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Voto a voto: Lula e Flávio chegam à eleição com empate nas pesquisas e disputa aberta até a última hora

Às vésperas de um dos segundos turnos mais acirrados da história, candidatos apostam em mobilização, rejeição ao adversário e conquista dos poucos eleitores ainda indecisos; denúncias, redes sociais e debate final ampliam a tensão

Gazeta do Paraná · · 10 min de leitura
Lula e Flávio Bolsonaro durante o primeiro debate presidencial do segundo turno, realizado pela TV Bandeirantes em 18 de outubro; declarações dos dois candidatos foram alvo de verificações jornalísticas.
Lula e Flávio Bolsonaro durante o primeiro debate presidencial do segundo turno, realizado pela TV Bandeirantes em 18 de outubro; declarações dos dois candidatos foram alvo de verificações jornalísticas. — Crédito: Renato Pizzutto/Band

O Brasil chega à véspera do segundo turno das eleições presidenciais de 2026 diante de uma disputa em que cada voto pode fazer a diferença. Neste domingo (25), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL) se enfrentam nas urnas em um cenário de equilíbrio, marcado por pesquisas com diferenças mínimas, elevada rejeição aos dois candidatos e uma campanha que, nos últimos dias, concentrou esforços tanto na conquista de eleitores indecisos quanto na tentativa de enfraquecer a imagem do adversário. A possibilidade de uma das eleições mais apertadas da história recente do país tornou a reta final especialmente imprevisível.

O cenário é resultado de uma disputa que ultrapassa os programas de governo e envolve duas forças políticas que polarizam o eleitorado brasileiro há anos. De um lado, Lula busca a reeleição apresentando os resultados de sua administração, defendendo políticas sociais e procurando ampliar o apoio entre eleitores que não se identificam diretamente com o PT. Do outro, Flávio Bolsonaro tenta consolidar o eleitorado conservador, explorar a insatisfação com o governo e transformar o sentimento de oposição ao presidente em uma maioria eleitoral. A disputa ocorre sob o peso de denúncias, confrontos pessoais e uma intensa batalha pela interpretação dos acontecimentos nas redes sociais.

Os números ajudam a dimensionar o equilíbrio. Na pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira (22), Lula e Flávio apareceram com 50% dos votos válidos cada. Sem arredondamento, o senador registrou 50,47%, contra 49,53% do presidente. O levantamento anterior apontava 51% a 49% para Flávio, enquanto a primeira rodada do instituto no segundo turno registrava 52% a 48%. A sequência revela uma redução da vantagem numérica do candidato do PL, embora as oscilações permaneçam dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.

Outros institutos apresentam diferenças de intensidade e direção. Levantamentos divulgados ao longo da semana mostram desde empate numérico até vantagens estreitas para um dos candidatos. O conjunto indica que nenhum deles conseguiu estabelecer uma liderança incontestável na reta final. Novas pesquisas de Datafolha, Quaest, AtlasIntel e outros institutos estão previstas para este sábado (24), oferecendo o último retrato das preferências eleitorais antes da abertura das urnas.

 

O peso dos poucos votos disponíveis

A principal dificuldade das campanhas é que a maioria dos brasileiros já decidiu em quem votar. Segundo o Datafolha, 94% dos entrevistados afirmam estar totalmente definidos, enquanto apenas 6% admitem a possibilidade de mudar de escolha. Entre os eleitores que apoiaram outros candidatos no primeiro turno, entretanto, essa disposição chega a 23%, indicando que o grupo pode exercer influência desproporcional sobre o resultado de uma disputa tão equilibrada.

Há outro componente importante: a rejeição. O mesmo levantamento mostra que 46% dos eleitores rejeitam exclusivamente Flávio Bolsonaro, enquanto 45% rejeitam exclusivamente Lula. A proximidade entre os índices revela que os dois candidatos enfrentam resistências semelhantes, tornando mais difícil conquistar votos fora de suas bases tradicionais. A disputa, portanto, não depende apenas da capacidade de convencer o eleitor sobre propostas, mas também de reduzir a desconfiança de quem considera votar no candidato por falta de uma alternativa preferida.

O voto de rejeição tem peso significativo, sobretudo entre os apoiadores de Flávio. De acordo com o Datafolha, 23% dos eleitores do senador afirmam que sua escolha tem como principal motivação derrotar Lula. Entre os eleitores do presidente, 13% dizem votar para impedir a vitória do adversário. A diferença sugere que a oposição ao atual governo exerce papel especialmente relevante na composição do eleitorado bolsonarista, enquanto Lula reúne proporcionalmente mais pessoas que justificam a escolha por considerá-lo a melhor opção.

Esse cenário explica a importância atribuída pelas campanhas aos eleitores menos identificados com a polarização. São brasileiros que podem votar em um dos candidatos sem necessariamente aderir ao conjunto de suas posições políticas. Em uma eleição decidida por margens tão estreitas, pequenas mudanças nesse segmento, somadas às diferenças de comparecimento às urnas, podem determinar o vencedor.

 

Denúncias e disputa pela transparência

A última semana também foi marcada pela intensificação das acusações entre os candidatos. Lula passou a pressionar Flávio Bolsonaro pela abertura de seus sigilos bancário, fiscal e telefônico, enquanto o senador respondeu com exigências semelhantes envolvendo o presidente e pessoas próximas ao governo. O confronto ganhou novas etapas quando ambos apresentaram autorizações, mas a efetiva divulgação das informações permaneceu em discussão.

A ofensiva petista procura colocar o adversário na posição de ter de responder a questionamentos sobre suas relações financeiras. Já a estratégia bolsonarista consiste em contestar a credibilidade das acusações, ampliar as cobranças sobre Lula e sustentar que a exigência de transparência deve alcançar os dois lados. Até o momento, a apresentação de autorizações não equivale à divulgação pública dos dados, tampouco representa comprovação de irregularidades.

O embate ganhou força com reportagens sobre relações empresariais e financeiras de Flávio e com acusações relacionadas a um encontro em uma lancha, em 2020, envolvendo empresários e mulheres contratadas para programas sexuais. As informações passaram a integrar o confronto político, mas as alegações precisam ser diferenciadas de fatos documentalmente comprovados. Aliados do senador reagiram questionando a credibilidade de possíveis fontes e acusando adversários de explorar denúncias com objetivos eleitorais.

Ao mesmo tempo, apoiadores de Flávio intensificaram ataques contra pessoas próximas a Lula, inclusive com insinuações sobre movimentações financeiras da primeira-dama Janja. Essas acusações também exigem comprovação independente. A circulação de suspeitas nas redes sociais, por si só, não demonstra a ocorrência de crimes ou irregularidades.

 

Uma batalha travada em diferentes redes

A repercussão do último debate presidencial, realizado na sexta-feira (23), revelou que a disputa pela opinião pública não apresenta resultados uniformes. Levantamento da Palver, divulgado neste sábado pela Folha de S.Paulo, identificou vantagem de Flávio Bolsonaro nas avaliações do debate compartilhadas no WhatsApp, enquanto Lula prevaleceu no X, antigo Twitter.

No WhatsApp, 57% das avaliações analisadas consideraram Flávio vencedor, contra 39% favoráveis a Lula. No X, a relação se inverteu: 58% apontaram vantagem do presidente, diante de 38% para o senador. Os números refletem manifestações monitoradas nas plataformas e não podem ser confundidos com uma pesquisa representativa do eleitorado brasileiro.

A diferença mostra como os candidatos disputam ambientes digitais com dinâmicas próprias. O bolsonarismo mantém forte capacidade de mobilização em grupos de mensagens e redes de influenciadores, enquanto a campanha petista procura ampliar sua presença nesses mesmos espaços e disputar a circulação de conteúdos políticos. Em ambos os campos, lideranças digitais passaram a exercer papel central na amplificação de mensagens, na interpretação dos debates e na mobilização dos eleitores.

Entre os aliados de Flávio, o deputado federal Nikolas Ferreira se destacou pela participação na estratégia de comunicação voltada ao eleitorado religioso. Antes do debate, sugeriu que o senador encerrasse sua participação convidando os brasileiros a rezar um Pai Nosso, orientação adotada pelo candidato. O gesto reforçou a aproximação com segmentos conservadores e religiosos, considerados fundamentais para a manutenção da base bolsonarista.

A campanha também procurou ajustar a postura de Flávio durante o último confronto televisivo. Com participação do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, na preparação, o senador buscou apresentar um perfil mais moderado e propositivo. O objetivo era reduzir a imagem de agressividade e ampliar sua aceitação entre eleitores que não integram o núcleo mais fiel do bolsonarismo.

 

Debate expôs limites das estratégias

Apesar da tentativa de moderação, o debate da Globo foi marcado por confrontos pessoais. Um dos momentos de maior repercussão ocorreu quando Flávio fez referência aos nove dedos de Lula, que perdeu um dedo em um acidente de trabalho. O presidente reagiu criticando a provocação e associando o episódio ao respeito devido aos trabalhadores acidentados. O senador pediu desculpas, mas a discussão ganhou espaço nas redes sociais.

Lula também enfrentou críticas após se confundir durante uma resposta sobre segurança pública. A declaração foi explorada por aliados de Flávio, que procuraram apresentá-la como demonstração de uma posição contrária às forças policiais. O contexto da fala, entretanto, não sustenta essa interpretação literal. O episódio ilustra como erros e declarações isoladas passaram a ser utilizados como instrumentos de disputa na reta final.

As avaliações jornalísticas sobre o desempenho dos candidatos foram divergentes. Parte dos analistas considerou que Lula conseguiu explorar melhor os momentos de confronto, enquanto outros destacaram a postura mais controlada de Flávio. O resultado efetivo do debate sobre as intenções de voto, contudo, ainda depende de levantamentos realizados depois do encontro.

 

O comparecimento pode decidir a eleição

Além da conquista dos poucos indecisos, as campanhas enfrentam o desafio de garantir que seus apoiadores compareçam às urnas. Em uma disputa marcada por diferenças próximas da margem de erro, a abstenção pode alterar o resultado mesmo sem mudanças expressivas nas preferências declaradas pelos eleitores.

O esforço de mobilização ganhou intensidade neste último fim de semana. Atos públicos, carreatas, encontros com lideranças políticas e manifestações de apoiadores passaram a integrar a estratégia das duas candidaturas. A aposta é transformar a identificação política em participação efetiva, especialmente nos segmentos em que cada candidato concentra maior apoio.

Outro elemento relevante é a expectativa de vitória. Embora o Datafolha tenha registrado empate nos votos válidos, 53% dos entrevistados acreditavam que Flávio venceria a eleição, contra 39% que apontavam Lula como favorito. O indicador revela uma percepção de vantagem do senador que não corresponde necessariamente à distribuição das intenções de voto. A expectativa de vitória pode influenciar o ambiente político, mas não permite antecipar o resultado das urnas.

 

Uma eleição que pode entrar para a história

A dimensão histórica da disputa remete ao segundo turno de 2022, quando Lula derrotou Jair Bolsonaro com 50,90% dos votos válidos, contra 49,10%. A diferença de aproximadamente 2,14 milhões de votos tornou aquela a eleição presidencial mais apertada desde a redemocratização. Para que o pleito de 2026 supere esse recorde em termos proporcionais, o vencedor precisaria terminar com uma vantagem inferior a 1,8 ponto percentual sobre o adversário.

Os levantamentos disponíveis indicam que essa possibilidade existe, mas ainda não permitem afirmar que a eleição deste domingo será a mais apertada da história. Pesquisas representam retratos das preferências no momento das entrevistas, sujeitos a margens de erro, diferenças metodológicas e mudanças até a votação.

Mais do que uma disputa entre dois candidatos, o segundo turno coloca em confronto avaliações sobre os rumos econômicos, sociais e institucionais do país. Lula pede continuidade para sua administração e procura associar sua candidatura à proteção social e à estabilidade democrática. Flávio defende a alternância no poder, critica a gestão petista e busca reunir o eleitorado conservador em torno de uma agenda de mudanças.

Na véspera da votação, as cartas estão praticamente todas sobre a mesa: bases eleitorais consolidadas, rejeições elevadas, denúncias ainda em disputa, redes sociais intensamente mobilizadas e uma parcela reduzida de eleitores com possibilidade de mudar de posição. O que permanece desconhecido é como esses fatores se combinarão quando milhões de brasileiros comparecerem às urnas.

Depois de uma campanha marcada por polarização, acusações e margens estreitas nas pesquisas, a decisão deixará o terreno das projeções e passará às mãos dos eleitores. Independentemente do resultado, o domingo representará mais um capítulo decisivo da história democrática brasileira, com a escolha de quem governará o país pelos próximos quatro anos.

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