Setembro/2026

Apostas online geram impacto de R$ 30,6 bilhões por ano no SUS

Estudo aponta custo anual provocado por problemas de saúde ligados às bets; procura por atendimento no SUS por dependência de apostas aumentou 140% em cinco anos

Apostas online geram impacto de R$ 30,6 bilhões por ano no SUS Créditos: Marcello Casal Jr

Os problemas de saúde relacionados às apostas online geram um impacto financeiro estimado em R$ 30,6 bilhões por ano para o Sistema Único de Saúde (SUS). O dado consta de um estudo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS).

O cálculo considera despesas relacionadas ao tratamento de problemas como depressão e ansiedade, além dos impactos provocados por mortes por suicídio.

Apesar do custo, apenas 1% do valor arrecadado pelas operadoras de apostas é destinado ao Ministério da Saúde para ações voltadas à redução desses danos.

Procura por atendimento aumenta

Nos últimos cinco anos, a procura por atendimento no SUS relacionada à dependência de apostas online e jogos de azar aumentou 140%.

Segundo o diretor de Saúde Mental do Ministério da Saúde, Marcelo Kimati, o crescimento foi registrado em toda a Rede de Atenção Psicossocial.

Como resposta ao aumento da demanda, o Ministério da Saúde criou um serviço de teleatendimento para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas.

“Desde fevereiro deste ano, quando nós criamos uma porta de entrada para atendimentos a jogos e apostas de forma eletrônica, nós tivemos uma procura de 20 mil pessoas que se cadastraram após fazerem um teste”, afirmou Kimati.

A capacidade do serviço foi ampliada recentemente de 600 para até 100 mil teleatendimentos mensais, em parceria com a Agência Brasileira de Apoio à Gestão do SUS (AgSUS).

Outro indicador citado pelo diretor é a plataforma de autoexclusão criada pelo Ministério da Fazenda. Mais de 5 milhões de CPFs foram bloqueados em sites de apostas online autorizados a funcionar pelo governo federal.

Além de pessoas atendidas pelo Bolsa Família e pelo Benefício de Prestação Continuada (BPC) e participantes de programas de renegociação de dívidas, mais de 1 milhão de usuários solicitaram a autoexclusão.

Entre essas pessoas, quase metade informou ter problemas de saúde mental relacionados às apostas.

Jovem perdeu R$ 500 mil em seis anos

O vendedor Gustavo Pereira, de 24 anos, está há cerca de dois meses sem apostar. Morador de Lages, em Santa Catarina, ele utilizou a plataforma de autoexclusão para evitar novas recaídas.

Gustavo começou a apostar online aos 18 anos. Em seis anos, perdeu cerca de R$ 500 mil por causa do vício.

Para ele, a ferramenta de autoexclusão foi fundamental para retomar o controle da própria vida.

“Tive várias recaídas nesse processo, até chegar o momento da autoexclusão da plataforma. Pode-se dizer que essa ferramenta salvou minha vida. Eu recuperei minha autoestima, recuperei a coragem de olhar nos olhos das pessoas, eu sou outra pessoa, o vício me transformou em outra coisa”, relatou.

Depois de parar de apostar, o jovem começou a vender café nas ruas de Lages para reconstruir a vida.

Ele afirma que a recuperação exige atenção constante.

“Não me orgulho de nada do que eu fiz nessa época, e hoje, graças a Deus, eu consigo, com muita transparência, falar com as pessoas, ajudá-las, ainda faço acompanhamento, é uma luta diária contra o vício.”

Família tem papel importante

O apoio da família também pode ser importante para quem enfrenta dependência em jogos e apostas, segundo pessoas que passaram pelo problema e especialistas.

Carla Xavier*, de 41 anos, é jogadora compulsiva e participa da irmandade Jogadores Anônimos. Ela está há mais de um ano sem jogar.

Ela conta que chegou a perder o controle da própria rotina.

“Eu não tinha mais controle de nada, eu queria sair do meu trabalho para jogar, eu queria ficar em casa para jogar, eu não queria fazer absolutamente mais nada, eu só queria jogar. Nem dormir eu queria, eu só queria jogar”, relatou.

Para Carla, o apoio dos familiares foi importante para interromper o ciclo da dependência.

“Quando a gente tem uma família que apoia, que entende o que a gente está passando, tudo fica mais fácil”, afirmou.

Ela também destaca que um dos maiores desafios é reconhecer a compulsão como um problema de saúde.

“Uma compulsão, uma doença que você não entende que aquilo é uma doença. Você acha que ‘eu jogo, mas eu paro quando eu quero’, mas não é assim. A partir do momento que você desenvolveu a compulsão, você precisa de ajuda para poder parar.”

A irmandade Jogadores Anônimos também mantém o JOG-Anon, grupo voltado a familiares, amigos e outras pessoas próximas de jogadores compulsivos.

Especialistas alertam para sinais

A psicóloga Mariana Kehl, membro da Sociedade Brasileira de Psicologia, afirma que a família deve procurar ajuda quando identificar sinais de dependência.

Entre os indícios estão isolamento, mudanças de humor e aumento dos gastos.

“Não se trata de esperar para ver. Trata-se de buscar ajuda qualificada e de buscar essa ajuda sem moralização porque a vergonha é justamente o que mantém esse sofrimento em silêncio”, afirmou.

O psiquiatra forense e diretor da Vida Mental Perícias, Hewdy Lobo, chama atenção para a importância do acompanhamento familiar, especialmente no controle do tempo de jogos entre crianças e adolescentes.

Para a especialista em direito digital Luana Mendes, conhecida como Dra. Gamer, não é apenas o tempo gasto nos jogos que indica uma possível dependência. O comportamento também precisa ser observado.

“Se a criança deixa de dormir adequadamente, começa a ter prejuízo escolar, abandona outras atividades, abandona os coleguinhas ou apresenta uma sensível perda de controle, de não conseguir ficar sem o jogo, os responsáveis precisam intervir e, quando necessário, procurar um acompanhamento profissional”, alertou.

Em alguns casos, o tratamento pode envolver psicólogo, psiquiatra e uso de medicamentos.

Carla afirma que muitas pessoas só reconhecem a necessidade de ajuda quando a situação já está muito grave.

“Ela [a pessoa com dependência] só vai se dar conta disso a hora que chegar ao fundo do poço, cavar mais um pouquinho, e aí ela vai entender que, sem a ajuda dos seus iguais, não vai conseguir sair dessa situação.”

Depois de se afastar dos jogos, Carla diz ter recuperado aspectos da vida que havia perdido.

“Voltei a ter minha autoconfiança, um trabalho digno, honesto, e a vida só tem me dado surpresas boas.”

Grupos oferecem apoio

A irmandade Jogadores Anônimos também é procurada por pessoas que buscam apoio para abandonar o vício.

Luiz Carlos, atualmente com 71 anos, está há 15 anos sem jogar. Ele afirma ter encontrado acolhimento no grupo.

“Quando você chega, todo mundo te abraça, ninguém aponta um dedo para esses problemas. Porque, quando você chega, você mesmo se acha um inútil. E, quando você chega lá dentro, você vê que todo mundo é igual.”

Rogério*, de 53 anos, também integrante da irmandade, está há mais de um ano sem jogar. Para ele, quem enfrenta o problema deve procurar ajuda o quanto antes.

“É difícil perceber que precisamos de ajuda. Acontece, geralmente, quando já estamos no fundo do poço”, afirmou.

Onde buscar ajuda

O SUS oferece atendimento para pessoas com dependência em jogos e apostas. O serviço inclui teleatendimento psicológico pelo portal Meu SUS Digital e atendimento presencial nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).

Familiares também podem buscar atendimento e orientação. O serviço é sigiloso e permite o acesso à assistência especializada.

Outra opção são os grupos da irmandade Jogadores Anônimos, que realizam reuniões presenciais e online.

O Centro de Valorização da Vida (CVV) também oferece atendimento gratuito pela internet e pelo telefone 188.

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