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Pedágios no Paraná: roubalheira institucionalizada

Marcos Formighieri, Diretor do jornal Gazeta do Paraná, explicou em detalhes as situações “nebulosas” que permeiam os contratos do pedágio no estado

Pedágios no Paraná: roubalheira institucionalizada Créditos: Via Araucária/Reprodução

Na última edição do programa Tijolinho, do GCast, o podcast da Gazeta do Paraná, o diretor do jornal, Marcos Formighieri, expôs de forma detalhada e contundente a situação caótica e corrupta que envolve os contratos de concessão das rodovias e os pedágios no estado do Paraná. Suas falas revelam um cenário de desrespeito ao interesse público, má gestão, corrupção e um sistema que parece ter sido criado para beneficiar poucos em detrimento da população. A análise de Formighieri não se limita ao Paraná, mas também faz um paralelo com a situação em Santa Catarina, mostrando o problema estrutural do estado paranaense.


Formighieri começa destacando que muitas das rodovias paranaenses foram construídas há mais de 50 ou 60 anos, em um contexto completamente diferente do atual. A BR-277, por exemplo, foi construída na década de 1940, quando o tráfego de veículos pesados era insignificante comparado ao que vemos hoje. Naquela época, não existiam caminhões trucados, muito menos veículos com nove eixos e 30 metros de comprimento, como os que circulam atualmente. A infraestrutura das rodovias, no entanto, não foi adequada para acompanhar essa evolução. Curvas perigosas, aclives e declives mal projetados seguem sendo um risco constante para motoristas, causando acidentes graves e até mortes.


Formighieri enfatiza que, em muitos trechos, os caminhões precisam invadir a pista contrária para conseguir fazer curvas, o que aumenta significativamente o risco de colisões. A falta de manutenção e modernização das rodovias é, portanto, um problema que vai além da má gestão: é uma questão de segurança pública. A negligência histórica com a infraestrutura rodoviária do estado custa vidas e gera prejuízos econômicos incalculáveis.

 

Contratos


Um dos pontos mais alarmantes abordados por Formighieri é a forma como os contratos de pedágio foram e continuam sendo conduzidos no Paraná. Ele relembra que, na década de 1990, foi firmado um contrato fraudulento, resultado de um processo licitatório viciado. Pouco mais de um ano após o início da vigência do contrato, o então governador, candidato à reeleição, reduziu as tarifas em 50% por meio de um decreto. Essa medida, segundo Formighieri, foi um claro caso de "estelionato eleitoral", já que o governador sabia que manter as tarifas altas custaria sua reeleição.


Após a vitória nas eleições, as tarifas foram reajustadas, e um novo artifício foi criado para compensar as concessionárias pelas perdas durante o período de descontos: o chamado "degrau tarifário". Esse mecanismo permitiu que as empresas recuperassem os prejuízos, mas à custa da população, que continuou pagando tarifas abusivas. Formighieri denuncia que, além disso, 2% da receita bruta dos pedágios eram desviados como propina durante os 23 anos de vigência do contrato. Esse esquema de corrupção, segundo ele, foi "consagrado" e perpetuado ao longo das décadas.


A situação não melhora com os novos contratos de concessão. Pelo contrário, Formighieri alerta que a "roubalheira" pode ser ainda maior. Os prazos das novas concessões são de 30 anos, com possibilidade de prorrogação por mais 30, o que significa que as mesmas empresas podem continuar explorando as rodovias por até 60 anos. Para piorar, as obras de melhorias nas rodovias só devem começar a ser realizadas seis anos após a assinatura dos contratos. Enquanto isso, a população continua pagando tarifas altíssimas por um serviço precário.

 

Santa Catarina


O diretor do jornal também faz um comparativo com Santa Catarina, onde a situação é muito diferente. Em alguns trechos, a tarifa de pedágio chega a R$ 5,20, mas, ao mudar a denominação da rodovia entrando no Paraná, o valor aumenta consideravelmente. Além disso, os novos contratos no Paraná foram baseados nas tarifas exorbitantes dos contratos anteriores, que foram corrigidas monetariamente e incrementadas com novos "degraus tarifários". O resultado é que a população paranaense continua pagando caro por uma infraestrutura que não melhora.


Formighieri destaca que, enquanto as concessionárias lucram com tarifas altas e contratos vantajosos, a população sofre com rodovias congestionadas, acidentes frequentes e a falta de investimentos em infraestrutura. Ele critica a cláusula dos novos contratos que permite que as empresas recebam acréscimos em caso de atraso nas obras, em vez de serem penalizadas de forma severa. Essa prática, segundo ele, é mais uma prova de que o sistema foi criado para beneficiar as concessionárias em detrimento do interesse público.

 

Opinião


A análise de Formighieri é um alerta para a sociedade paranaense e para os governantes. A situação das rodovias e dos pedágios no estado é insustentável e reflete um sistema corrupto e ineficiente. Enquanto os contratos continuarem sendo feitos para beneficiar poucos, a população seguirá pagando caro por um serviço de má qualidade. A falta de transparência e a impunidade só perpetuam esse ciclo de roubalheira institucionalizada.


Formighieri encerra sua fala com um apelo: é preciso que a sociedade se mobilize e exija mudanças. A luta por uma gestão mais transparente e por contratos que priorizem o interesse público é essencial para que o Paraná possa finalmente, ter uma infraestrutura rodoviária digna e segura. Enquanto isso não acontecer, continuaremos sendo vítimas de um sistema que parece ter sido criado para roubar, e não para servir.

 

Confira o vídeo abaixo:

 

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