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Sérgio Moro é acusado de agressão, ameaças e sabotagem judicial na Lava Jato

Ex-juíza e juiz federal relatam intimidação, ocultação de habeas corpus, invasão de gabinete, destruição de provas e retaliações contra quem tentou expor o funcionamento interno da operação

Por Gazeta do Paraná

Sérgio Moro é acusado de agressão, ameaças e sabotagem judicial na Lava Jato Créditos: Jefferson Rudy/Agência Senado

Relatos reunidos no documentário A Caixa Preta da Lava Jato, lançado no último dia 13 pelo canal TV GGN, revelam que a operação anticorrupção mais emblemática do país teria recorrido não apenas a expedientes jurídicos controversos, mas também a práticas sistemáticas de intimidação contra magistrados que contrariaram seus interesses. As denúncias partem de duas fontes centrais: a ex-juíza federal Luciana Bauer e o juiz federal Eduardo Appio, ambos com atuação direta em processos relacionados à Lava Jato.

Luciana Bauer relata que a ruptura definitiva ocorreu após um encontro com Sérgio Moro dentro do prédio da Justiça Federal em Curitiba. Segundo seu depoimento, o então juiz da Lava Jato teria cometido agressão física e feito uma ameaça direta, afirmando que ela “sairia da Justiça” e que poderia ser presa caso continuasse questionando condutas da operação.
O episódio, longe de ser isolado, teria inaugurado uma escalada de intimidação. Bauer afirma que, logo após a ameaça, viaturas da Polícia Federal passaram a circular repetidamente em sua rua, o que ela interpretou como uma forma de vigilância informal. “Ali eu entendi que as coisas estavam muito além da normalidade”, relata.

Habeas corpus escondidos
A ex-juíza afirma ter identificado, já em seu primeiro plantão, a ocultação deliberada de habeas corpus do STJ no sistema eletrônico da Justiça Federal. Segundo ela, processos ficavam “escamoteados” para evitar decisões que contrariassem a força-tarefa.
Ao questionar servidoras responsáveis pelo fluxo processual, Bauer relata ter ouvido que os pedidos não eram levados aos juízes de plantão porque o Ministério Público já preparava novas denúncias e temia a soltura dos investigados. Para a magistrada, tratava-se de uma manipulação consciente do sistema judicial, com o objetivo de impedir decisões independentes.

Invasão de gabinete e destruição de provas
Após denunciar os fatos à Corregedoria e a instâncias superiores, Bauer afirma ter sofrido retaliação direta dentro do fórum. Seu computador funcional teria sido acessado sem autorização e todo o dossiê que reunia provas das irregularidades foi apagado. Em outras ocasiões, relata invasões ao gabinete, com desaparecimento de documentos e pertences pessoais.
O resultado, segundo ela, foi o isolamento completo. “Eu calei a minha boca”, diz. Temendo pela própria segurança, Bauer afirma ter comprado um carro blindado e, pouco depois, decidiu deixar a magistratura. “Foi a melhor decisão que tomei”, conclui, ao relatar o ambiente que descreve como hostil e dominado por servidores alinhados à Lava Jato.

O alerta ao STF e a morte de Teori Zavascki
Em meio à escalada de intimidações, Luciana Bauer relata ter buscado uma instância que considerava capaz de conter os abusos que presenciava. No final de 2016, sentindo-se acuada e sem respostas institucionais às denúncias encaminhadas à Corregedoria, ela decidiu procurar diretamente o ministro Teori Zavascki, então relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal.
Segundo seu depoimento, Bauer telefonou ao ministro e narrou detalhadamente os episódios que vinha enfrentando: a ocultação de habeas corpus, a manipulação de plantões, a conduta de servidores e magistrados, além da agressão física e das ameaças que atribui a Sérgio Moro. Ela afirma ter informado números de processos, nomes de envolvidos e circunstâncias concretas das irregularidades.
De acordo com Bauer, Teori demonstrou preocupação. Ela relata que o ministro afirmou já ter recebido “outras denúncias ao pé do ouvido” sobre condutas que “beiravam o crime” e que seria necessário “cortar as asas” de um juiz que havia sido transformado em herói. A ex-juíza sustenta que Teori indicou a intenção de tomar providências e buscar esclarecimentos diretos.
Pouco tempo depois desse contato, em janeiro de 2017, Teori Zavascki morreu na queda de um avião em Paraty (RJ). No documentário, Bauer afirma que o episódio teve impacto profundo sobre sua percepção da gravidade do que estava em curso. Sem fazer acusações diretas sobre as causas do acidente, ela relata que a morte do ministro interrompeu abruptamente o único canal institucional em que ainda depositava confiança.
“Aquilo me fez entender que eu estava lidando com algo muito maior do que desvios isolados”, afirma. Para ela, a ausência de Teori contribuiu para o avanço de um ambiente de medo e silenciamento dentro do Judiciário, no qual denúncias internas deixaram de encontrar acolhimento efetivo nas instâncias superiores.

Quem tentou “abrir a caixa preta”
Anos depois, já em um momento em que a Lava Jato começava a sofrer reveses institucionais, o juiz federal Eduardo Appio afirma ter enfrentado um padrão de intimidação semelhante ao assumir a 13ª Vara Federal de Curitiba, responsável pelos processos da operação. Segundo ele, a reação à sua chegada deixou claro que sua presença era vista como uma ameaça a um sistema que funcionava havia anos sem controle efetivo.
Appio relata que a pressão começou antes mesmo de assumir formalmente o cargo. “Quando souberam da minha candidatura, no dia seguinte o corregedor já estava me ligando, tentando me dissuadir de ir para a 13ª Vara. Diziam que talvez não fosse uma boa ideia”, afirma. Para o magistrado, o recado era inequívoco: havia interesse institucional em impedir que ele ocupasse aquela função.
O episódio mais emblemático, segundo seu relato, ocorreu quando foi chamado para uma reunião reservada em um domingo à noite, na sede da Justiça Federal em Curitiba, com o prédio fechado e sem circulação de pessoas. “O corregedor pediu para se reunir comigo secretamente, num domingo à noite, no prédio todo às escuras, para me dizer que eu estava pisando em terreno perigoso e que eu precisava cuidar do que faria”, relata. Na mesma conversa, segundo Appio, foi levantada a possibilidade de o tribunal retirar os processos da vara ou esvaziar completamente sua atuação.
Após assumir, as advertências teriam se convertido em medidas concretas. O juiz afirma que o Tribunal Regional Federal da 4ª Região retirou todos os seus assessores e servidores, deixando-o praticamente sozinho na condução de uma das varas mais complexas do país. “Para quebrarem as minhas pernas, eles tiraram todos os meus assessores e me deixaram trabalhando sozinho”, diz. Segundo ele, a decisão não teve justificativa administrativa e produziu um cenário de isolamento funcional deliberado.
Na avaliação de Appio, o objetivo era claro: inviabilizar qualquer tentativa de auditoria interna. “Eles queriam tirar os processos das minhas mãos de qualquer jeito, porque sabiam que ali havia uma caixa preta”, afirma. Para o magistrado, o temor não se limitava ao conteúdo das decisões judiciais, mas ao risco de exposição de uma estrutura mais ampla, envolvendo a gestão de recursos bilionários oriundos de acordos firmados durante a Lava Jato.
Appio classifica sua ida à 13ª Vara como uma “operação kamikaze”. “Eu sabia que não fazia parte do grupinho deles. Sabia que seria um papel disruptivo, necessário, mas que teria custo pessoal e institucional”, afirma. Segundo ele, a reação que enfrentou reforçou uma percepção recorrente no documentário: quem tentava romper o consenso interno ou lançar luz sobre práticas consolidadas era tratado como um problema a ser neutralizado, ainda que isso significasse comprometer a independência judicial.

Intimidação como método
Os relatos de Bauer e Appio convergem ao apontar que a Lava Jato não teria se limitado a excessos pontuais, mas teria operado com métodos de intimidação institucional: ameaças diretas, isolamento funcional, manipulação de sistemas, destruição de provas e pressão psicológica.
Segundo ambos, magistrados que não se alinhavam à lógica da operação eram tratados como obstáculos a serem neutralizados. O resultado, afirmam, foi um ambiente em que o medo substituiu o debate jurídico e a independência judicial passou a ser exceção.
As denúncias relatadas no documentário ainda aguardam apuração definitiva nas instâncias competentes. Mas, ao serem trazidas a público, expõem uma face pouco discutida da Lava Jato: a de um sistema que, para se preservar, teria recorrido à perseguição de quem ousou contrariá-lo.

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp