Romance de professor da Unioeste reconstitui 70 anos de São Paulo pela trajetória de uma mulher em situação de rua
Casa Nazaré, de Acir Dias da Silva, encerra a Trilogia da Presença e será lançado em 24 de setembro, na Biblioteca da Unioeste, em Cascavel
Créditos: Divulgação
O escritor e professor da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), Acir Dias da Silva, lança no dia 24 de setembro o romance Casa Nazaré, terceiro e último volume da Trilogia da Presença. O lançamento será realizado às 19h30, na Biblioteca da Unioeste, em Cascavel, com entrada gratuita e sessão de autógrafos.
A obra acompanha a trajetória de Carolina dos Santos Silva, personagem que atravessa 73 anos vivendo nas ruas de São Paulo. A história começa em 1950, quando Carolina, aos nove anos, acorda sobre as pedras da Praça da Sé sem saber como chegou ao local. Aos 59 anos, passa a registrar em cadernos os nomes de pessoas que morrem no centro da capital e desaparecem dos registros. Aos 82, recebe a chave de um apartamento e experimenta, pela primeira vez, a condição de ter um endereço.
Com 288 páginas, Casa Nazaré é dividido em três partes, ambientadas em São Paulo nos anos de 1950, 1999-2001 e 2023. O romance utiliza um edifício do centro da capital como eixo da narrativa, acompanhando as transformações da cidade ao longo de sete décadas.
A protagonista é sonâmbula desde a infância e carrega uma cicatriz nas costas que guarda uma pista sobre sua origem. Ao longo da vida, Carolina desenvolve o hábito de bordar nomes em linha vermelha, transformando o próprio corpo e os objetos ao seu redor em uma espécie de arquivo da memória.
LITERATURA NASCEU DE PESQUISA DE CAMPO
O romance é resultado de três anos de pesquisa de campo realizada por Acir Dias da Silva durante seu pós-doutorado, com foco na população em situação de rua.
Nesse período, o autor acompanhou resgates na região da Cracolândia ao lado da Missão Belém, caminhou com os franciscanos da Toca de Assis, conviveu com a comunidade do Belenzinho ligada ao padre Júlio Lancellotti e acompanhou a rotina da Casa Guadalupe, espaço destinado a pessoas que envelheceram sem moradia.
A experiência serviu como base para uma obra que procura transformar relatos, memórias e experiências de pessoas em situação de vulnerabilidade em literatura.
“Antes de ser literatura, esse livro foi escuta. Eu comecei querendo entender como alguém sobrevive à rua. Termino sabendo que a pergunta era outra: como nós conseguimos passar por essas pessoas sem vê-las”, afirma o autor.
CRIME REAL É INCORPORADO À NARRATIVA
Um dos episódios centrais do romance parte de um crime real ocorrido em agosto de 2004, quando sete pessoas que dormiam na região da Praça da Sé, em São Paulo, foram assassinadas durante a noite.
No livro, os sete mortos são lembrados por meio de uma apresentação chamada Ópera dos Desvalidos, realizada na praça por moradores de abrigos. Baldes, flautas de plástico e mantas térmicas são transformados em elementos de uma apresentação que busca devolver identidade e memória às vítimas.
A escolha de incorporar o episódio à narrativa reforça um dos principais temas de Casa Nazaré: a relação entre memória, invisibilidade social e apagamento de pessoas que vivem nas ruas.
UM EDIFÍCIO COMO PERSONAGEM
A narrativa se desenvolve em torno de um único edifício do centro de São Paulo. O imóvel atravessa diferentes períodos históricos e sociais da cidade, acompanhando mudanças urbanas, econômicas e culturais.
A primeira parte apresenta Carolina aos nove anos, em 1950. A segunda acompanha a personagem aos 59 anos, entre 1999 e 2001. Já a terceira parte chega a 2023, quando ela tem 82 anos.
Ao longo desse percurso aparecem trabalhadores imigrantes, costureiras, catadores e outros personagens ligados às diferentes formas de ocupação e sobrevivência no centro paulistano.
TRILOGIA DA PRESENÇA
Casa Nazaré encerra um projeto literário dedicado à população em situação de rua. Os três volumes adotam linguagens diferentes para abordar o mesmo universo.
O primeiro volume, Escritas dos Invisíveis: Biografias de Quem o Mundo Não Viu, reúne histórias de vida reais colhidas em entrevistas.
O segundo, Intermidialidade dos Invisíveis: Entre Literaturas, Imagens e Arte, Corpos e Arquivos, apresenta um trabalho de ensaio e crítica cultural sobre a maneira como cinema, literatura, pintura e jornalismo constroem representações da população em situação de rua.
O terceiro volume, Casa Nazaré, transforma a pesquisa em ficção e utiliza a trajetória de Carolina para discutir memória, cidade, envelhecimento e invisibilidade social.
REFERÊNCIA A CAROLINA MARIA DE JESUS
A escritora Carolina Maria de Jesus também aparece como referência importante na construção da personagem.
Segundo Acir Dias da Silva, a ideia para Carolina nasceu de uma experiência pessoal anterior à própria pesquisa acadêmica. O autor relata que a personagem aparecia em sonhos desde a infância e que a imagem voltou durante o período em que passou a conviver com pessoas em situação de rua em São Paulo.
A partir dessa experiência, a personagem foi construída como uma mulher que registra aquilo que a cidade não consegue ou não quer registrar.
O lançamento de Casa Nazaré ocorre em Cascavel, cidade onde o autor atua como professor da Unioeste. Acir Dias da Silva publicou em 2025 o romance O Diário que Escutava o Silêncio e o livro de contos Páginas Mortas das Árvores.
SERVIÇO
Lançamento de Casa Nazaré, de Acir Dias da Silva
Data: 24 de setembro de 2026, quinta-feira
Horário: 19h30
Local: Biblioteca da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), em Cascavel
Entrada: gratuita, com sessão de autógrafos
Editora: Pedro & João Editora

