Zé Dirceu e o Brasil
“Vamos continuar nossa luta. Eu só vou mudar de trincheira.” - Zé Dirceu, em 2018, com dignidade ao ser preso injustamente
Por Gazeta do Paraná
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O Lula estava prestes a tomar posse em seu primeiro mandato e Brasília fervia politicamente. À época, o restaurante Piantella, do qual eu era sócio, era o grande reduto político da capital. Vivíamos outros tempos, em que as pessoas se sentavam em lugares públicos para discutir política sem maiores preocupações. Não se usava celular para tudo e não havia preocupação com uma foto cair nas redes, muitas vezes com interpretações maldosas ou criminosas.
O bolsonarismo não existia; logo, as fakes news eram muito reduzidas. E a maldita IA ainda não infernizava a vida das pessoas. Depois das sessões no Congresso Nacional, as mesas do Piantella eram palco da continuidade das discussões sobre o país. Era comum encontrar políticos como Delfim Neto, Antônio Carlos Magalhães, José Genuíno, Miro Teixeira e José Dirceu, sentados juntos.
Rigorosamente, fazendo jus à propaganda feita por Nizan Guanaes para o Piantella, ali oposição e situação sentavam à mesma mesa. A expectativa pela posse de um operário na Presidência da República eletrizava o país. E saíamos de um governo do Fernando Henrique Cardoso, um intelectual preparado, sério e honesto. O Brasil respirava democracia.
No centro das atenções políticas estava o futuro ministro e Chefe da Casa Civil, José Dirceu. Seguramente, junto com Lula, o maior político brasileiro. Ele tinha sido o principal responsável pela vitória do PT. Era o articulador mais habilidoso e preparado. Falava com todos os setores e preparou o Lula para ser Presidente da República e, tão importante quanto, preparou o Brasil para o Lula. À época, havia um mistério em torno da sua vida durante a clandestinidade. Quando uma história tão espetacular não é contada por quem viveu, é natural que surjam as mais diversas versões, romanceadas e fantasiadas.
Em Brasília, havia outros locais de reunião política que encantavam, como, por exemplo, a casa do saudoso Jorge Moreno no Lago Norte, onde gostava de reunir os amigos em jantares memoráveis. Jornalista amado, respeitado e bem-informado. Ele era o máximo. Foi meu cliente e meu amigo. E sabia, como ninguém, receber as pessoas. Uma noite, o Zé Dirceu me ligou e me convidou para irmos juntos a um jantar na casa do Moreno. Ele queria conversar comigo antes da festa. A caminho, surpreendeu-me dizendo: "hoje eu vou contar lá na casa do Moreno como foi minha saída do Brasil e parte da minha vida na clandestinidade”. Tive a certeza de que estava vivendo um momento histórico.
Depois de um tempo conversando com vários jornalistas presentes, o Zé Dirceu começou a falar sobre sua vida. Um silêncio ensurdecedor. Parecia que o tempo havia sido congelado. A curiosidade nos remetia a setembro de 1969, quando 15 prisioneiros políticos foram trocados pela libertação do embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick, que havia sido sequestrado por grupos guerrilheiros. Os ditadores da Junta Militar que governava o Brasil foram obrigados a aceitar a troca. Todos os prisioneiros foram para o México a bordo de um avião C-130 Hércules da FAB. De lá, o Zé Dirceu foi exilado em Cuba, de onde voltou clandestinamente ao Brasil.
Todos aqueles grandes profissionais de imprensa estavam ali, curiosos e sedentos. De repente, parecia não ser o Zé Dirceu que estava falando, mas o “Daniel” que eu conheci em Cuba, ainda na época do Fidel. Daniel era o nome de guerra dele durante o exílio. Foi uma noite memorável. Daquelas que fazem a vida valer a pena.
Anos depois, quando veio o mensalão no Supremo Tribunal Federal, fui convidado pelo Zé Dirceu para ser advogado dele. Eu disse que o processo seria político e que ele deveria procurar um advogado ligado ao PSDB. É o maior arrependimento que tenho na minha vida profissional.
O processo foi totalmente político e o escolheram como alvo porque ele seria, inapelavelmente, o próximo presidente da República. Era, de longe, o político brasileiro mais preparado. Exatamente por isso, toda a artilharia voltou-se contra ele. E ele, indefeso, foi condenado. Acompanhei de perto o processo porque fui advogado do Duda Mendonça, que foi absolvido. Fizeram uma subleitura covarde da teoria do domínio do fato apenas para condenar o Zé Dirceu. E ainda cassaram seu mandato. E isso tirou o maior político brasileiro da vida pública por todos estes anos.
Agora, com 80 anos de idade, Zé Dirceu, no gozo de seus direitos políticos novamente, candidata-se a deputado federal por São Paulo. A vontade é transferir o título para homenagear o político que dedicou toda a sua vida a um projeto de país democrático e soberano. Seu empenho pelo Brasil, pelo Lula e pelo PT emociona e faz a gente acreditar que é possível, sim, vencer a barbárie, o fascismo e a extrema-direita que teimam em levar o Brasil ao caos. Espero estar no plenário da Câmara dos Deputados para aplaudir sua posse. O Brasil deve isso a ele.
“Fiz todo tipo de treinamento em Cuba e estudei muito sobre o Brasil, mas não admitia ser banido do meu país. Fiz prótese no nariz, puxei o rosto, mudei os olhos, passei a usar óculos, deixei o bigode crescer e mudei o corte de cabelo.”
“Assinei a ata de fundação do PT com o sentimento de que acabara de readquirir meus direitos políticos e minha nacionalidade que a ditadura roubara. O PT entrou na minha vida para não mais sair.”
José Dirceu de Oliveira e Silva - Zé Dirceu
Créditos: Antônio Carlos de Almeida Castro, Kakay
