Mais de 50 bispos católicos se posicionam contra Flávio Bolsonaro e alertam para ameaça à democracia
Em carta divulgada às vésperas do segundo turno, religiosos afirmam que propostas do candidato contrariam a Doutrina Social da Igreja e convocam fiéis a votar em defesa dos pobres, dos trabalhadores e da soberania nacional
Às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, mais de 50 bispos católicos de diferentes regiões do Brasil divulgaram uma carta com duras críticas à candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL). O documento, datado de quinta-feira (22) e divulgado nesta sexta-feira (23) pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), afirma que uma das candidaturas representa uma ameaça à democracia, à soberania nacional e aos princípios fundamentais da Doutrina Social da Igreja. Embora não mencione nominalmente o senador, as referências ao governo de Jair Bolsonaro e às propostas defendidas por seu filho deixam claro o posicionamento dos religiosos.
Intitulada “Carta de Bispos Católicos ao Povo de Deus diante do Segundo Turno das Eleições Presidenciais de 2026”, a manifestação sustenta que o momento político exige uma tomada de posição dos católicos. Os signatários afirmam que a disputa entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro ultrapassa as divergências partidárias e envolve a preservação de direitos sociais, instituições democráticas e valores cristãos.
O texto alerta que uma das candidaturas ameaça frontalmente princípios da Doutrina Social da Igreja e pode provocar mudanças profundas nos rumos do país. Os bispos relacionam esse risco às experiências autoritárias do século XX e defendem que a neutralidade diante de ameaças à democracia não constitui uma postura moralmente aceitável.
A carta reúne religiosos de diferentes dioceses, incluindo bispos em atividade e eméritos. Entre os signatários está dom Manoel João Francisco, bispo emérito da Diocese de Cornélio Procópio, no Paraná.
Direitos trabalhistas e combate à pobreza
Um dos principais pontos levantados pelos religiosos diz respeito às propostas trabalhistas associadas à candidatura de Flávio Bolsonaro. A carta critica a oposição ao fim da escala de trabalho 6x1 e a defesa de modelos de remuneração por hora trabalhada, argumentando que essas posições entram em conflito com a dignidade do trabalhador e com a obrigação de assegurar condições adequadas de vida.
Para fundamentar o posicionamento, os bispos recorrem à encíclica Magnifica Humanitas, atribuída ao papa Leão XIV, que aborda a necessidade de considerar os direitos dos trabalhadores diante das transformações econômicas e tecnológicas. Na interpretação dos signatários, políticas que priorizam a eficiência econômica sem garantir proteção social contrariam os ensinamentos da Igreja.
O combate à pobreza também ocupa espaço central no manifesto. Os religiosos criticam o histórico de oposição a programas sociais atribuído ao partido do candidato e questionam a compatibilidade dessas posições com a opção preferencial pelos pobres, princípio tradicional da doutrina católica.
A carta cita a exortação apostólica Dilexi Te, que rejeita a ideia de que a liberdade de mercado, isoladamente, seria suficiente para superar a pobreza. Para os signatários, o enfrentamento da desigualdade exige responsabilidade coletiva e políticas públicas voltadas à população mais vulnerável.
Soberania nacional e meio ambiente
Outro eixo do documento é a política externa. Os bispos acusam a candidatura criticada de defender uma aproximação com os Estados Unidos que, na avaliação deles, poderia comprometer a autonomia brasileira. O manifesto menciona as tarifas impostas a produtos nacionais, a possibilidade de interferência estrangeira nas eleições e a exploração de terras raras brasileiras por interesses norte-americanos.
As afirmações são apresentadas pelos religiosos como exemplos de incompatibilidade entre o projeto político do candidato e a defesa do bem comum. O texto sustenta que a soberania dos povos constitui um valor protegido pela Doutrina Social da Igreja e que a submissão de interesses nacionais a governos estrangeiros representa um problema moral e político.
Na área ambiental, os bispos também criticam o histórico do governo Jair Bolsonaro e as posições atribuídas ao filho sobre a crise climática. O documento menciona a encíclica Laudato si’, do papa Francisco, que trata da preservação ambiental e da responsabilidade humana diante das mudanças climáticas.
A carta relaciona a atuação do PL no Congresso Nacional à flexibilização de normas ambientais e cita a Lei nº 15.190/2025, referente ao licenciamento ambiental, chamada pelos críticos de “Lei da Devastação”. Para os religiosos, a proteção da natureza integra os compromissos sociais da Igreja e não pode ser dissociada das decisões políticas.
Tortura, armas e democracia
As críticas também alcançam a segurança pública e a defesa das instituições democráticas. Os bispos condenam propostas de ampliação do acesso a armas e lembram as homenagens feitas por integrantes da família Bolsonaro ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido judicialmente como torturador durante a ditadura militar.
O manifesto recorre ao Compêndio da Doutrina Social da Igreja para destacar a condenação da tortura e a preocupação com a proliferação de armamentos. Na avaliação dos signatários, a defesa dessas práticas ou de políticas que ampliem sua ocorrência representa uma contradição com os valores cristãos.
A carta também menciona a condenação e a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro por sua participação na tentativa de ruptura democrática. Os religiosos afirmam que Flávio mantém posições políticas associadas ao pai e manifestam preocupação com os efeitos de uma eventual vitória do senador sobre a ordem constitucional.
O documento cita a encíclica Centesimus Annus, de João Paulo II, para defender a democracia e condenar a concentração do poder político em grupos que utilizem as instituições para atender a interesses particulares ou ideológicos.
Carta reconhece críticas a Lula
Embora concentre as críticas na candidatura de Flávio Bolsonaro, o manifesto reconhece que o governo Lula também está sujeito a questionamentos. Os religiosos, porém, estabelecem uma distinção entre a avaliação de políticas governamentais e o que consideram riscos aos fundamentos democráticos.
Segundo o documento, a candidatura do atual presidente demonstrou compromisso com a população mais pobre, com a preservação ambiental e com o respeito à ordem constitucional. Os bispos argumentam que a insatisfação com o governo não deve, por si só, justificar a escolha de um projeto político que consideram incompatível com os ensinamentos sociais da Igreja.
A manifestação não constitui uma declaração institucional da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), mas uma iniciativa coletiva dos religiosos signatários. No próprio texto, eles afirmam estar em comunhão com a entidade e alinhados à mensagem divulgada pelo Conselho Permanente da conferência em 21 de outubro.
Ao final, os bispos convocam os católicos a comparecer às urnas no próximo domingo (25), defendendo a democracia, os valores humanitários, a proteção dos pobres e os ensinamentos da Igreja. A manifestação reforça a participação de setores do episcopado brasileiro no debate político em um momento decisivo da disputa presidencial.
A versão da carta encaminhada à reportagem reúne 47 nomes, entre bispos e arcebispos em atividade e eméritos de diferentes estados brasileiros.
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