação: VERDADEIRA
O sargento da Polícia Militar de Minas Gerais Roger Dias da Cunha, de 29 anos, foi baleado em 5 de janeiro de 2024, durante uma abordagem policial no bairro Aarão Reis, em Belo Horizonte. Ele morreu dois dias depois. Segundo o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), o acusado dos disparos, Welbert de Souza Fagundes, era detento e havia sido beneficiado pela saída temporária de Natal, mas não retornou ao estabelecimento prisional no prazo determinado. Em janeiro de 2024, o MPMG anunciou a apresentação de denúncia contra o suspeito por homicídio e tentativa de homicídio contra outro policial militar. Documentos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais também registram que Welbert não havia se reapresentado após o benefício. O caso provocou discussões sobre a legislação que permitia a saída temporária de presos. Entretanto, o benefício foi concedido no âmbito da Justiça estadual, conforme as regras de execução penal então vigentes, e não por determinação direta do presidente da República. Conclusão: está documentado que o sargento Roger Dias foi morto durante uma abordagem policial e que o acusado estava fora do presídio após receber o benefício da saída temporária de Natal. A concessão do benefício, porém, decorreu de decisão judicial, e não de uma autorização presidencial.
Fontes primárias:
5. Flávio diz que Lula é contra classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas
Classificação: VERDADEIRA COM RESSALVAS
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva manifestou oposição ao enquadramento formal do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, especialmente no contexto da classificação defendida pelo governo dos Estados Unidos. A posição do governo brasileiro envolve diferenças entre as legislações dos dois países e preocupações diplomáticas relacionadas à soberania nacional. A Lei nº 13.260/2016, conhecida como Lei Antiterrorismo, estabelece requisitos específicos para a caracterização do terrorismo no Brasil, incluindo motivações previstas expressamente em seu artigo 2º. Já a Lei nº 12.850/2013 disciplina o enfrentamento às organizações criminosas. Em março de 2026, foi sancionada a Lei nº 15.358, conhecida como Lei Antifacção, que estabeleceu novas medidas para combater organizações criminosas ultraviolentas. Em julho de 2026, o secretário nacional de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça, Paulo Eduardo Modesto, argumentou que a classificação das facções como terroristas poderia resultar em consequências penais menos severas do que as previstas na nova legislação brasileira para determinados crimes. Trata-se da interpretação apresentada pelo representante do governo, e não de uma conclusão jurídica consensual. A posição de Lula também exige uma distinção. Em maio de 2026, o presidente declarou que PCC e Comando Vermelho praticam terror contra as comunidades brasileiras, mas defendeu que o combate às facções ocorra sob a legislação e a autoridade do Estado brasileiro. Conclusão: é correto afirmar que Lula se opôs à classificação jurídica de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas nos moldes defendidos pelo governo norte-americano. Entretanto, essa posição não significa que o presidente tenha negado a violência praticada pelas facções ou se declarado contrário ao combate a essas organizações.
Fontes primárias:
6. Flávio afirma que Lula "defendeu ladrões de celulares e disse que roubavam para tomar cerveja”
Classificação: FALSA
Não é verdade que Luiz Inácio Lula da Silva tenha defendido o roubo de celulares ou afirmado que criminosos roubam aparelhos para comprar cerveja. A alegação surgiu a partir de vídeos editados que misturam declarações feitas pelo presidente em momentos diferentes. A origem da controvérsia é uma entrevista concedida por Lula a rádios universitárias de Pernambuco, em 25 de agosto de 2017. Na ocasião, ao comentar a violência e a situação econômica, Lula relacionou o aumento dos roubos à falta de oportunidades de trabalho e renda. Ele mencionou pessoas que roubavam celulares para revendê-los e conseguir dinheiro. Em outro momento da mesma entrevista, Lula falou sobre a rivalidade entre torcedores do Santa Cruz e do Sport, afirmando que adversários no futebol poderiam frequentar um bar juntos. Os trechos foram unidos artificialmente, criando a impressão de que Lula justificava o roubo de celulares como forma de conseguir dinheiro para beber cerveja. A manipulação foi identificada pela Agência Lupa em março de 2020. A alegação voltou a circular posteriormente e foi novamente desmentida em dezembro de 2025. O Aos Fatos também verificou um vídeo divulgado em 2022, no qual Lula defendia educação e oportunidades de trabalho como alternativas para impedir que jovens recorressem ao crime. A gravação foi apresentada fora de contexto. Em outubro de 2022, o Tribunal Superior Eleitoral determinou a suspensão de propaganda eleitoral que utilizava a declaração manipulada. A ministra Maria Claudia Bucchianeri apontou alteração grave do contexto da fala, capaz de induzir o eleitor ao erro. A alegação voltou a circular na campanha presidencial de 2026 e foi novamente verificada pelo UOL Confere em 14 de outubro. Conclusão: Lula não defendeu que criminosos roubassem celulares para comprar cerveja. A afirmação resulta da montagem de trechos de uma entrevista de 2017. Na gravação original, Lula relacionou a criminalidade à falta de oportunidades econômicas e, separadamente, mencionou torcedores de futebol tomando cerveja juntos. A edição produziu uma interpretação diferente daquela apresentada no contexto original.
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