Créditos: Peter Dazeley/Getty Images
Uso incorreto de remédios causa 600 mil intoxicações no Brasil e vira alerta de saúde pública
Especialistas de hospitais universitários alertam que nove em cada dez brasileiros se automedicam; prática eleva riscos de lesões em órgãos, superbactérias e sobrecarga no SUS
O uso incorreto de medicamentos segue provocando milhares de casos de intoxicação no Brasil e já é tratado como um problema de saúde pública. Especialistas ligados à HU Brasil alertam que práticas consideradas comuns, como automedicação, interrupção de tratamentos ou uso de remédios fora do horário indicado, podem gerar consequências graves e até fatais.
Dados citados pela rede mostram a dimensão do problema. Uma pesquisa do Instituto de Pesquisa e Pós-Graduação para o Mercado Farmacêutico (ICTQ), realizada em 2022, apontou que nove em cada dez brasileiros fazem automedicação. Outro levantamento, publicado no International Journal of Advanced Engineering Research and Science, identificou ao menos 596 mil casos de intoxicação por medicamentos no país entre 2012 e 2021.
“Se é remédio, não faz mal” é um mito, alertam especialistas
Segundo o chefe do Setor de Farmácia Hospitalar do Hospital Universitário de Lagarto, da Universidade Federal de Sergipe, Vicente Dantas, um dos principais problemas é a falsa percepção de que medicamentos não oferecem riscos.
“Muitas vezes, o paciente acredita que se é remédio, não faz mal. Esse é um dos maiores mitos que precisamos desconstruir. Os medicamentos salvam vidas, mas quando usados sem critério, podem e vão também colocá-las em risco”, afirmou.
Os especialistas apontam que o uso inadequado de medicamentos pode causar intoxicações, mascaramento de doenças graves, dependência química, lesões em órgãos como rins e fígado e interações perigosas entre remédios.
O problema se agrava principalmente entre idosos, que frequentemente utilizam vários medicamentos ao mesmo tempo, prática conhecida como polifarmácia.
Uso incorreto de antibióticos preocupa hospitais
Outro ponto de alerta envolve os antibióticos. O uso inadequado, como interromper o tratamento antes do prazo ou tomar medicamentos sem prescrição médica, contribui para o surgimento das chamadas superbactérias.
Essas bactérias se tornam resistentes aos antibióticos tradicionais, dificultando tratamentos e aumentando o risco de morte.
Segundo o farmacêutico Juliano Pereira, do Hospital de Doenças Tropicais da Universidade Federal do Norte do Tocantins, a resistência bacteriana já causa mais de 1,2 milhão de mortes por ano no mundo.
A estimativa é que, caso o cenário continue avançando, o número possa ultrapassar 10 milhões de mortes anuais até 2050.
Na prática hospitalar, isso significa tratamentos mais caros, necessidade de antibióticos mais fortes, aumento do tempo de internação e maior mortalidade.
Hospitais adotam ações de controle
Hospitais universitários federais vêm ampliando programas de uso racional de medicamentos para tentar reduzir erros e aumentar a segurança dos pacientes.
No Hospital Universitário da Universidade Federal de Santa Catarina, por exemplo, equipes realizam campanhas internas e utilizam ferramentas de inteligência artificial para identificar riscos relacionados a prescrições médicas e interações medicamentosas.
Já no Hospital Universitário de Lagarto, farmacêuticos participam diretamente das visitas clínicas aos pacientes, auxiliando médicos na avaliação dos tratamentos e no controle do uso de antimicrobianos.
“A farmácia deixou de ser uma unidade apenas logística, ela também é clínica, educativa e estratégica”, afirmou Vicente Dantas.
No Hospital de Doenças Tropicais da Universidade Federal do Norte do Tocantins, farmacêuticos analisam diariamente todas as prescrições feitas na unidade para reduzir riscos de erros e evitar interações perigosas entre medicamentos.
Impacto no SUS
Além dos riscos aos pacientes, o uso inadequado de medicamentos também aumenta os custos do Sistema Único de Saúde.
Segundo especialistas da rede hospitalar, tratamentos incorretos elevam o número de internações, ampliam o tempo de permanência nos hospitais e sobrecarregam o sistema público de saúde.
“Para o SUS, o uso racional de medicamentos reduz os custos com os tratamentos, gera economia de recursos e diminui os períodos de internação”, destacou Juliano Pereira.
A classificação de “uso racional de medicamentos” foi criada pela Organização Mundial da Saúde em 1985 justamente para incentivar práticas seguras no uso de remédios e evitar problemas relacionados à automedicação e ao tratamento inadequado.
