Correios vendem só 3 imóveis no primeiro leilão e crise financeira mantém estatal sob pressão
A operação faz parte de um pacote de medidas anunciado no fim do ano passado para reduzir prejuízos sucessivos
Por Bruno Rodrigo
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A tentativa de reforçar o caixa por meio da venda de patrimônio começou abaixo do esperado para os Correios. No primeiro leilão de imóveis do plano de reestruturação, realizado de forma virtual, apenas 3 das 12 unidades ofertadas receberam propostas e foram arrematadas.
A operação faz parte de um pacote de medidas anunciado no fim do ano passado para reduzir prejuízos sucessivos. Com a alienação de imóveis, a estatal pretende arrecadar cerca de R$ 1,5 bilhão ao longo de vários leilões.
Resultado abaixo do esperado
Os lances estavam abertos para propriedades em sete estados. Caso todas fossem vendidas pelo preço mínimo, a arrecadação superaria R$ 14,5 milhões. No entanto, apenas três unidades foram negociadas — localizadas em Campo Grande (MS), Belo Horizonte (MG) e Caturaí (GO) — somando R$ 9,1 milhões.
O imóvel mais valioso era um prédio comercial de aproximadamente 3 mil metros quadrados na capital mineira, cujo lance mínimo era de R$ 8,3 milhões.
Especialistas do mercado imobiliário e economistas apontaram que parte das unidades possuía valores considerados elevados diante do estado de conservação. Algumas apresentavam sinais de depredação e vandalismo, o que teria reduzido o interesse de compradores.
Em nota, a empresa afirmou que os lotes sem propostas voltarão aos próximos certames “em continuidade à estratégia de racionalização e otimização do patrimônio”.
Novas tentativas de venda
Outros leilões já estão agendados. Em 26 de fevereiro serão ofertados nove imóveis com valor mínimo total de R$ 28,2 milhões. Há ainda seis etapas previstas entre março e abril. Após o encerramento dos lances, as propostas passam por análise antes da homologação do vencedor.
A expectativa é que a repetição das ofertas amplie a participação de interessados e ajude a estatal a levantar recursos de forma gradual.
Prejuízos crescentes
O plano de venda de ativos ocorre em meio a deterioração financeira persistente. A empresa encerrou 2022 com mais de R$ 700 milhões de prejuízo e ampliou o rombo para R$ 2,5 bilhões em 2024.
Em 2025, até o terceiro trimestre, as perdas chegaram a R$ 6 bilhões. Documento da diretoria econômico-financeira estima agora déficit de R$ 5,8 bilhões no fechamento do ano, menor que a previsão inicial, mas ainda elevado.
Para 2026, a projeção é ainda mais negativa: prejuízo de R$ 9,1 bilhões.
Segundo o relatório interno, a revisão ocorreu após medidas emergenciais de caixa. A empresa adiou aproximadamente R$ 3,1 bilhões em pagamentos a fornecedores, benefícios, despesas assistenciais e obrigações trabalhistas e tributárias.
A estatal também instituiu um comitê de contingência para controlar desembolsos e garantir continuidade operacional.
Empréstimos e fluxo de caixa
Além do adiamento de despesas, foram contratados R$ 13,8 bilhões em empréstimos ao longo do ano passado. Parte significativa dos recursos, porém, entrou no caixa apenas nos últimos dias do ano, o que limitou o efeito imediato na liquidez.
O documento interno aponta que o aumento de gastos combinado com receitas abaixo do previsto levou a empresa a um ciclo financeiro adverso, afetando a regularidade das operações.
Venda de patrimônio como alternativa
Nesse contexto, a venda de imóveis tornou-se um dos principais instrumentos para levantar recursos sem elevar ainda mais o endividamento. A estratégia busca reduzir custos de manutenção e transformar ativos pouco utilizados em capital de giro.
O primeiro leilão, contudo, mostrou que a recuperação será gradual. A baixa procura indica que o mercado pode exigir ajustes de preços ou melhorias na apresentação dos ativos para elevar o interesse.
Com novas rodadas programadas para as próximas semanas, a estatal aposta na continuidade do processo para aliviar o caixa enquanto tenta equilibrar receitas e despesas. O desempenho das próximas etapas será decisivo para avaliar se a alienação de patrimônio conseguirá contribuir de forma relevante na redução dos prejuízos projetados para os próximos anos.
