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Quem é Valdécio Bombonato, o empresário que ampliou seu império nos portos brasileiros

Da atividade empresarial em Cascavel à construção de um dos maiores grupos privados do setor portuário, trajetória de Valdécio Bombonato cruza relações familiares, expansão societária, investigações e concessões bilionárias no Paraná

Por Gazeta do Paraná

Quem é Valdécio Bombonato, o empresário que ampliou seu império nos portos brasileiros Créditos: GP

Durante décadas, o nome de Valdécio Antônio Bombonato esteve restrito ao meio empresarial de Cascavel. Integrante de uma família conhecida na região Oeste do Paraná, iniciou sua trajetória em atividades empresariais ligadas ao setor madeireiro, ramo tradicional da economia regional. Posteriormente, passou a atuar também no comércio varejista de confecções. Nada indicava, àquela altura, que o empresário se tornaria um dos protagonistas da maior reorganização privada do sistema portuário paranaense.

Hoje, empresas ligadas a Bombonato participam da operação de terminais estratégicos no Porto de Paranaguá, mantêm o controle do Porto Ponta do Félix, em Antonina, e integram o consórcio responsável pela concessão do Canal da Galheta, a principal via de acesso marítimo ao maior complexo exportador do Sul do Brasil. Ao redor desses empreendimentos foi construída uma extensa rede de holdings, operadores portuários e sociedades de propósito específico que transformou o grupo em um dos mais influentes da infraestrutura logística nacional.

A dimensão dessa expansão desperta atenção não apenas pelo volume dos investimentos, mas pela velocidade com que ocorreu e pela rede de relações empresariais e familiares que acompanha essa trajetória.


Da empresa em Cascavel aos negócios no litoral

Levantamento realizado pela Gazeta do Paraná mostra que a atuação empresarial de Bombonato antecede em muitos anos sua chegada ao setor portuário.

Fontes ouvidas pela reportagem relatam que a família desenvolveu atividades ligadas ao setor madeireiro em Cascavel durante parte de sua trajetória empresarial. Posteriormente, Bombonato passou a investir no comércio de confecções.

Documentos societários consultados pela reportagem mostram que, em uma dessas empresas do ramo de vestuário, figuravam como sócias sua então esposa — irmã do advogado Adriano Dutra Emerick — e uma das filhas de Bombonato, já falecida. Os registros evidenciam que a relação entre as famílias Bombonato e Emerick ultrapassava os laços familiares, alcançando também a atividade empresarial.

Mesmo após a consolidação dos negócios portuários, a família manteve presença empresarial em Cascavel. Registros públicos identificam familiares como sócios da Solary Ville Cascavel, instituição de longa permanência para idosos instalada no município, demonstrando que parte das atividades familiares continua concentrada na cidade onde Bombonato iniciou sua trajetória empresarial.

 

O homem que nunca saiu de cena

É praticamente impossível reconstruir a história empresarial de Valdécio Bombonato sem chegar ao nome de Adriano Dutra Emerick.

Emerick é irmão da ex-esposa de Bombonato. Apesar do término do casamento, fontes ouvidas pela Gazeta do Paraná, que acompanham a trajetória dos dois há décadas, afirmam que o vínculo pessoal permaneceu inalterado. Pessoas que conviveram com ambos descrevem uma relação de confiança extremamente próxima, frequentemente comparada à existente entre pai e filho.

Essa proximidade aparece repetidamente em documentos públicos.

Emerick figura como advogado de empresas ligadas ao grupo empresarial de Bombonato, representante legal de operadores portuários, administrador de sociedades empresariais e personagem recorrente em processos judiciais relacionados ao Porto Ponta do Félix e a outros empreendimentos do setor.

Mais recentemente, seu nome voltou a aparecer em documentos da própria Portos do Paraná como representante da Emport Operações Portuárias Ltda., empresa habilitada a atuar no porto organizado.

A recorrência desses registros revela que sua atuação extrapola a advocacia tradicional, alcançando estruturas societárias e empresariais diretamente relacionadas à expansão do grupo.

 

A construção de um império portuário

Foi a partir do Porto Ponta do Félix, em Antonina, que Bombonato iniciou a construção do grupo empresarial que hoje reúne dezenas de empresas.

Ao longo dos últimos anos, a FTS Participações passou a estruturar sociedades criadas especificamente para disputar arrendamentos portuários.

Vieram, em sequência, as conquistas do PAR-32, destinado à movimentação de açúcar; do PAR-50, voltado aos granéis líquidos; do PAR-09, especializado em grãos; além da participação no consórcio vencedor da concessão do Canal da Galheta.

Observados isoladamente, cada contrato representa um investimento independente.

Quando analisados em conjunto, entretanto, revelam uma estratégia empresarial consistente de ocupação de diferentes segmentos da cadeia logística: armazenagem, operação portuária, infraestrutura marítima, logística e movimentação de cargas.

Hoje, empresas ligadas ao grupo participam de praticamente todas essas etapas.

 

Investigações e processos

A expansão empresarial ocorreu paralelamente a investigações conduzidas pelo Ministério Público do Paraná envolvendo interesses relacionados ao Porto Ponta do Félix e ao município de Antonina.

Um dos procedimentos alcançou o Supremo Tribunal Federal por meio de habeas corpus apresentado em favor de Adriano Emerick.

Nos autos, reproduzidos em decisões judiciais, o Ministério Público descreve suspeitas de corrupção, associação criminosa e favorecimento administrativo envolvendo interesses empresariais relacionados ao setor portuário.

Bombonato e Emerick contestaram integralmente as acusações, exercendo o direito de defesa.

Até o momento, a existência dessas investigações não autoriza concluir pela responsabilidade criminal dos envolvidos, razão pela qual a reportagem registra apenas os fatos constantes dos processos públicos.

 

A influência que alcança o poder público

A rede de relações não permanece restrita às empresas privadas.

A Gazeta do Paraná revelou anteriormente que Bárbara Priscila Kaiser, sobrinha de Adriano Emerick, ocupa atualmente a Coordenação de Fiscalização de Arrendamentos da Portos do Paraná.

A área é responsável pelo acompanhamento da execução dos contratos de arrendamento firmados entre a autoridade portuária e empresas privadas.

O parentesco, por si só, não caracteriza qualquer irregularidade.

Entretanto, considerando que empresas ligadas ao grupo de Bombonato figuram entre as principais arrendatárias do porto organizado, a coincidência desperta questionamentos sobre os mecanismos adotados pela administração pública para prevenir conflitos de interesses e garantir a imparcialidade da fiscalização.

Essa será uma das questões encaminhadas oficialmente à Portos do Paraná.

 

Uma rede empresarial difícil de compreender

Outro aspecto que chama atenção é a própria estrutura do grupo.

Bombonato não concentra seus ativos em uma única empresa. Ao contrário. A expansão ocorreu por meio da constituição de diversas holdings e sociedades de propósito específico, modelo comum em grandes empreendimentos de infraestrutura, mas que torna complexa a identificação do controle econômico de cada ativo.

Levantamentos realizados pela reportagem identificam empresas como FTS Participações, Fortepar, Forteleste, Brasil Sul Terminais, Porto Pontal, Interbulk, Emport e outras sociedades relacionadas direta ou indiretamente ao grupo.

Em diferentes momentos, Emerick também aparece conectado a esse universo empresarial.

 

O empresário mais poderoso dos portos paranaenses?

Embora permaneça distante da exposição pública, Valdécio Bombonato tornou-se uma das figuras mais influentes do setor portuário brasileiro.

Sua trajetória reúne expansão empresarial acelerada, participação em concessões bilionárias, uma complexa rede societária, investigações que chegaram aos tribunais superiores e relações familiares que atravessam empresas privadas e estruturas da administração pública.

Não há, até aqui, qualquer decisão judicial que permita afirmar que essa rede tenha sido construída de forma ilícita.

Mas há um conjunto robusto de documentos públicos que demonstra a concentração de ativos estratégicos, a recorrência dos mesmos personagens em diferentes empresas e a presença de familiares em posições relevantes dentro e fora da administração portuária.

É justamente esse conjunto de elementos (e não um fato isolado) que faz de Valdécio Bombonato um personagem central para compreender quem são os empresários que passaram a exercer maior influência sobre a infraestrutura portuária do Paraná nos últimos anos.

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp