Segurança recebe quatro vezes mais recursos, mas Paraná enfrenta falta de policiais penais e ação de facções nos presídios
Gastos estaduais com segurança passaram de R$ 2 bilhões em 2018 para R$ 8 bilhões previstos em 2026. Estudo publicado pelo CNJ aponta déficit estimado de 6,4 mil policiais penais, enquanto deputado Tito Barichello denuncia a entrada de centenas de celulares nas penitenciárias e a continuidade da atuação do crime organizado
O Paraná quadruplicou os recursos destinados à segurança pública nos últimos oito anos, mas continua enfrentando problemas estruturais no sistema penitenciário, incluindo um déficit estimado de 6,4 mil policiais penais e denúncias de atuação do crime organizado dentro das unidades prisionais. Enquanto o governo estadual prevê encerrar 2026 com aproximadamente R$ 8 bilhões destinados à área, um estudo publicado na Revista do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aponta insuficiência de profissionais para atender às necessidades do sistema. Na Assembleia Legislativa do Paraná (Alep), o deputado estadual Delegado Tito Barichello (PL) denunciou a entrada recorrente de celulares nas penitenciárias e cobrou investimentos para impedir que organizações criminosas continuem operando de dentro dos presídios.
A expansão dos gastos foi apresentada pelo secretário de Estado da Fazenda em exercício, Luiz Paulo Budal, durante audiência pública realizada em 13 de outubro. Segundo ele, os recursos destinados à segurança pública passaram de aproximadamente R$ 2 bilhões em 2018 para uma previsão de R$ 8 bilhões em 2026. Os valores representam uma quadruplicação nominal, sem descontar a inflação acumulada no período, e abrangem diferentes órgãos e atividades da segurança, não apenas o sistema penitenciário.
O contraste entre o crescimento dos recursos e as dificuldades enfrentadas nas prisões coloca em discussão a distribuição dos investimentos estaduais. Embora o governo tenha ampliado contratações e promovido mudanças na carreira da Polícia Penal, o diagnóstico utilizado pelo CNJ revela uma necessidade de profissionais significativamente superior ao efetivo informado pela própria administração em 2025.
O déficit estimado de 6,4 mil policiais penais aparece em estudo publicado em 2026 na Revista CNJ, que analisa o Plano Estadual Pena Justa do Paraná e o planejamento financeiro da execução penal. O número tem como referência um diagnóstico de 2025 e não corresponde necessariamente à quantidade de cargos legalmente vagos ou ao déficit atualizado em outubro de 2026, já que novas nomeações ocorreram posteriormente.
Facções e celulares dentro dos presídios
A atuação de organizações criminosas no interior das penitenciárias foi um dos principais pontos levantados por Tito Barichello durante a audiência pública. O deputado afirmou que o Paraná necessita urgentemente de uma unidade de segurança máxima e questionou a capacidade do sistema prisional de impedir a comunicação entre pessoas presas e integrantes de facções criminosas.
“Nós precisamos urgentemente de uma penitenciária de segurança máxima e a prova disso, senhores, é que todas as ações policiais nas penitenciárias do estado do Paraná recolhem, a cada vez, centenas de celulares”, declarou.
Na avaliação do parlamentar, a apreensão recorrente de aparelhos demonstra que os mecanismos de fiscalização e controle não conseguem impedir sua entrada nas unidades.
“Significa que os celulares estão entrando nas penitenciárias. Significa que o crime continua agindo dentro das penitenciárias, então precisamos sim de investimentos”, acrescentou.
A denúncia relaciona diretamente a estrutura do sistema penitenciário à capacidade de enfrentamento das organizações criminosas. Aparelhos celulares introduzidos irregularmente nas prisões podem ser utilizados para manter contatos externos, transmitir ordens e organizar atividades ilícitas, o que torna seu controle uma questão de segurança pública que ultrapassa os muros das unidades.
Durante a audiência, Barichello não apresentou um levantamento consolidado sobre a quantidade de celulares apreendidos, as unidades envolvidas ou a frequência das operações. As declarações, portanto, constituem uma denúncia parlamentar, cuja dimensão precisa ser confrontada com os registros oficiais de apreensões e investigações.
A discussão ganha relevância diante da insuficiência de policiais penais identificada no diagnóstico utilizado pelo CNJ. O funcionamento das penitenciárias depende de profissionais responsáveis pela custódia, fiscalização, movimentação interna e segurança dos estabelecimentos, além de equipamentos, procedimentos de controle e atividades de inteligência.
A falta de efetivo, contudo, não permite concluir automaticamente que seja a causa da entrada de aparelhos ou da atuação de organizações criminosas. A identificação dessas relações exige informações específicas sobre as condições operacionais de cada unidade.
Déficit de 6,4 mil policiais penais
A dimensão da insuficiência de profissionais foi identificada em diagnóstico de 2025 utilizado pelas pesquisadoras Marina Michel de Macedo Martynychen e Allana Campos Marques Schrappe no estudo publicado na Revista CNJ em 2026.
O levantamento aponta uma necessidade estimada de 6,4 mil policiais penais no Paraná, número que evidencia a distância entre o efetivo disponível e a estrutura considerada necessária no planejamento penitenciário.
A estimativa não deve ser confundida com a quantidade de cargos vagos existentes na estrutura administrativa do Estado. Também não representa, necessariamente, o déficit atual, uma vez que o governo realizou novas contratações ao longo de 2025 e 2026.
Em novembro de 2025, após a incorporação de uma turma de 429 policiais penais, o Executivo informou que a corporação havia alcançado 2.960 servidores ativos. O dado oferece uma referência sobre o tamanho do efetivo naquele momento, mas não permite determinar, isoladamente, quantos profissionais seriam necessários em cada unidade.
A necessidade de recomposição do quadro ocorre em um sistema que também enfrenta superlotação. Dados divulgados pelo CNJ em setembro de 2026 apontaram 43.553 pessoas privadas de liberdade para 36.261 vagas no Paraná, diferença de 7.292 vagas.
A taxa de ocupação, superior a 120%, representa pressão adicional sobre a administração penitenciária, que precisa assegurar a custódia e a segurança de uma população maior do que a capacidade oficialmente informada.
O excesso de pessoas presas também amplia a importância de políticas voltadas à infraestrutura, à distribuição de servidores e à prevenção de conflitos, além do enfrentamento às organizações criminosas.
Concurso começou com apenas sete vagas
O histórico recente de contratações ajuda a compreender a dimensão do desafio. Em 2024, o governo estadual abriu concurso público para a Polícia Penal com apenas sete vagas imediatas, apesar de o processo seletivo ter registrado 24.933 inscrições homologadas.
O número inicial de vagas não representou o limite definitivo de contratações. Diante das necessidades da corporação, o Executivo ampliou as convocações e autorizou a incorporação de novos profissionais.
Em 2025, foram nomeados 429 policiais penais. Em maio de 2026, o governo anunciou mais 81 nomeações e, em junho, divulgou a posse de 75 servidores. Os dois últimos anúncios correspondem a etapas administrativas que podem envolver parte dos mesmos candidatos e, por isso, não devem ser somados automaticamente.
Também em junho, uma nova turma de 335 candidatos iniciou o curso de formação profissional. Em 30 de setembro, o Instituto AOCP, responsável pela organização do concurso, publicou o resultado final das avaliações dessa etapa, com novas movimentações registradas no início de outubro.
Apesar das nomeações anunciadas, não foi possível confirmar, a partir das informações públicas consultadas, quantos candidatos aprovados permanecem aguardando nomeação, quantos policiais penais estão efetivamente em atividade neste mês e qual o déficit atualizado após as contratações.
Esses dados são fundamentais para verificar se o ritmo de recomposição do efetivo acompanha as necessidades apontadas no planejamento estadual.
A situação da carreira já havia sido abordada pela Gazeta do Paraná em abril de 2025, quando reportagem mostrou questionamentos sobre a remuneração e a desistência de candidatos durante o processo de formação.
Na ocasião, representantes da categoria apontaram a defasagem salarial como um dos fatores que poderiam estimular a migração de profissionais para outras forças de segurança. A Polícia Penal contestou a dimensão das desistências e informou que o índice registrado durante a formação era de aproximadamente 4%.
Em junho de 2026, o governo sancionou a Lei Complementar nº 293, que reestruturou a carreira da Polícia Penal e estabeleceu alterações no enquadramento e na progressão dos servidores. A medida foi apresentada pelo Executivo como parte da política de valorização profissional.
A reestruturação remuneratória e a ampliação das nomeações representam iniciativas para fortalecer a corporação, mas ainda não permitem concluir que a insuficiência de pessoal identificada no diagnóstico de 2025 tenha sido solucionada.
CNJ questiona planejamento financeiro das prisões
O estudo publicado na Revista CNJ também identificou problemas no planejamento orçamentário do sistema penitenciário paranaense. Ao examinar o Plano Estadual Pena Justa e documentos financeiros do Estado, as pesquisadoras apontaram dificuldades para relacionar as necessidades diagnosticadas aos recursos destinados à execução das medidas.
Entre os problemas identificados está a fragmentação das despesas entre diferentes órgãos e instrumentos orçamentários, situação que dificulta a identificação do custo efetivo das políticas penitenciárias.
A análise técnica do CNJ sobre os planos estaduais do programa Pena Justa também registrou ausência de detalhamento orçamentário suficiente na versão do planejamento paranaense examinada pelo Conselho.
O documento mencionava fontes de financiamento, incluindo recursos estaduais e federais, mas não apresentava de forma consolidada os valores necessários para executar todas as medidas propostas.
O apontamento não significa que o governo tenha deixado de investir nas unidades prisionais nem permite afirmar que informações complementares não tenham sido apresentadas posteriormente. Entretanto, evidencia a necessidade de demonstrar quais recursos estão efetivamente reservados para corrigir as deficiências identificadas.
No caso da falta de policiais penais, a discussão envolve não apenas a abertura de concursos, mas também a previsão permanente de despesas com pessoal, formação, equipamentos e manutenção da estrutura operacional.
A necessidade de maior transparência ganha relevância diante dos R$ 8 bilhões anunciados para a segurança pública em 2026. O valor contempla diferentes corporações e atividades, mas não esclarece, isoladamente, quanto será aplicado especificamente na Polícia Penal e no enfrentamento das deficiências do sistema prisional.
Deputado critica resultados da segurança pública
Durante a audiência na Alep, Tito Barichello também questionou os indicadores de violência apresentados como resultados da política estadual de segurança. O parlamentar afirmou que o Paraná precisa ser comparado com estados que registram índices menores de mortes violentas, em vez de considerar apenas sua posição em relação à média nacional.
Ele mencionou uma taxa de aproximadamente 15 mortes por 100 mil habitantes no Paraná, contra sete em Santa Catarina e índice semelhante em São Paulo. Os números foram citados pelo deputado durante a audiência, sem apresentação de uma série estatística padronizada que permitisse confirmar a comparação para o mesmo período.
“Muitos dizem: ah, então o Paraná é um lugar seguro. Não. Nós estamos apanhando de Santa Catarina”, afirmou.
O deputado também criticou o discurso institucional do governo estadual e questionou a distância entre os investimentos anunciados e os problemas enfrentados pela população.
“Nossos jovens estão morrendo. E aqui é o Estado que cuida e protege. Não sei quem cuida e não sei quem protege”, declarou.
Barichello citou ainda Paranaguá, no Litoral, como exemplo de município afetado pela violência. Segundo ele, a cidade figura entre as 30 mais violentas do Brasil e enfrenta a atuação de organizações criminosas como o Comando Vermelho e o Primeiro Grupo Catarinense (PGC).
As afirmações sobre a posição do município no ranking nacional e a atuação das facções foram apresentadas pelo parlamentar e não foram acompanhadas, na audiência, dos dados necessários para sua verificação independente.
O deputado também questionou a valorização dos profissionais da segurança e mencionou remuneração inicial de R$ 3.795,18 para soldados da Polícia Militar após a formação, classificando o valor como o menor do país.
A declaração se refere à Polícia Militar, e não à Polícia Penal, cuja estrutura remuneratória foi modificada em 2026. Ainda assim, a manifestação ampliou a discussão sobre as prioridades de aplicação dos recursos públicos.
“É muita propaganda e pouco resultado”, resumiu Barichello ao criticar a política de segurança do governo Ratinho Junior.
Governo defende investimentos e redução da criminalidade
Ao responder aos questionamentos, Luiz Paulo Budal defendeu a situação financeira do Paraná e os resultados da administração estadual. O secretário destacou a expansão dos gastos com segurança pública e mencionou a redução de indicadores criminais, incluindo homicídios e roubos.
Segundo Budal, o Estado deverá encerrar 2026 destinando aproximadamente R$ 8 bilhões à segurança, patamar próximo ao previsto para 2027. O valor anunciado é uma estimativa para o conjunto da área e não corresponde, necessariamente, ao total já pago até a data da audiência.
O secretário também contestou a avaliação de Barichello sobre a situação fiscal do Estado. O deputado havia manifestado preocupação com a possibilidade de a gestão Ratinho Junior transferir obrigações financeiras relevantes para o próximo governo.
Na avaliação de Budal, o Paraná apresenta condições fiscais equilibradas e dispõe de capacidade financeira para cumprir seus compromissos. O representante da Fazenda também destacou o reconhecimento da situação fiscal estadual por órgãos federais de acompanhamento das contas públicas.
A defesa do governo, contudo, não encerra a discussão sobre as condições específicas das penitenciárias. A redução de crimes registrados nas ruas pode representar avanço na segurança pública, mas não permite avaliar, por si só, a suficiência do efetivo penitenciário ou a capacidade das unidades de impedir a atuação de organizações criminosas.
Da mesma forma, a quadruplicação nominal dos gastos gerais não demonstra automaticamente quanto foi destinado à recomposição do quadro da Polícia Penal ou à modernização das estruturas prisionais.
Investimentos crescem, mas desafios permanecem
A combinação dos dados revela um cenário que exige avaliação específica dos resultados da política penitenciária. O Paraná ampliou os recursos gerais destinados à segurança pública, realizou nomeações e reestruturou a carreira dos policiais penais, mas o diagnóstico de 2025 utilizado pelo CNJ identificou uma necessidade expressiva de profissionais.
Ao mesmo tempo, o sistema mantém déficit de vagas, enquanto as denúncias apresentadas na Assembleia Legislativa levantam questionamentos sobre o controle da entrada de celulares e a atuação de organizações criminosas no interior das penitenciárias.
O crescimento dos gastos não permite concluir, isoladamente, que os recursos tenham sido insuficientes ou mal aplicados. Para isso, seria necessário examinar a execução orçamentária específica da Polícia Penal, a evolução do efetivo e os resultados das medidas adotadas nas unidades.
A principal questão é verificar quanto do orçamento estadual está efetivamente comprometido com a recomposição de profissionais, a modernização das penitenciárias e o cumprimento das metas previstas no Plano Estadual Pena Justa.
Sem um balanço atualizado do efetivo, das nomeações pendentes, das apreensões de celulares e das despesas executadas no sistema penitenciário, permanece difícil dimensionar a distância entre os investimentos anunciados e as condições reais de funcionamento das prisões paranaenses.
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