Gleisi é cotada para Itaipu, ministério ou TCU em negociação de Lula para novo governo
Presidente pretende concluir a formação da equipe até 20 de dezembro e condicionará distribuição de ministérios ao compromisso dos partidos com votações no Congresso; derrota eleitoral de Gleisi no Paraná coloca ex-ministra entre os aliados que deverão ser acomodados
A ex-ministra Gleisi Hoffmann (PT) aparece entre os nomes cotados para ocupar cargos estratégicos no quarto governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que começa em janeiro de 2027. Entre as possibilidades discutidas por aliados estão o Ministério do Desenvolvimento Social, uma cadeira no Tribunal de Contas da União (TCU) e a direção-geral brasileira de Itaipu Binacional, sediada em Foz do Iguaçu, no Oeste do Paraná. As alternativas fazem parte das articulações para a formação da nova equipe ministerial, que Lula pretende concluir até 20 de dezembro.
Segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo neste sábado (31), o presidente começará, após o feriado de Finados, uma rodada de negociações com partidos do Centrão. A estratégia será diferente daquela adotada na formação do governo iniciado em 2023. Em vez de distribuir ministérios principalmente conforme o tamanho das bancadas, Lula pretende exigir compromissos de apoio às propostas do Executivo no Congresso Nacional.
A orientação é que os espaços no governo sejam negociados de acordo com a quantidade de votos que cada partido se comprometer a entregar nas votações consideradas prioritárias. A indicação de nomes para cargos federais também deverá ficar restrita, preferencialmente, a parlamentares que demonstrarem fidelidade ao governo.
A mudança ocorre após a reeleição de Lula, no último domingo (25), e diante de uma composição do Congresso Nacional mais favorável à oposição. O presidente terá de negociar com partidos que apoiaram Flávio Bolsonaro (PL) durante a campanha presidencial e que, agora, demonstram disposição para participar da próxima administração.
Gleisi no centro das articulações
A situação de Gleisi Hoffmann é uma das questões que envolvem diretamente o Paraná na reorganização do governo federal. Derrotada nas eleições estaduais, a ex-ministra integra o grupo de aliados próximos de Lula que ficaram sem mandato eletivo e poderão receber funções na nova administração.
Uma das possibilidades é o Ministério do Desenvolvimento Social, atualmente comandado por Wellington Dias (PT). A pasta administra programas de transferência de renda, entre eles o Bolsa Família, e possui participação relevante na execução das políticas sociais do governo.
A indicação de Gleisi representaria seu retorno ao primeiro escalão, depois de ter ocupado a Secretaria de Relações Institucionais da Presidência da República. A experiência na articulação política e a proximidade com Lula são fatores considerados pelos aliados que defendem sua permanência no governo.
Outra alternativa é a direção-geral brasileira de Itaipu Binacional. A empresa, responsável pela administração da usina hidrelétrica compartilhada entre Brasil e Paraguai, possui importância econômica e institucional para o Paraná e mantém investimentos em infraestrutura, desenvolvimento regional e projetos socioambientais.
O cargo permitiria a Gleisi permanecer em uma função de projeção nacional, com atuação diretamente relacionada ao estado. A eventual nomeação dependeria, entretanto, de decisão do presidente e da reorganização dos postos de comando da empresa.
A terceira possibilidade envolve o Tribunal de Contas da União. Nesse caso, a indicação está condicionada à abertura de uma vaga, que poderá ocorrer se o ministro Rodrigo Pacheco for escolhido para integrar o Supremo Tribunal Federal (STF).
O nome de Pacheco é discutido nas articulações para uma futura indicação ao Supremo. Caso a movimentação se concretize, a vaga no TCU poderá entrar nas negociações políticas. Além de Gleisi, Simone Tebet e Renan Calheiros são mencionados entre os possíveis interessados.
Diferentemente de uma nomeação ministerial, a escolha de um integrante do TCU depende do procedimento constitucional correspondente à vaga, incluindo participação do Senado quando se tratar de indicação presidencial.
Até o momento, não há anúncio oficial sobre o destino de Gleisi. As três possibilidades permanecem no campo das articulações políticas.
Ministérios por votos
A principal novidade na estratégia de Lula está na tentativa de estabelecer uma relação mais direta entre a participação dos partidos no governo e seu comportamento no Legislativo.
Durante o mandato iniciado em 2023, o presidente enfrentou dificuldades para aprovar projetos e preservar decisões do Executivo, mesmo depois de ampliar o espaço de partidos do Centrão na Esplanada dos Ministérios.
Em diferentes ocasiões, legendas que ocupavam cargos no governo votaram contra propostas defendidas pelo Planalto. A situação levou o Executivo a negociar individualmente matérias de interesse da administração e a enfrentar derrotas em votações importantes.
Para o próximo mandato, Lula pretende reduzir essa distância entre participação administrativa e apoio parlamentar. A distribuição das pastas será vinculada à expectativa de votos nas duas Casas, enquanto as indicações para outros cargos deverão considerar o histórico de atuação dos parlamentares.
O MDB está entre os partidos que já sinalizam disposição para negociar. Segundo relatos publicados pela Folha, a legenda trabalha com a possibilidade de assegurar aproximadamente 30 votos ao governo. O ex-governador do Pará Helder Barbalho aparece entre os nomes cotados para assumir um ministério.
As conversas iniciais deverão ser conduzidas pelo presidente nacional do PT, Edinho Silva, que terá a tarefa de dialogar com as direções partidárias antes das definições finais de Lula.
A composição do novo Congresso aumenta a importância dessas negociações. O PL e o Novo terão, juntos, 131 deputados federais e 32 senadores a partir de fevereiro de 2027. No Senado, o fortalecimento da oposição poderá dificultar especialmente a aprovação de indicações para tribunais superiores, autoridades reguladoras e outras funções submetidas à análise dos parlamentares.
Mudanças na Fazenda e na Casa Civil
Além da distribuição de ministérios aos partidos, Lula avalia alterações em algumas das principais áreas do governo.
O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), é um dos nomes considerados para assumir o Ministério da Fazenda. A eventual escolha exigiria sua renúncia ao governo estadual, para o qual acaba de conquistar um novo mandato.
O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) também aparece entre os cotados para a Fazenda. Outra possibilidade discutida por aliados é sua transferência para o Ministério da Defesa. A avaliação no entorno do presidente é que Alckmin deverá receber novas atribuições políticas durante o quarto mandato.
Na Casa Civil, o nome de Camilo Santana (PT), ex-ministro da Educação, ganhou força nas últimas semanas. O parlamentar participou diretamente das articulações eleitorais no Ceará e integra o grupo de aliados de confiança do presidente.
Fernando Haddad (PT), derrotado na disputa pelo governo de São Paulo, também deverá ser contemplado na reorganização ministerial. Entre os destinos mencionados estão os ministérios das Relações Exteriores e da Educação.
A definição dessas funções terá influência sobre a composição da equipe econômica, a articulação com o Congresso e a organização das políticas públicas a partir de 2027.
Lula também avalia criar uma estrutura própria de comunicação voltada às suas redes sociais, separada da Secretaria de Comunicação Social da Presidência. A proposta está entre as mudanças discutidas para ampliar a atuação digital do presidente durante o próximo mandato.
Aliados derrotados
A formação do novo governo terá ainda de considerar os resultados das eleições estaduais. Parte dos aliados que participaram das disputas a pedido de Lula não conseguiu se eleger e ficou sem mandato para o próximo período.
Além de Gleisi e Haddad, a relação inclui nomes como Paulo Pimenta, Randolfe Rodrigues, Simone Tebet, Márcio França e João Campos, entre outros integrantes do grupo político do presidente.
A possibilidade de acomodar esses aliados em funções federais amplia a disputa pelos espaços disponíveis. Ao mesmo tempo, Lula precisará reservar ministérios e outros cargos para os partidos cuja adesão considera necessária à formação de uma maioria parlamentar.
A negociação deverá envolver tanto áreas de maior visibilidade política quanto ministérios responsáveis por programas, investimentos e execução orçamentária.
A expectativa de integrantes do governo é que as definições sejam anunciadas gradualmente, conforme os acordos avancem. Embora aliados mencionem 20 de dezembro como meta para concluir a composição da Esplanada, interlocutores do presidente também admitem que algumas escolhas poderão ficar para os últimos dias do ano.
Itaipu e o Paraná
Para o Paraná, a eventual indicação de Gleisi à direção-geral brasileira de Itaipu é uma das possibilidades de maior repercussão regional.
A hidrelétrica mantém uma relação direta com municípios do Oeste paranaense e participa de projetos que ultrapassam a geração de energia. Sua atuação envolve investimentos socioambientais, iniciativas de desenvolvimento territorial e parcerias com instituições públicas.
A direção-geral brasileira é um dos principais postos de comando da empresa binacional e responde pela condução administrativa da participação brasileira, em articulação com a direção paraguaia.
A eventual transferência de Gleisi para Itaipu também teria consequências sobre a presença do PT paranaense no governo federal. A ex-ministra foi uma das principais representantes do estado na administração Lula e mantém interlocução direta com a direção nacional do partido.
Por enquanto, o futuro da ex-ministra depende de uma negociação mais ampla, que envolve a composição do ministério, as indicações aos tribunais e os cargos de direção de empresas federais.
As primeiras conversas com o Centrão deverão ocorrer na próxima semana. O resultado definirá não apenas a distribuição de cargos no quarto governo Lula, mas também a base parlamentar com a qual o presidente pretende governar a partir de 2027.
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