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Itapema fará engorda por R$ 60 milhões; Matinhos custou mais de R$ 300 milhões e já virou alvo de questionamentos

Obra catarinense prevê 416 mil m³ de areia em 4,75 km; no Paraná, projeto anunciado como solução definitiva consumiu R$ 314,9 milhões, depositou 3 milhões de m³ e hoje enfrenta erosão, medições contestadas e apuração no MP-PR

Por Gazeta do Paraná

Itapema fará engorda por R$ 60 milhões; Matinhos custou mais de R$ 300 milhões e já virou alvo de questionamentos Créditos: Reprodução

A comparação entre a futura obra de alargamento da faixa de areia em Itapema, no litoral de Santa Catarina, e a já executada engorda da praia de Matinhos, no Paraná, escancara uma pergunta incômoda: quanto custa, de fato, empurrar o mar para trás, e por quanto tempo?

Em Itapema, a obra da Meia Praia recebeu Licença Ambiental de Instalação em maio de 2026. Segundo o Instituto do Meio Ambiente de Santa Catarina, a intervenção prevê quatro meses de execução, 4,75 quilômetros de extensão, uso de cerca de 416 mil metros cúbicos de sedimentos e acréscimo médio de 20 metros na largura da praia. O investimento divulgado é de aproximadamente R$ 60 milhões, dividido entre a Prefeitura e o governo catarinense.  

Em Matinhos, a conta foi de outra ordem. O Governo do Paraná anunciou, em outubro de 2022, a conclusão da engorda como parte do Projeto de Recuperação da Orla, com investimento total de R$ 314,9 milhões. A faixa de areia foi alargada em até 100 metros, em 6,3 quilômetros, com depósito de 3 milhões de metros cúbicos de areia retirados do fundo do mar.  

Mesmo considerando que o pacote paranaense incluiu outras intervenções urbanas, como drenagem, calçadão, ciclovias, iluminação e estruturas marítimas, o contraste chama atenção. Reportagem do JB Litoral aponta que apenas a etapa de extração e deposição da areia custou R$ 120 milhões, o equivalente a 39% do projeto de requalificação. Ainda assim, três anos depois, medições feitas pelo veículo indicaram que um trecho da Praia Brava voltou a ter largura semelhante à registrada antes da engorda.  

O caso paranaense é ainda mais sensível porque a obra passou a ser questionada não apenas pelo preço, mas pelo resultado. Em janeiro de 2026, a Gazeta do Paraná mostrou que a engorda de Matinhos entrou no radar do Ministério Público do Paraná após denúncias de falhas técnicas, possíveis danos ambientais, erosão e sacos de areia arrastados para dentro do mar.  

A matemática é simples, mas politicamente explosiva. Em Itapema, a previsão é aplicar 416 mil m³ de sedimentos em 4,75 km por cerca de R$ 60 milhões. Em Matinhos, o Estado anunciou 3 milhões de m³ em 6,3 km dentro de um pacote de R$ 314,9 milhões. Se considerada apenas a etapa de engorda citada pelo JB Litoral, Matinhos teria gasto R$ 120 milhões para dragagem e deposição de areia, o dobro do valor estimado para a obra catarinense.

A diferença de escala existe. Matinhos recebeu volume muito maior de areia e teve alargamento anunciado de até 100 metros, enquanto Itapema prevê acréscimo médio de 20 metros. Mas a comparação levanta outra questão: se a obra paranaense foi mais robusta, mais cara e mais ambiciosa, por que já exige explicações sobre erosão, manutenção e efetividade?

O próprio TCE-PR cobrou, ainda em 2023, esclarecimentos sobre a vida útil da engorda, manutenção da faixa de areia, levantamentos técnicos e a inversão de etapas da obra, já que a engorda teria sido executada antes da conclusão dos espigões, ao contrário do cronograma inicial. Segundo o JB Litoral, documentos posteriores apontaram uma estimativa de vida útil de 14,82 anos, mas a realidade observada na praia reacendeu a controvérsia.  

Enquanto Santa Catarina vende a obra de Itapema como proteção costeira, valorização urbana e reforço turístico, o Paraná convive com o desgaste de uma vitrine que custou caro e hoje precisa ser defendida diante de imagens de degraus de areia, ressacas e questionamentos técnicos.

O ponto central não é negar a importância de obras costeiras. O avanço do mar é real, a erosão afeta cidades litorâneas e intervenções desse tipo podem ser necessárias. O problema está na diferença entre promessa e entrega. Em Matinhos, a obra foi apresentada como solução moderna para um problema histórico. Pouco tempo depois, virou caso de controle público.

A experiência paranaense deveria servir de alerta para Itapema. Alargar praia rende foto, discurso, valorização imobiliária e manchete otimista. Mas o mar cobra manutenção, engenharia séria, transparência contratual e monitoramento permanente.

No Paraná, a pergunta que fica é outra: a praia engordou ou quem engordou foi a conta pública?

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp