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Violência doméstica em Cascavel: o retrato de uma rede sob pressão

Os dois Juizados especializados acumulam 8.006 ações em tramitação e 4.221 procedimentos investigatórios. Enquanto cerca de 3 mil mulheres vivem sob medidas protetivas, o município

Por Julia Maraschi

Violência doméstica em Cascavel: o retrato de uma rede sob pressão Créditos: Divulgação

Os números de violência contra a mulher em Cascavel revelam uma rede de proteção sob forte demanda. Atualmente, a cidade possui dois Juizados de Violência Doméstica, que acumulam 8.006 processos em tramitação, e 4.221 procedimentos investigatórios, enquanto cerca de 3 mil mulheres são acompanhadas por medidas protetivas. Além de retratar o volume de casos, os dados levantam o questionamento central se o crescimento desse acervo reflete o aumento da violência, uma maior confiança das vítimas para denunciar ou uma estrutura que ainda busca responder ao avanço da demanda.

Os processos em tramitação incluem crimes previstos na Lei Maria da Penha, como lesão corporal, ameaça, perseguição (stalking), violência psicológica, violência patrimonial e descumprimento de medidas protetivas. Já os procedimentos investigatórios correspondem a casos que ainda estão sendo apurados ou aguardam a formação da ação penal. Embora um mesmo caso possa aparecer em diferentes etapas da tramitação, os dados demonstram uma elevada carga de trabalho para os Juizados especializados. 

Acúmulo de processos 

O grande acervo não surgiu recentemente, mas veio de processos acumulados há anos. Em 2023, Cascavel possuía apenas um Juizado de Violência Doméstica, no qual a previsão para as primeiras audiências de instrução estavam sendo agendadas para 2027 devido à alta demanda. Naquele período, a OAB municipal demonstrou que o Juizado especializado recebia mais processos do que qualquer Vara Criminal da comarca e foi  justamente esse cenário que motivou a criação do 2º Juizado de Violência Doméstica, implantado para distribuir a demanda. Com a nova unidade, o tempo estimado para a primeira audiência caiu para cerca de um a dois anos, mas os dados mostram que o volume de processos continua elevado. 

O volume de processos em tramitação no Juizado acompanha a demanda registrada pela Delegacia da Mulher.No último balanço anual disponível, a unidade contabilizou 1.857 procedimentos, formando uma média superior á 150 atendimentos feitos por mês. No mesmo período, foram instauradas 1.297 medidas protetivas de urgência, o equivalente a mais de 100 novas medidas mensais para garantir a segurança de mulheres em situação de violência. Os números evidenciam um fluxo contínuo de novos casos que ingressam na rede de proteção e ajudam a explicar por que novos processos continuam chegando ao Judiciário todos os meses. 

Medidas Protetivas

Atualmente, aproximadamente 3 mil mulheres possuem medidas protetivas ativas em Cascavel, e são acompanhadas pela Delegacia da Mulher e pela Patrulha Maria da Penha. Isso porque, mesmo depois da medida ser concedida, às vítimas continuam vulneráveis ao feminicídio devido à dependência financeira, quando a mulher não dispõe de moradia segura, renda ou creches para os filhos; descumprimento da medida e ausência de monitoramento ostensivo em tempo real e o efetivo policiamento preventivo deixam a mulher à mercê de novas agressões; a falta de alternativas de recomeço. 

Para garantir a efetividade da proteção, a Justiça vem endurecendo diretrizes, como o uso obrigatório de tornozeleira eletrônica e o novo crime de descumprimento previsto no Código Penal. No entanto, a segurança real exige políticas públicas interligadas, envolvendo áreas como assistência social, saúde e empregabilidade.

Patrulha Maria da Penha

A Patrulha Maria da Penha de Cascavel acompanha atualmente cerca de 3 mil mulheres, e tem o papel de proteger vítimas de violência doméstica, fiscalizar o cumprimento das medidas protetivas e oferecer acolhimento e orientações sobre redes de apoio. 

A patrulha já realizou o atendimento de mais de 30 mil mulheres desde que entrou em ação, no ano de 2017. A organização atua de forma integrada com as forças de segurança locais, podendo ser acionadas rapidamente caso a medida seja descumprida, realiza visitas periódicas à casa das vítimas e verificam ativamente se o autor está respeitando o distanciamento determinado pelo juiz.  

A face mais extrema da violência

O elevado número de processos em tramitação, junto com o tempo de espera consequente a esse aumento devem ser analisados à luz dos casos mais graves de violência contra mulher registrados no município. Em 2026, três feminicídios foram oficialmente confirmados em Cascavel, e evidencia que a violência doméstica ainda produz desfechos fatais. 

A primeira vítima foi Ana Rosa Pereira da Silva, de 32 anos, morta a tiros em fevereiro. O principal suspeito do crime é o companheiro. Ainda no mesmo mês, Mayara Araújo Krupinski Rodrigues, de 30 anos, foi assassinada a facadas dentro do apartamento onde morava. Em março, a terceira vítima foi Clereni Maria Menegassi, de 68 anos, encontrada morta em sua residência no bairro Jardim Universitário; o suspeito foi preso durante as investigações conduzidas pela Delegacia de Homicídios. 

Além dos casos oficialmente contabilizados, um quarto caso, registrado no fim de junho e que vitimou uma escrivã da Polícia Federal, passou a ser investigado como feminicídio. O inquérito ainda está em andamento e, por isso, o crime aguarda conclusão para integrar formalmente as estatísticas oficiais. 

Os registros também incluem pelo menos duas tentativas de feminicídio nos primeiros meses do ano, demonstrando que os crimes letais representam apenas uma parte de um cenário mais amplo de violência contra as mulheres.

Em poucos meses, Cascavel já igualou o número de feminicídios registrados durante todo o ano de 2025, um dado que acendeu o alerta entre as autoridades responsáveis pelo enfrentamento da violência doméstica. No contexto estadual, o Paraná contabilizou 33 feminicídios no primeiro trimestre de 2026, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, reforçando que a violência letal contra mulheres permanece como um dos principais desafios da segurança pública.

Embora os indicadores revelam uma elevada demanda sobre a rede de proteção às mulheres, eles não permitem afirmar, isoladamente, quais fatores levaram ao atual cenário. O grande acervo de processos pode ser resultado de diferentes fenômenos que, inclusive, podem ocorrer de forma simultânea. Entre as hipóteses estão o aumento dos casos de violência doméstica, uma maior procura das vítimas pelos canais de denúncia, o fortalecimento da rede de proteção e mudanças na legislação que ampliaram a responsabilização dos agressores. Também é necessário avaliar se a estrutura do sistema de Justiça tem conseguido acompanhar o crescimento da demanda, mesmo após a criação do segundo Juizado de Violência Doméstica.

Para compreender as causas desse cenário, a Gazeta do Paraná entrou em contato com a Delegacia da Mulher de Cascavel e com a coordenação da Patrulha Maria da Penha, solicitando informações sobre a evolução das denúncias, medidas protetivas, atendimentos e estrutura de atendimento. Até o fechamento desta reportagem, os órgãos não haviam respondido aos questionamentos encaminhados pela equipe.

Os números mostram uma rede de proteção permanentemente acionada. Delegacia, Judiciário, Patrulha Maria da Penha e demais órgãos acompanham milhares de casos simultaneamente. A criação do segundo Juizado representou um avanço na estrutura de atendimento, mas o volume atual de processos, investigações e medidas protetivas mostra que a violência contra a mulher continua sendo um dos maiores desafios enfrentados por Cascavel. Resta saber se a estrutura disponível conseguirá acompanhar essa demanda nos próximos anos. 

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp