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Pacientes com câncer são vítimas de esquema de falsificação de remédios e fraude em licitações

Investigações apontam atuação de empresários, profissionais da saúde e advogados em diferentes estados; no Paraná, caso envolvendo menina de Cascavel terminou com condenação de dois empresários

Por Repórter Gazeta do Paraná

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Pacientes com câncer são vítimas de esquema de falsificação de remédios e fraude em licitações Créditos: Divulgação

Pacientes em tratamento contra o câncer estão entre as vítimas de esquemas investigados pela polícia em diferentes estados brasileiros. As apurações apontam suspeitas de falsificação e adulteração de medicamentos, superfaturamento, fraude em licitações e desvio de recursos públicos destinados ao tratamento de pessoas com doenças graves.

No Rio Grande do Sul, a Operação Placebo investiga empresários, profissionais da saúde e advogados suspeitos de participar de um esquema envolvendo a compra de medicamentos para pacientes oncológicos. Em junho, a Polícia Civil cumpriu 56 mandados de busca e apreensão em imóveis ligados aos investigados.

Um dos principais alvos, o empresário Lisandro Henrique Hermes, foi preso em flagrante. Na residência dele, segundo a investigação, foram encontradas caixas de medicamentos com indícios de adulteração. A defesa do empresário nega envolvimento nos crimes.

A investigação começou depois que funcionários do setor de oncologia da Santa Casa de Caridade de São Gabriel, no interior gaúcho, desconfiaram de um lote de medicamentos. Segundo a polícia, havia indícios de falsificação em embalagens, caixas e bulas, incluindo diferenças de grafia, coloração, textura e idiomas.

O lote foi retirado de circulação e encaminhado para perícia.
Pacientes ficaram sem tratamento
Entre os casos investigados no Rio Grande do Sul estão pacientes que receberam medicamentos por meio de decisões judiciais. Segundo a investigação, um médico identificava pacientes que precisavam de medicamentos não disponibilizados pelo SUS e os encaminhava para ações judiciais destinadas a obrigar o Estado a custear os tratamentos.

Ainda de acordo com as investigações, os pacientes também eram direcionados a determinados advogados. Os profissionais ingressavam com as ações judiciais e, depois da liberação dos recursos, empresas ligadas aos investigados apresentavam orçamentos para o fornecimento dos medicamentos.
A suspeita é de que parte das farmácias que participavam das cotações tivesse ligação direta ou indireta com o empresário investigado.

O esquema, segundo a polícia, poderia gerar lucro tanto com a venda dos medicamentos quanto com possíveis fraudes nos processos de aquisição.

Caso Yasmin, em Cascavel
No Paraná, um caso ocorrido em Cascavel apresenta semelhanças com o mecanismo investigado no Rio Grande do Sul: o uso de recursos públicos destinados ao tratamento de uma criança com câncer.

A menina Yasmin Aparecida Campos de Amorim, diagnosticada com neuroblastoma, um tipo agressivo de câncer, precisava do medicamento Danyelza. Como o remédio não estava disponível pelo SUS, a família recorreu à Justiça para garantir o tratamento.

Em 2024, o Governo do Paraná foi obrigado judicialmente a custear a medicação. Cerca de R$ 2,4 milhões foram destinados à aquisição do medicamento, mas a compra não ocorreu conforme determinado. A Polícia Civil deflagrou a Operação Jasmim para investigar o desvio dos recursos.
Segundo a investigação, a menina recebeu apenas parte da medicação. A operação resultou em mandados de busca e apreensão e prisões de suspeitos ligados às empresas envolvidas.

O caso avançou na Justiça. Em fevereiro de 2026, dois empresários, Lisandro Henrique Hermes e Polion Gomes Reinaux, foram condenados por estelionato. As penas somaram 4 anos, 9 meses e 5 dias de prisão, em regime inicialmente fechado. Um terceiro denunciado foi absolvido.

A sentença apontou que a fraude atrasou o tratamento de Yasmin e agravou o sofrimento da criança. O caso também passou a integrar o conjunto de investigações sobre desvios relacionados ao fornecimento de medicamentos de alto custo.

Fraudes em diferentes estados
Além do Paraná e do Rio Grande do Sul, investigações citadas no caso apontam suspeitas de irregularidades envolvendo medicamentos em outros estados.
No Mato Grosso do Sul, a Defensoria Pública identificou pedidos judiciais utilizados para a compra de medicamentos importados por valores muito inferiores aos praticados no mercado. Segundo a investigação, alguns produtos não tinham registro na Anvisa e poderiam não corresponder aos medicamentos determinados nas decisões judiciais.

Também há investigação sobre a participação de funcionários públicos e empresários em possíveis esquemas de superfaturamento.

No Ceará, uma distribuidora que teria fornecido medicamentos para pacientes em tratamento contra o câncer também foi alvo de investigação policial.

Risco além do prejuízo financeiro
As investigações chamam atenção não apenas para o possível prejuízo aos cofres públicos, mas também para o risco direto aos pacientes.

No caso dos medicamentos suspeitos de adulteração, a origem e a composição dos produtos são questionadas. Para pessoas submetidas a tratamentos oncológicos, a interrupção da terapia ou a utilização de um produto sem garantia de procedência pode trazer consequências graves.

No Rio Grande do Sul, a polícia ainda aguardava os resultados das perícias nos medicamentos apreendidos durante a Operação Placebo.

Os casos seguem em diferentes estágios de investigação e tramitação judicial. As suspeitas atribuídas aos investigados não significam, por si só, condenação, com exceção dos envolvidos no caso de Cascavel que já foram julgados e condenados pela Justiça do Paraná.

Foto: Divulgação 

Créditos: Fantástico - TV Globo Acesse nosso canal no WhatsApp