Curitiba
Antonio Carlos Kakay Antonio Carlos Kakay Antonio Carlos Kakay Cidinha Marcon Cidinha Marcon Cidinha Marcon Julia Maraschi Julia Maraschi Julia Maraschi Marcos Formighieri Marcos Formighieri Marcos Formighieri Oswaldo Eustáquio Oswaldo Eustáquio Oswaldo Eustáquio Roberto Veloso Roberto Veloso Roberto Veloso Sergio Ricardo Sergio Ricardo Sergio Ricardo

MPPR e Defensoria alertam: projeto que proíbe doação de alimentos pode agravar fome em Londrina

Instituições apontam inconstitucionalidades, conflito com leis vigentes e risco de agravamento da insegurança alimentar entre cerca de 900 pessoas em situação de rua no município

Repórter Gazeta do Paraná · · 4 min de leitura
MP rejeita projeto de lei de doação de alimentos
MP rejeita projeto de lei de doação de alimentos — Crédito: Divulgação

🎧 Ouça esta matéria — narrado por IA

O Ministério Público do Paraná (MPPR) e a Defensoria Pública do Paraná recomendaram à Câmara Municipal de Londrina a rejeição do Projeto de Lei 92/2024, que pretende proibir a entrega e a doação de alimentos, prontos para consumo ou não, em vias públicas, praças e demais espaços públicos da cidade.

A manifestação foi encaminhada aos vereadores por meio do Ofício 378/2026, assinado pela 24ª Promotoria de Justiça de Londrina e pelo Núcleo da Cidadania e Direitos Humanos (Nucidh) da Defensoria Pública. Para as instituições, a proposta apresenta problemas constitucionais e legais e pode agravar o cenário de fome e vulnerabilidade social enfrentado pela população em situação de rua.

O projeto também prevê que a Secretaria Municipal de Assistência Social passe a organizar locais específicos para a distribuição de alimentos, com definição de dias e horários. Na avaliação do MPPR e da Defensoria, essa previsão invade atribuições próprias do Executivo municipal, caracterizando vício formal de iniciativa.

DIREITO À ALIMENTAÇÃO

Além do problema de iniciativa, as instituições apontam possíveis inconstitucionalidades no conteúdo da proposta. Entre elas está a violação ao direito humano à alimentação adequada.

O documento também alerta para uma possível restrição indireta à liberdade religiosa, uma vez que a distribuição de alimentos e a ajuda a pessoas em situação de vulnerabilidade fazem parte das práticas de diversas comunidades religiosas que atuam no município.

Outro argumento apresentado é que a proibição ampla da distribuição de alimentos entraria em conflito com normas já existentes.

Segundo o MPPR e a Defensoria, o projeto não estaria de acordo com a Lei Federal 15.224/2025, que instituiu a Política Nacional de Combate à Perda e ao Desperdício de Alimentos e incentiva ações de doação. A proposta também seria incompatível com a Lei Municipal 12.700/2018, que estabelece a Política Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional.

As instituições citam ainda a decisão do Supremo Tribunal Federal na ADPF 976, que reconheceu a existência de um estado de coisas inconstitucional relacionado à população em situação de rua e determinou a adoção de medidas para superar barreiras ao acesso a serviços e políticas públicas essenciais.

FALTA DE ESTRUTURA

Outro ponto destacado no documento é a situação da assistência social em Londrina.

O MPPR e a Defensoria apontam que o município enfrenta um déficit de atendimento desde a extinção, em novembro de 2025, do Programa Nova Trilha, que realizava a distribuição diária de refeições e itens de higiene.

Segundo as instituições, a própria Secretaria Municipal de Assistência Social reconheceu, em procedimento administrativo, não possuir estrutura pública equivalente para substituir integralmente os atendimentos oferecidos pelo programa.

Nesse cenário, a proibição da distribuição voluntária de alimentos por entidades, grupos religiosos e outros integrantes da sociedade civil poderia reduzir ainda mais as alternativas de acesso à alimentação.

A estimativa apresentada no documento é de que cerca de 900 pessoas vivam atualmente em situação de rua em Londrina.

Para o MPPR e a Defensoria, impedir a atuação solidária da sociedade civil sem oferecer uma estrutura pública suficiente representaria um retrocesso na garantia de direitos sociais e poderia ampliar a insegurança alimentar.

PROJETO ESTÁ EM ANÁLISE

A recomendação foi encaminhada aos vereadores para que considerem os argumentos jurídicos e sociais antes da votação do projeto.

As instituições defendem que o município desenvolva políticas públicas capazes de garantir alimentação, assistência social e acesso aos serviços básicos para a população em situação de rua, em vez de criar obstáculos à atuação de entidades e cidadãos que realizam doações.

O MPPR e a Defensoria ressaltam que a situação exige políticas públicas estruturadas e coordenadas pelo poder público, mas avaliam que isso não deve ocorrer à custa da restrição de iniciativas de solidariedade que hoje ajudam a atender pessoas em situação de vulnerabilidade.

A recomendação não impede a tramitação do projeto na Câmara, mas coloca sob análise dos vereadores os possíveis conflitos da proposta com a Constituição, leis federais e municipais e decisões do Supremo Tribunal Federal.

Foto: Divulgação 

Compartilhar: f X W T

Comentários (0)

  • Seja o primeiro a comentar.