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Um terço dos cursos de Medicina tem desempenho ruim em novo exame do MEC e acende alerta sobre qualidade da formação

Com cerca de 30% dos cursos com notas baixas no Enamed, MEC sinaliza sanções e reacende debate sobre qualidade e transparência no ensino médico, enquanto universidades resistem a divulgar seus próprios resultados

Por Gazeta do Paraná

Um terço dos cursos de Medicina tem desempenho ruim em novo exame do MEC e acende alerta sobre qualidade da formação Créditos: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Os resultados da primeira edição do Enamed, exame criado pelo Ministério da Educação para avaliar a formação médica no país, revelam um cenário preocupante: cerca de um terço dos cursos de Medicina avaliados obteve desempenho considerado insatisfatório. Os dados, divulgados pelo Inep, indicam que aproximadamente 30% das graduações ficaram com conceitos 1 ou 2, numa escala que vai de 1 a 5.

Ao todo, 351 cursos participaram da avaliação. Segundo os números oficiais, 7,1% receberam conceito 1 e 23,6% ficaram com conceito 2. Outros 22,7% alcançaram conceito 3, enquanto 33% obtiveram conceito 4 e apenas 13,6% atingiram a nota máxima, conceito 5. Embora a maior parte das graduações esteja concentrada entre os conceitos intermediário e bom, o volume de cursos mal avaliados chamou a atenção do próprio MEC e de especialistas em educação médica.

O Enamed foi concebido para substituir e ampliar o papel do Enade na área médica e, ao mesmo tempo, dialogar com os processos de seleção para residência médica. Diferentemente de avaliações anteriores, o novo exame passou a ter peso regulatório mais claro. O desempenho dos estudantes deixa de ser apenas um indicador estatístico e pode gerar consequências administrativas diretas para as instituições.

Cursos que obtiverem resultados baixos poderão ser submetidos a processos de supervisão. Entre as medidas possíveis estão a redução do número de vagas, a suspensão temporária de novos ingressos e até restrições à participação em programas federais de financiamento estudantil, como Fies e ProUni, caso não haja melhora nos indicadores.

A divulgação dos resultados, no entanto, não ocorreu sem resistência. Associações que representam faculdades privadas de Medicina recorreram à Justiça para tentar impedir a publicação dos dados, sob o argumento de que a exposição poderia gerar rankings informais, danos reputacionais e prejuízos econômicos às instituições. A tentativa não prosperou, e a Justiça autorizou a divulgação dos resultados de forma agregada, sem a apresentação de uma lista pública nominal de universidades e suas respectivas notas.

Esse ponto é central na controvérsia. Embora os números gerais tenham sido tornados públicos, não há, até o momento, uma relação oficial aberta que identifique individualmente quais universidades obtiveram conceitos baixos ou altos no Enamed. As informações detalhadas são acessíveis apenas às próprias instituições e aos órgãos reguladores, que utilizam os dados para fins de supervisão e tomada de decisão administrativa.

 

Formação em xeque, mercado aquecido

O contraste entre os resultados do exame e a realidade do mercado de trabalho médico amplia o debate. Hoje, salários iniciais para médicos recém-formados podem variar entre R$ 10 mil e R$ 15 mil mensais em plantões hospitalares e contratos com redes privadas, enquanto profissionais mais experientes ou especializados frequentemente ultrapassam a faixa dos R$ 20 mil. Em regiões com déficit de profissionais, especialmente no interior do país, a remuneração pode ser ainda maior, mesmo para médicos em início de carreira.

Esse cenário ajuda a explicar a forte procura por cursos de Medicina, muitos deles com mensalidades elevadas, que chegam a ultrapassar R$ 10 mil. O dado, porém, torna mais sensível o alerta trazido pelo Enamed: a sociedade absorve e remunera bem profissionais cuja formação, em parte significativa dos cursos, foi considerada insuficiente pelo próprio sistema oficial de avaliação. Para especialistas, a combinação de altos salários, escassez de médicos em determinadas regiões e expansão acelerada de vagas cria um ambiente em que a demanda do mercado nem sempre caminha lado a lado com a qualidade da formação.

 

Transparência sob teste

Diante da polêmica, cresce a cobrança por uma postura mais ativa das próprias universidades. Se o exame é apresentado como instrumento legítimo de avaliação da formação médica, por que não tornar públicos os resultados institucionais? A divulgação voluntária das notas poderia funcionar como sinal de compromisso com a qualidade e com a sociedade, sobretudo em um curso de alto impacto social e econômico. O silêncio, por outro lado, tende a alimentar desconfianças e reforçar a percepção de que parte do sistema prefere discutir os critérios do exame a enfrentar seus próprios indicadores.

Para o MEC, a política de divulgação atende ao interesse público e busca enfrentar um problema estrutural: a rápida expansão de cursos de Medicina nos últimos anos, muitas vezes sem garantias claras de qualidade. Já para parte do setor privado, o temor é que os resultados do exame impactem diretamente a sustentabilidade financeira das faculdades e a atratividade de um mercado que movimenta bilhões de reais por ano.

Enquanto a lista nominal das universidades segue fora do alcance do público, o recado dos números é claro. O desempenho de uma parcela significativa dos cursos está abaixo do esperado, em contraste com um mercado que segue pagando salários elevados. O Enamed inaugura, assim, uma nova etapa de pressão por qualidade. Resta saber se as instituições vão tratar os resultados como um incômodo a ser contido — ou como um dado a ser assumido, explicado e enfrentado publicamente.

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp