Moro amplia discurso sobre impostos, saúde e Lava Jato; Gazeta checa principais declarações da campanha
Senador e candidato ao governo do Paraná apresentou, nos últimos dias, números sobre emendas, propostas para as 22 Regionais de Saúde, críticas à carga tributária e afirmações sobre a Lava Jato
Por Ana Zimermann
Créditos: Senado Federal
A campanha de Sergio Moro (PL) ao governo do Paraná passou, nos últimos dias, a concentrar sua comunicação em temas como: redução de impostos, descentralização da saúde, segurança pública e combate à corrupção. Em entrevistas, agendas e redes sociais, o candidato também apresentou números sobre sua atuação no Senado e fez afirmações relacionadas aos efeitos da Operação Lava Jato. A Gazeta do Paraná selecionou as declarações com maior potencial de verificação objetiva e confrontou os dados com informações de órgãos públicos e bases oficiais.
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Moro afirma que destinou mais de R$ 288 milhões em emendas parlamentares para o Paraná.
Classificação: ENGANOSA
A afirmação exige uma distinção entre diferentes etapas da execução orçamentária. Levantamento realizado a partir dos dados do Siga Brasil, do Senado Federal, apontou que as emendas de autoria de Moro destinadas ao Paraná somavam R$ 212,2 milhões em valores autorizados entre 2024 e 2026, considerando os dados disponíveis até 2 de setembro. Quando considerados apenas os recursos efetivamente pagos, o montante era de aproximadamente R$ 166,3 milhões. Portanto, o valor de R$ 288 milhões não corresponde aos valores autorizados ou pagos encontrados nessa base para o período analisado. O próprio Senado disponibiliza o Siga Brasil para consulta pública da execução orçamentária e das emendas parlamentares.
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Moro afirmou que pretende transformar o Paraná em “uma espécie de Texas dos Estados Unidos”, associando a proposta a uma das menores cargas tributárias do país.
Classificação: PARCIALMENTE SUSTENTADA
Existe um dado oficial que ajuda a explicar a afirmação, mas ele é mais específico do que a declaração sugere. A Secretaria da Fazenda do Paraná informou, em 2025, que o Estado tinha a menor carga tributária do Brasil para pequenas empresas enquadradas no Simples Nacional, considerando a alíquota efetiva média de ICMS. Segundo o governo estadual, essa alíquota era de 2,39%, abaixo da média nacional de 2,81%.
O problema está em transformar esse indicador específico em uma afirmação geral sobre a carga tributária do Paraná. O dado utilizado pela Sefa refere-se ao ICMS de empresas do Simples Nacional. Não significa que o Paraná tenha, de maneira geral, a menor ou uma das menores cargas tributárias entre todos os estados quando considerados todos os tributos, empresas, consumidores e bases de arrecadação.
Também é importante lembrar que a carga tributária calculada pelo Tesouro Nacional é um conceito mais amplo. Em 2025, a carga tributária bruta do governo geral brasileiro — União, estados e municípios — correspondeu a 32,40% do PIB. Assim, a existência de uma tributação relativamente baixa em um regime específico não comprova, por si só, a afirmação de que o Paraná possui uma das menores cargas tributárias gerais do país.
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Moro promete criar centros de especialidades e policlínicas nas 22 Regionais de Saúde do Paraná e ampliar a telemedicina.
Classificação: DADO CORRETO + PROPOSTA DE CAMPANHA
O Paraná possui oficialmente 22 Regionais de Saúde, distribuídas em quatro macrorregionais. Nesse ponto, o número utilizado pelo candidato está correto. A proposta de instalar ou ampliar estruturas de atendimento especializado em todas essas regiões, porém, não pode ser tratada como um dado já realizado: trata-se de uma promessa de campanha.
Além disso, o Paraná já possui uma estrutura regionalizada de atendimento especializado. Segundo a Secretaria Estadual da Saúde, o Estado conta com 13 Ambulatórios Médicos de Especialidades (AMEs). Outra página da própria Sesa informa que existem 21 regiões com ambulatórios especializados regionais gerenciados por consórcios, envolvendo 26 AMEs.
Em março de 2026, o governo estadual também anunciou novas policlínicas em Cascavel e Foz do Iguaçu, integradas à estratégia de ampliação do atendimento especializado. Portanto, a proposta de Moro não parte de uma ausência completa de estrutura regional. O que precisará ser detalhado pela campanha é quantas novas unidades seriam construídas, quanto custariam, quais serviços ofereceriam e como seriam financiadas.
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Moro utilizou números da Defesa Civil para defender ações estruturais de prevenção a enchentes.
Classificação: VERDADEIRA (PARA O RECORTE ANALISADO)
Os números divulgados pelo candidato são compatíveis com o boletim da Defesa Civil do Paraná divulgado em 14 de setembro. Naquele momento, os temporais haviam afetado 21.107 pessoas em 71 municípios. O balanço registrava ainda 2.128 desalojados, 395 desabrigados, 2.867 casas danificadas, uma residência destruída e três mortes.
A ressalva é temporal: os números da Defesa Civil mudam conforme novos municípios são atingidos, ocorrências são registradas e equipes atualizam os levantamentos. Por isso, o número precisa sempre ser acompanhado da data do boletim utilizado.
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Moro afirmou que “o escândalo do Master e o roubo dos aposentados do INSS não teria acontecido se a Lava Jato tivesse sido preservada”.
Classificação: NÃO COMPROVÁVEL
A primeira parte da declaração — a existência de investigações e escândalos envolvendo Banco Master e descontos indevidos em benefícios previdenciários — pode ser confrontada com os processos e investigações correspondentes. Já a afirmação de que esses episódios não teriam acontecido caso a Lava Jato tivesse sido mantida não é passível de comprovação factual. Trata-se de uma relação de causa e efeito sobre um cenário hipotético. Não há como observar simultaneamente o que ocorreu na realidade e o que teria acontecido em uma realidade alternativa na qual a operação tivesse seguido outro curso.
Há, contudo, fatos posteriores à Lava Jato que podem ser documentados. Em agosto de 2026, por exemplo, o Conselho Nacional de Justiça aplicou pena de disponibilidade por 60 dias a dois desembargadores do TRF-4 em processo administrativo relacionado à atuação deles em julgamento envolvendo a operação. Isso demonstra que a Lava Jato continua produzindo consequências institucionais e judiciais, mas não comprova a relação causal afirmada por Moro entre o encerramento ou enfraquecimento da operação e os casos atuais.
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Moro afirmou que, como governador, terá responsabilidade na escolha de desembargadores do Tribunal de Justiça do Paraná e que pretende priorizar magistrados de “integridade indisputável” e com perfil rigoroso no combate ao crime.
Classificação: PARCIALMENTE VERIFICÁVEL
A existência da atribuição constitucional do governador no processo de composição de tribunais pode ser verificada objetivamente, mas a declaração de Moro envolve também uma intenção de governo: escolher nomes que atendam a determinados critérios. Por isso, a parte factual e institucional deve ser separada da promessa política. A campanha também precisa especificar como pretende aplicar os critérios anunciados, especialmente porque a escolha de integrantes dos tribunais segue procedimentos constitucionais e legais que não dependem exclusivamente da vontade pessoal do governador.
O que as checagens mostram
As declarações recentes de Sergio Moro misturam três tipos diferentes de informação. A primeira são afirmações numéricas, como o valor de emendas e os dados das enchentes, que podem ser confrontadas diretamente com bases públicas. A segunda são descrições de situações existentes, como o número de Regionais de Saúde e a estrutura de atendimento especializado do Paraná. A terceira são promessas e interpretações políticas, como a transformação do Estado em uma “espécie de Texas” ou a relação causal estabelecida pelo candidato entre a Lava Jato e escândalos posteriores.
Nos casos em que há números, a principal diferença encontrada pela checagem está nas emendas parlamentares. Já nas demais declarações, a precisão depende principalmente do contexto e do período utilizado. Para o eleitor, a distinção é relevante: uma coisa é um dado oficial que pode ser confirmado; outra é uma proposta para o próximo governo; e outra, ainda, é uma interpretação sobre acontecimentos políticos passados ou sobre o que poderia ter ocorrido em um cenário diferente.
Créditos: Ana Zimermann
