Quando a poesia incomoda: a jovem que transformou vivências em resistência através do slam
Aos 18 anos, a poeta Lisa encontrou na poesia falada um espaço de pertencimento. Em entrevista ao Mais, ela fala sobre feminismo, juventude, redes sociais e o papel da arte como ferramenta de transformação social
Por Julia Maraschi
Créditos: Divulgaçaõ
O que faz uma jovem de 18 anos subir em um palco para gritar um poema sobre feminicídio em pleno centro de Cascavel? Para a poeta Lisa, a resposta está na própria essência do slam: transformar experiências pessoais em uma voz coletiva. Em entrevista ao Mais, a escritora falou sobre sua trajetória na poesia falada, explicou as diferenças entre slam e sarau e refletiu sobre temas como violência contra a mulher, saúde mental, redes sociais e inteligência artificial.
O primeiro contato de Lisa com a escrita ocorreu durante o isolamento social na pandemia da Covid-19. A jovem conta ter encontrado nos textos uma forma de organizar os pensamentos, expressar sentimentos e transformar experiências em contos e pequenas histórias. O que começou como exercício íntimo ganhou novos contornos quando ela conheceu a poesia marginal pelas redes sociais e começou a frequentar batalhas de rima em Cascavel. A aproximação com o movimento se consolidou em 2024, com a participação em saraus e competições de slam, espaços onde, segundo ela, encontrou pertencimento, ampliou sua produção artística e passou a compartilhar, por meio da poesia falada, reflexões sobre identidade, feminismo, racismo e outras questões sociais. A trajetória também levou a poeta a se apresentar em diferentes espaços da cidade, de praças e manifestações populares ao Teatro Municipal e ao Carnaval de Cascavel, consolidando seu nome na cena cultural local.
Slam e Sarau
O slam e o sarau têm como foco a poesia e a arte. Apesar da semelhança e de se tratar de poesia falada, o slam possui natureza competitiva, com batalhas de poesia, tempo de até três minutos para a apresentação e foco na voz e no corpo do artista. Não é permitido o uso de fantasias, instrumentos musicais ou cenários. São abordados temas como problemas sociais, a vida na cidade e política.
O sarau é conhecido por ser um encontro livre, que abrange diversas manifestações artísticas, no qual são aceitos declamação de poemas (próprios ou de outros autores), música, dança, canto e teatro. É um espaço amigável, sem competitividade, voltado para a troca de ideias e experiências. Não há limite de tempo rigoroso para as falas nem restrições sobre o uso de instrumentos ou objetos.
Quando a poesia incomoda
Para Lisa, a poesia também tem a função de provocar e tirar as pessoas da zona de conforto. Ela conta que um dos episódios que mais marcou sua trajetória aconteceu durante uma manifestação contra o feminicídio, realizada na Avenida Brasil, em Cascavel. Enquanto recitava um poema sobre a violência enfrentada pelas mulheres, a artista foi interrompida por um motorista que passou pelo local e gritou para que ela "falasse mais baixo", alegando que não havia motivo para gritar. A reação, no entanto, não a fez interromper a apresentação. Lisa respirou, seguiu a recitação até o fim e recebeu o apoio das pessoas que participavam do ato. Para a poeta, a situação acabou simbolizando a própria mensagem do poema: denunciar a violência de gênero também significa enfrentar tentativas de silenciamento. "Deu para sentir que eu incomodei", afirmou durante a entrevista, ao refletir sobre como a arte, especialmente a poesia falada, pode provocar incômodo justamente por dar voz a temas que ainda encontram resistência no debate público.
Menina Mulher
O poema "Menina Mulher", responsável por tornar o trabalho de Lisa mais conhecido, surgiu antes dos 18 anos da escritora como uma forma de expressar seus pensamentos e transmitir como ela se sentia por ser tratada, em alguns momentos, como menina e, em outros, como mulher. A obra gira em torno das cobranças impostas à classe feminina na sociedade.
No processo de desenvolvimento do poema, Lisa contou como se sentia confusa e deslocada, pois, em alguns momentos, era considerada "mulher" para tomar decisões e assumir responsabilidades, mas ainda era chamada de "menina" por ter outras atitudes. Na obra, a autora cita que, quando interessa à sociedade, elas são tratadas como "meninas". Porém, quando convém, precisam assumir responsabilidades de mulheres adultas.
Escrever para existir
De acordo com Lisa, escrever é mais do que um exercício artístico: é uma forma de existir. Durante a entrevista, a poeta afirmou que não acredita na ideia de bloqueio criativo e defendeu que o próprio ato de escrever é capaz de despertar novas ideias. "Eu escrevo, logo eu existo", resumiu, ao explicar a relação que construiu com a literatura desde a adolescência. Segundo ela, o processo criativo acontece de maneira espontânea, sem a preocupação inicial com a qualidade do texto. A primeira etapa consiste em colocar no papel tudo o que surge, como um fluxo de sentimentos, sem apagar palavras ou interromper a escrita para fazer correções. Somente depois o poema passa por um processo de revisão, em que a autora ajusta ritmo, musicalidade e escolha das palavras, preservando a essência da emoção que deu origem ao texto.
Ao longo da entrevista, a conversa também se volta para os impactos das redes sociais sobre a juventude e a produção artística. Para Lisa, a busca constante por curtidas, compartilhamentos e visualizações influencia não apenas a autoestima dos jovens, mas também o processo criativo de quem produz arte. A poeta acredita que muitos artistas acabam medindo o valor do próprio trabalho pela repercussão nas plataformas digitais, o que pode afastá-los da autenticidade. Ela observa que a necessidade de aprovação é uma característica humana, mas avalia que a lógica das redes sociais potencializou esse comportamento, especialmente entre a geração Z. Na visão da escritora, a arte perde parte de sua essência quando passa a ser produzida apenas para agradar aos algoritmos ou atender às expectativas do público.
A IA substitui a arte?
Ao encerrar a entrevista, Lisa também refletiu sobre o avanço da inteligência artificial na produção de conteúdos artísticos. Embora reconheça que a tecnologia possa ser utilizada como ferramenta em diferentes contextos, ela não acredita que seja capaz de substituir a criação humana. Para a poeta, a literatura e, principalmente, a poesia falada são construídas a partir de experiências, memórias, sentimentos e presença de quem escreve e recita. "A IA não é um corpo que fala", resume. Na avaliação da escritora, a preocupação maior não está na tecnologia em si, mas na perda do pensamento crítico e na substituição da experiência humana por processos automatizados. Para ela, a arte continua sendo um espaço de encontro, sensibilidade e reflexão.
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Créditos: Redação
