Redação Paraná: metas, correções em massa e o impacto da plataforma no trabalho docente
Ferramenta pública da Seed organiza a produção de redações e o monitoramento por dados, mas professores apontam falta de tempo, infraestrutura limitada e ampliação da jornada fora da sala de aula
Por Gazeta do Paraná
Créditos: Lucas Fermin/ SEED
Desenvolvida internamente pela Secretaria de Estado da Educação do Paraná, sem contratação de empresas privadas, a plataforma Redação Paraná passou a estruturar de forma centralizada a produção textual dos estudantes da rede estadual. O sistema organiza propostas de escrita, critérios de correção e indicadores de desempenho acompanhados pela Seed e pelos Núcleos Regionais de Educação (NREs), por meio de painéis de Business Intelligence (BI).
Do ponto de vista administrativo, a plataforma é apresentada como exemplo de racionalização do uso de recursos públicos, ao demonstrar que o próprio Estado possui capacidade técnica para desenvolver ferramentas digitais educacionais sem a necessidade de contratos milionários com empresas externas. No cotidiano escolar, porém, professores relatam que a implementação do sistema trouxe novas demandas de trabalho, metas rígidas e dificuldades operacionais, que nem sempre dialogam com as condições reais das escolas.
Metas uniformes em realidades distintas
A diretriz geral estabelecida pela Seed prevê a produção de três redações por trimestre por turma. Embora a meta seja apresentada como pedagogicamente desejável, professores apontam que ela desconsidera desigualdades estruturais entre escolas. “Não existem condições objetivas para cumprir essa meta”, relata um docente. “Ela pressupõe acesso contínuo à tecnologia, suporte técnico e tempo disponível que simplesmente não existem em muitas escolas.”
Em unidades com poucos laboratórios de informática, o acesso à plataforma se torna um desafio logístico. Há relatos de escolas com um único laboratório para atender dezenas de turmas, obrigando alunos a dividir equipamentos ou reduzir o tempo de uso. “Na prática, um aluno fica sem usar o computador ou o tempo precisa ser dividido, o que significa perder metade da aula”, descreve uma professora.
Além disso, professores relatam que alunos necessitam de longos períodos para produzir redações, visto que muitos têm dificuldade em usar o teclado. “Os alunos não sabem nem como acentuar palavras no teclado, digitam muito lentamente. Uma aula de 50 minutos a cada 15 dias no laboratório, é insuficiente para atender a demanda de 3 redações por trimestre. Sem contar que nestes momentos ainda precisamos atender a demandas do Leia Paraná e do Quizizz”, relata uma professora.
Acesso restrito fora da escola
Outro aspecto recorrente diz respeito ao acesso dos estudantes fora do ambiente escolar. Professores relatam que uma parcela significativa dos alunos não dispõe de internet em casa ou de dispositivos compatíveis com a plataforma.
“Há alunos que só conseguem acessar o sistema no laboratório da escola”, afirma uma docente. “Quando a plataforma exige produção fora desse espaço, parte da turma simplesmente não consegue acompanhar.”
Essa limitação, segundo os professores, impacta diretamente os índices de participação e o cumprimento das metas estabelecidas, gerando cobranças que recaem sobre o docente, independentemente das condições objetivas de acesso.
Correção em escala e trabalho fora da jornada
O ponto mais sensível nos relatos refere-se ao tempo necessário para correção das redações. Diferentemente de avaliações objetivas, a correção exige leitura atenta, releitura e preenchimento criterioso dos formulários avaliativos.
Professores estimam que cada redação demande, em média, entre 5 e 10 minutos para uma devolutiva responsável. Em turmas numerosas, o volume de textos se torna expressivo.
Um docente relata que, atuando em nove turmas com cerca de 36 alunos, chega a corrigir aproximadamente 972 redações por trimestre. “Considerando uma média de sete minutos por redação, isso dá mais de 110 horas apenas para correções”, afirma. “E isso sem contar planejamento, provas, outras avaliações e cursos obrigatórios.”
Segundo os relatos, esse trabalho é realizado majoritariamente fora da sala de aula, sem ampliação proporcional das horas-atividade previstas na jornada docente. “O tempo simplesmente não fecha”, resume um professor.
Horas-atividade e sobrecarga
Para professores com carga horária de 40 horas semanais, a Seed prevê 10 horas-atividade, que precisam contemplar planejamento, correções, registros administrativos e formações exigidas. Docentes apontam que esse tempo é insuficiente diante do volume de tarefas associadas à plataforma.
“Mesmo usando praticamente todo o tempo disponível para correções, ainda faltam dezenas de horas para dar conta da demanda”, relata uma professora. “O resultado é trabalhar à noite, nos fins de semana, ou reduzir a qualidade da devolutiva.”
Há também relatos de que a pressão por cumprimento de metas gera desgaste emocional. “A cobrança é constante. Se os números não aparecem no sistema, o problema recai sobre o professor”, afirma um docente.
Tecnologia pública, desafios persistentes
Do ponto de vista institucional, a Redação Paraná se diferencia de outras plataformas adotadas pela Seed por ter sido desenvolvida integralmente por equipes próprias, sem contratos com empresas privadas. Documentos oficiais analisados confirmam que não houve contratação de terceiros para sua criação, o que evidencia a capacidade técnica do Estado para desenvolver soluções digitais educacionais.
Esse aspecto ganha relevância quando comparado a outras plataformas da rede, que envolvem investimentos milionários em empresas privadas, muitas vezes estrangeiras, como detalhado na primeira reportagem desta série.
Ao mesmo tempo, os relatos docentes indicam que a existência de tecnologia pública não elimina desafios relacionados à gestão do trabalho, infraestrutura escolar e organização pedagógica. “O problema não é a plataforma em si”, resume uma professora. “É como ela é implantada e cobrada, sem considerar as condições reais da escola.”
Continuidade da série
Esta é a terceira reportagem da série que investiga as plataformas digitais da Secretaria de Educação do Paraná, seus modelos de contratação, custos públicos e impactos no cotidiano escolar.
A partir de documentos oficiais e relatos da base da rede, a série busca compreender como a tecnologia educacional tem sido incorporada à política pública — e quais limites emergem quando sistemas digitais encontram a realidade concreta das escolas.
