Violência contra mulheres preocupa autoridades em Cascavel e destaca importância da Patrulha Maria da Penha
Equipe especializada da Guarda Municipal acompanha cerca de 3 mil mulheres com medidas protetivas em Cascavel
Por Da Redação
Créditos: Assessoria
O aumento nos casos de violência contra mulheres em Cascavel tem acendido um alerta entre autoridades e profissionais que atuam no enfrentamento desse tipo de crime. Somente nos primeiros meses de 2026, o município já registra três feminicídios consumados e duas tentativas, números que praticamente se aproximam de todo o ano passado.
Em 2025, foram contabilizados três feminicídios e quatro tentativas. A proximidade dos números, porém em um período muito menor, preocupa quem acompanha de perto a realidade das vítimas de violência doméstica.
A inspetora da Guarda Municipal e coordenadora da Patrulha Maria da Penha, Josane de Fátima, explica que, em muitos casos, as vítimas que acabam mortas sequer chegaram a solicitar medidas protetivas.
Segundo ela, um fator recorrente nas ocorrências é que muitas mulheres não chegam a buscar ajuda formal do sistema de proteção.
“A maioria das vítimas que sofreram feminicídio neste ano não tinha medida protetiva. Algumas até registraram ocorrência, porém não deram continuidade ao processo, não quiseram solicitar a medida protetiva e preferiram dar uma segunda chance ao autor. Isso também é algo que a gente entende do lado da vítima, porque muitas vezes ela está inserida no ciclo da violência”, explicou.
Atuação da patrulha
Criada há quase uma década em Cascavel, a Patrulha Maria da Penha da Guarda Municipal se tornou uma das principais ferramentas de acolhimento e proteção às vítimas de violência doméstica. Ao longo desse período, mais de 30 mil mulheres já passaram pelo atendimento da equipe.
De acordo com Josane, a atuação da patrulha vai além do atendimento emergencial das ocorrências. Após o registro da violência, inicia-se um trabalho de acompanhamento das vítimas.
“A partir desse trabalho, nós da Patrulha Maria da Penha entramos no caso e buscamos identificar quais são os pontos mais vulneráveis daquela mulher. Pode ser uma questão financeira, psicológica ou social. A partir disso, fazemos os encaminhamentos necessários, acolhemos essa mulher, oferecemos proteção, encaminhamos para abrigo quando necessário e até solicitamos mandados de prisão”, explicou.
Esse atendimento envolve visitas às residências, escuta das vítimas e encaminhamento para serviços de assistência social, psicológica e jurídica.
“Muitas vezes, quando o autor sai da residência, essa mulher fica sem condições básicas, inclusive sem alimentos. Nesses casos, buscamos auxílio, como cesta básica, e fazemos os encaminhamentos necessários para os setores que podem prestar atendimento”, relatou.
Outro ponto importante do trabalho é a fiscalização do cumprimento das medidas protetivas. Caso haja descumprimento, a patrulha comunica o Judiciário, o que pode resultar até na prisão do agressor.
Aumento de ocorrências
Os registros de violência doméstica atendidos pela Guarda Municipal também demonstram um crescimento significativo nos últimos anos. Em 2023, foram 337 casos atendidos. Já em 2025, o número saltou para 1.027 ocorrências.
Somente neste ano, mesmo ainda no início do calendário, o município já ultrapassou a marca de 200 atendimentos relacionados à violência contra mulheres.
Parte desse aumento está relacionada a mudanças na legislação. O crime de ameaça, por exemplo, passou a ser de ação penal incondicionada, o que significa que o caso pode seguir para investigação mesmo que a vítima não manifeste formalmente interesse em representar contra o agressor.
Além disso, a maior divulgação sobre os canais de denúncia e sobre os direitos das vítimas também tem contribuído para que mais mulheres procurem ajuda.
“A imprensa é um meio importante para que a mulher saiba onde buscar ajuda. Muitas vezes ela está ouvindo rádio, assistindo televisão ou lendo um jornal e encontra essas informações. Isso encoraja a mulher a denunciar, porque ela percebe que não estará sozinha”, destacou a inspetora.
Equipe reduzida
Apesar da relevância do trabalho, a Patrulha Maria da Penha enfrenta um desafio importante: o número reduzido de profissionais na equipe.
Atualmente, apenas três guardas municipais integram a patrulha responsável pelo acompanhamento de cerca de três mil mulheres que possuem medidas protetivas em Cascavel.
A situação foi destacada recentemente pela vereadora Bia Alcântara, que chamou atenção para a importância de fortalecer a estrutura da equipe.
“Conversei com algumas mulheres que trabalham na Patrulha Maria da Penha da Guarda Municipal. Elas me relataram que, como sempre, no Dia das Mulheres, a violência contra a mulher aumenta. Existem mais ocorrências neste dia, assim como no Dia das Mães, no Natal e em outras datas, o que é muito absurdo e contraditório, mas é uma realidade que precisamos enfrentar”, afirmou.
Segundo a vereadora, o trabalho desenvolvido pela patrulha é essencial para garantir o acompanhamento das vítimas após as ocorrências.
“Pude acompanhar mais de perto como funciona o dia a dia dessas pessoas e sei que é uma correria danada, que fazem acompanhamento muito importante das mulheres depois dessas ocorrências. As mulheres que sofrem violência têm o contato desses agentes para comunicar descumprimento de medida restritiva ou pedir ajuda para reconstruir a vida”, disse.
Para ela, o fortalecimento da equipe pode ampliar ainda mais a capacidade de atendimento e acompanhamento das vítimas no município.
“É um absurdo pensar em um município que não prioriza essa patrulha que faz tanta diferença para as mulheres de Cascavel. Então gostaria de pedir publicamente que seja dada essa atenção especializada à patrulha”, completou.
A expectativa é de que o cenário possa melhorar nos próximos meses. Segundo a coordenadora da patrulha, um curso de formação da Guarda Municipal está em andamento e deve ser concluído até meados do ano.
Com isso, novos profissionais poderão ser incorporados às atividades, ampliando o efetivo disponível para atuar no enfrentamento à violência doméstica.
Enquanto isso, o trabalho segue com foco no acolhimento e na orientação das vítimas, além da fiscalização das medidas protetivas e do encaminhamento para serviços de apoio.
Para a Patrulha Maria da Penha, a informação, a denúncia e o acompanhamento continuam sendo ferramentas fundamentais para romper o ciclo da violência e garantir mais segurança às mulheres de Cascavel.
