Filipe Barros aposta na união da direita, critica governo Ratinho e exibe documentos sobre caso Banco Master
Em entrevista à Gazeta do Paraná, pré-candidato ao Senado defende aliança com Sérgio Moro e Deltan Dallagnol, admite conversas com Álvaro Dias e apresenta documentos que mostram ter acionado órgãos de controle sobre a REAG antes da explosão do escândalo financeiro
Por Gazeta do Paraná
Créditos: GCast
Há poucos meses, seria difícil imaginar o deputado federal Filipe Barros (PL) ocupando posição tão central na reorganização da direita paranaense. O PL governava ao lado de Ratinho Júnior, o senador Sérgio Moro ainda buscava seu espaço político e a disputa pelo Senado permanecia aberta, com nomes tradicionais, como o do ex-senador Álvaro Dias, ainda no radar.
Agora, o cenário é outro. Em entrevista de quase uma hora ao GCast, da Gazeta do Paraná, Barros se apresentou como peça de uma engrenagem que pretende redesenhar o mapa político do estado em 2026: uma chapa formada por Sérgio Moro ao Governo do Paraná e por ele e Deltan Dallagnol ao Senado.
“Nós fizemos a verdadeira união da centro-direita no estado do Paraná”, afirmou.
A frase, repetida em diferentes momentos da entrevista, ajuda a compreender a estratégia do grupo: convencer o eleitor de que, pela primeira vez em muitos anos, a direita paranaense conseguiu construir um projeto unificado.
“Quem votar em Felipe, vote em Deltan. Quem votar no Deltan, vote em Felipe.”
Segundo o parlamentar, o Paraná tem uma oportunidade histórica de renovar sua representação no Senado.
“O Paraná merece dois senadores que sejam corajosos, alinhados e que tenham coragem para enfrentar o sistema que está lá em Brasília.”
O rompimento com Ratinho
A construção dessa nova aliança política, porém, passou necessariamente pelo distanciamento entre o PL e o governador Ratinho Júnior.
Embora tenha dito que o partido foi “o maior parceiro” do governo estadual ao longo dos últimos oito anos, Barros afirmou que a relação começou a mudar quando Ratinho decidiu lançar-se pré-candidato à Presidência da República.
Segundo ele, a decisão levou o PL a construir um palanque para o presidenciável Flávio Bolsonaro no Paraná, o que acabou culminando na filiação de Sérgio Moro ao partido.
“O Paraná é um estado importante, tem oito milhões de eleitores e nós não poderíamos deixar o Flávio Bolsonaro sem um palanque aqui.”
O deputado afirmou que, a partir da filiação de Moro, o tratamento dispensado ao partido pelo Palácio Iguaçu mudou radicalmente.
“Cancelaram convênios dos deputados. E quando a gente fala em cancelar convênios dos deputados, isso não prejudica o parlamentar, prejudica a população daquela cidade.”
A declaração ajuda a explicar o novo comportamento do bloco formado por PL e Novo na Assembleia Legislativa do Paraná, que nas últimas semanas transformou a discussão sobre os convênios estaduais em uma das principais frentes de desgaste do governo Ratinho.
Barros nega que o grupo seja de oposição. “É um bloco independente.” Mas o discurso adotado na entrevista deixa claro que a relação está longe da parceria que marcou grande parte do segundo mandato do governador.
Apesar das críticas, o deputado não fechou as portas para uma eventual recomposição política. “Até as convenções muita coisa ainda pode acontecer.”
A preocupação com a pulverização
Outro tema central da entrevista foi a disputa pelas duas vagas ao Senado.
Questionado sobre o desempenho do ex-senador Álvaro Dias nas pesquisas eleitorais, Barros confirmou que mantém conversas frequentes com o ex-parlamentar e admitiu preocupação com uma eventual fragmentação do campo conservador. “Não faz sentido nenhum nós não estarmos juntos de alguma maneira.”
Segundo ele, o maior risco para a direita é justamente a pulverização de candidaturas. “Essa é a estratégia do PT. Dividir as candidaturas de centro-direita para que a esquerda consiga chegar ao Senado.”
Barros revelou que, inclusive, se reuniu recentemente com Álvaro Dias, o senador Rogério Marinho e Flávio Bolsonaro em Brasília. “Eu espero que todos nós estejamos juntos até o período das convenções.”
O caso Banco Master
Se a reorganização da direita e a disputa pelo Senado ocupam o centro da estratégia política de Filipe Barros, há um tema que o deputado sabe que continuará sendo levantado durante a campanha: o Banco Master.
O parlamentar foi questionado sobre o projeto de lei apresentado no fim de 2024 que ampliava de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), proposta que acabou aproximando seu nome das discussões em torno do banco.
A resposta foi uma das mais longas da entrevista. “Nunca estive com Daniel Vorcaro, nunca tive repasse financeiro dele, nunca tive negócio com ele, nem eu, nem minha família, nem nenhum assessor meu.”
Para sustentar sua versão, Barros apresentou à Gazeta do Paraná uma série de documentos protocolados em 30 de dezembro de 2024.
Os ofícios foram encaminhados à Polícia Federal, à Procuradoria-Geral da República, à Comissão de Valores Mobiliários, à Receita Federal, ao Tribunal de Contas da União e à Controladoria-Geral da União, solicitando investigações sobre a atuação da REAG Investimentos em operações envolvendo créditos de carbono e terras públicas da União. “Eu fui o primeiro que denunciou o Daniel Vorcaro e a REAG.”
Os documentos demonstram que o parlamentar efetivamente provocou diversos órgãos de controle meses antes de o escândalo do Banco Master ganhar dimensão nacional.
As representações tratam de possíveis irregularidades financeiras, lavagem de dinheiro, movimentações internacionais suspeitas e danos ao patrimônio público.
Embora a documentação não permita afirmar, por si só, que as representações deram origem às operações policiais posteriores, a cronologia dos fatos mostra que as denúncias de Barros antecedem a Operação Carbono Oculto, investigação que mais tarde alcançaria o Banco Master.
O deputado, porém, foi além e reafirmou sua convicção de que o projeto do FGC continua sendo correto.
“O cidadão não pode perder o dinheiro que guardou a vida inteira porque o dono do banco cometeu crimes. O meu projeto pensava no cidadão, não nos banqueiros.”
Apesar disso, admitiu ter retirado a proposta de tramitação diante da repercussão provocada pelo caso. “Quero reapresentá-lo depois que essa turbulência passar para não acharem que estou tentando defender o Banco Master.”
“O senador mais corajoso”
Ao fim da entrevista, Filipe Barros foi provocado a resumir em uma palavra como gostaria de ser conhecido caso seja eleito senador.
Após alguns segundos de reflexão, respondeu: “O senador mais corajoso da história do Paraná.”
A frase talvez sintetize o momento político vivido pelo parlamentar. Aos 35 anos, Filipe Barros tenta se apresentar simultaneamente como o nome da unificação da direita paranaense, o crítico de um governo que até pouco tempo era aliado e o deputado que afirma ter levado a REAG ao radar dos órgãos de controle antes da explosão de um dos maiores escândalos financeiros e políticos do país.
Se conseguirá convencer o eleitor de todas essas versões ao mesmo tempo, será uma das respostas mais importantes que as urnas paranaenses darão em 2026.
Créditos: Redação
