Créditos: Marcello Casal JR/Agência Brasil
Desenrola 2.0: Governo lança novo programa com descontos de até 90% e uso do FGTS
Programa focado em famílias com renda de até 5 salários mínimos terá carência de 30 dias e prazos de até quatro anos; equipe econômica estuda aporte de R$ 8 bilhões para garantir renegociações
O governo federal finaliza os detalhes para lançar uma nova etapa do programa de renegociação de dívidas, batizada de Desenrola 2.0, com previsão de anúncio oficial no dia 1º de maio. A iniciativa deve ampliar o alcance do programa anterior e atingir milhões de brasileiros endividados, com foco em débitos bancários de alto custo, como cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal.
Para viabilizar a operação, a equipe econômica estuda editar uma medida provisória que permita um aporte de aproximadamente R$ 8 bilhões no Fundo de Garantia de Operações (FGO), mecanismo que dará sustentação financeira ao programa. Uma das alternativas em análise é utilizar recursos de valores esquecidos em instituições financeiras, possibilidade prevista em legislação recente. No entanto, essa estratégia enfrenta resistências internas, principalmente após questionamentos do Banco Central sobre possíveis impactos fiscais. Caso haja impedimentos jurídicos, o Tesouro Nacional pode assumir diretamente a capitalização do fundo.
O desenho do Desenrola 2.0 prevê atender inicialmente pessoas físicas com renda de até cinco salários mínimos. A expectativa do governo é permitir a renegociação de mais de R$ 100 bilhões em dívidas, com condições facilitadas de pagamento e descontos que podem chegar a até 90% do valor original.
Entre os detalhes técnicos em discussão estão a concessão de um período de carência inicial de 30 dias, pagamento restrito à amortização principal nos três primeiros meses e prazo total de quitação que pode chegar a quatro anos, a depender do perfil do débito.
Descontos elevados e uso do FGTS
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o programa foi estruturado em conjunto com instituições financeiras e deve oferecer condições mais acessíveis para famílias em situação de endividamento. “Estamos concluindo as conversas com as instituições financeiras para entregar ao presidente o programa de renegociação das dívidas das famílias brasileiras”, declarou.
Segundo o ministro, o foco será justamente nas dívidas com juros mais altos, que hoje comprometem boa parte da renda das famílias. “O programa tem como linha geral exigir reduções nas dívidas que mais impactam as famílias brasileiras hoje”, afirmou.
Além dos descontos, o governo pretende permitir o uso do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para quitação dos débitos. Durigan ressaltou que não haverá exigência de liquidação total da dívida para acesso ao recurso. “Você não está se endividando com o FGTS, está usando o recurso para quitar uma dívida”, explicou.
Atualmente, os juros dessas modalidades de crédito podem variar entre 6% e 10% ao mês, o que dificulta a saída do ciclo de inadimplência. “Uma família brasileira muitas vezes não consegue sair desse processo de atualização constante da dívida”, disse o ministro.
Impacto e limites do programa
Especialistas avaliam que a iniciativa pode trazer alívio imediato para milhões de brasileiros. O professor de Ciências Contábeis Alisson Batista destaca que o alto nível de endividamento no país reforça a importância da medida. “Indicadores mostram que mais de 80% das famílias brasileiras estavam endividadas. O programa pode dar um fôlego importante para renegociação”, afirmou.
Por outro lado, há ressalvas sobre os efeitos estruturais. O professor de finanças Marcos Melo aponta que, embora os descontos sejam significativos, o programa não resolve as causas do endividamento. “É necessário enfrentar fatores como juros elevados, baixa educação financeira e limitações da economia brasileira”, avaliou.
Ele também alerta para o uso do FGTS como instrumento de pagamento. “Pode ajudar no curto prazo, mas também compromete a segurança financeira futura. É uma solução paliativa”, disse.
Condições e alcance
O governo espera alcançar dezenas de milhões de brasileiros com o Desenrola 2.0, que deve entrar em operação imediatamente após o anúncio oficial. A proposta prevê um modelo simplificado, em que os consumidores poderão procurar diretamente os bancos para renegociar suas dívidas.
Durigan reforçou que a iniciativa não terá caráter permanente. “Não se trata de um Refis periódico. As pessoas não devem contar com a repetição desse tipo de medida”, afirmou. Segundo ele, o objetivo é enfrentar um momento específico de alto endividamento que tem pressionado a renda das famílias.
A expectativa é que, com a combinação de descontos elevados, juros mais baixos e novos prazos, o programa permita a reorganização financeira de parte significativa da população, ao mesmo tempo em que busca reduzir os efeitos da inadimplência na economia.
