Operação Ouranós: quase três anos depois, vítimas de esquema bilionário seguem sem respostas
Investidores que confiaram na Sbaraini Administradora de Capitais ainda enfrentam as consequências do bloqueio judicial das contas, sem respostas concretas sobre a devolução dos valores
Por Da Redação
Créditos: PF
Revelado em 2023, o caso da Operação Ouranós expôs um dos maiores esquemas de pirâmide financeira envolvendo criptoativos no país, deixando um rastro de prejuízos que ultrapassa R$ 1 bilhão e atinge milhares de investidores. Passados quase três anos desde o bloqueio das contas da Sbaraini Administradora de Capitais, as vítimas seguem sem acesso aos recursos aplicados e sem perspectiva concreta de ressarcimento.
A investigação da Polícia Federal apontou que a organização atuava de forma irregular, sem autorização do Banco Central ou da Comissão de Valores Mobiliários, simulando a operação de uma distribuidora de títulos e valores mobiliários. A empresa oferecia contratos de investimento coletivo baseados em uma suposta arbitragem de criptomoedas, prometendo rendimentos fixos e variáveis, prática vedada sem registro nos órgãos competentes.
De acordo com os investigadores, os valores captados eram pulverizados por meio de um sofisticado esquema de “centrifugação de dinheiro”, com uso de múltiplas contas de passagem e empresas interpostas. A estratégia tinha como objetivo dificultar o rastreamento dos recursos e promover uma espécie de blindagem patrimonial, esvaziando o caixa da instituição clandestina.
As apurações, iniciadas ainda em 2020, indicam que o esquema teve origem em Balneário Camboriú, expandindo-se posteriormente para Curitiba e, na sequência, para São Paulo. Além dos crimes contra o sistema financeiro nacional, a investigação também identificou indícios de lavagem de dinheiro e possíveis conexões com recursos oriundos de atividades ilícitas, como tráfico de drogas e fraudes fiscais.
Com o bloqueio judicial das contas, no entanto, os investidores ficaram impossibilitados de acessar os valores aplicados. Desde então, muitos relatam um cenário de colapso financeiro e emocional. Na página da Associação das Vítimas da Sbaraini, relatos anônimos ou identificados apenas pelo primeiro nome revelam o impacto profundo da perda.
Uma vítima, de Barretos (SP), afirma que investiu seu patrimônio pessoal para abrir uma empresa e utilizava os rendimentos como pró-labore. Com o bloqueio, acumulou dívidas, enfrentou ordem de despejo e precisou voltar ao regime CLT. “O impacto não foi apenas financeiro”, relata. Em 2026, ela foi diagnosticada com vitiligo emocional, associado ao esgotamento.
Uma família de Contagem (MG) relata ter vendido o apartamento após perder a reserva construída ao longo de anos. Segundo o depoimento, todos os membros estão em tratamento para depressão e ansiedade. Já outra vítima, de Joinville (SC), descreve consequências em cadeia: endividamento generalizado, crise familiar e impacto sobre idosos que também foram incentivados a investir.
"Estamos todos à base de remédios para ansiedade e depressão, além de enfrentarmos crises no casamento. Nunca mais fui a mesma pessoa. Além do investimento da minha família, apresentei a Sbaraini a amigos idosos que venderam seus apartamentos e colocaram tudo nesse investimento. Eles tiveram que voltar a trabalhar, mesmo com a idade avançada, e isso me arrebentou emocionalmente. Financeiramente, fomos 'abaixo de zero'. A família toda caiu. Meu filho ficou sem carro, com filhos pequenos e o casamento em crise; ele acumulou dívidas, pois estava construindo sua casa. Estamos todos no SPC", diz a vítima em seu depoimento.
No Paraná, um dentista de Colorado afirma ter perdido o valor obtido com a venda da própria casa.
“O montante era fruto da venda da minha única casa e seria destinado à construção do meu novo lar. Por confiar no assessor da empresa, que era meu amigo, aceitei a sugestão de aplicar o dinheiro por seis meses antes de iniciar a obra. O resultado foi catastrófico: perdi meu patrimônio, meu casamento e o convívio diário com a minha filhinha, a quem tanto amo, pois minha esposa me deixou diante dessa crise”, afirma.
O abalo emocional, segundo ele, provocou tremores que o impediram de continuar exercendo a profissão. Hoje, vive afastado do trabalho e depende de familiares.
“Sou dentista, mas o abalo emocional afetou meu sistema nervoso de tal forma que sofro com tremores e não consigo trabalhar. Hoje, estou afastado da profissão e morando nos fundos da casa do meu irmão”, explicou.
Outros relatos mencionam situações ainda mais delicadas, como o de uma investidora de São Bernardo do Campo (SP), que aponta que o dinheiro bloqueado seria utilizado no tratamento de saúde do pai, um idoso com doença grave. “Cada dia de espera representa dor e sofrimento”, afirma.
Há ainda casos de aposentados que aplicaram economias de décadas de trabalho e hoje enfrentam dificuldades básicas. Em comum, os depoimentos destacam a confiança depositada em assessores e na imagem de segurança transmitida pela empresa.
Até o momento, não há informações oficiais sobre eventual devolução dos valores. O processo segue em tramitação na Justiça, sem definição sobre prazos ou mecanismos de ressarcimento.
A Gazeta do Paraná acompanha o caso desde a sua revelação e continua buscando esclarecimentos junto às autoridades e envolvidos. Novos desdobramentos devem ser apresentados nas próximas semanas, enquanto milhares de investidores aguardam uma resposta para prejuízos que, em muitos casos, mudaram suas vidas de forma irreversível.
Tentamos contato com a empresa para que se posicionasse com a sua versão dos fatos, mas não há nenhum rastro de possíveis contatos. O único e-mail disponível encontrado pela reportagem, é o referente ao departamento financeiro da Sbaraini, onde uma solicitação de nota foi enviada e ainda não foi respondida. O telefone que é disponibilizado, já não recebe ligações, possivelmente por encerramento da linha. O contato da assessoria que atendia na época da deflagração da Operação Ouranós, já não existe mais, e o número está em posse de outra pessoa. A Gazeta do Paraná segue aberta para os esclarecimentos da empresa.
Durante os próximos dias, a Gazeta do Paraná trará novos desdobramentos a respeito do caso.
