Em pleno Outubro Rosa, pacientes denunciam atrasos no tratamento oncológico e descumprimento de decisão judicial pela Amil
Beneficiários relatam autorizações direcionadas a outro hospital sem consentimento, demora em aplicações, informações sobre descredenciamento contestadas pelo IOP e possível compartilhamento irregular de dados de saúde; liminar da Justiça do Paraná garante continuidade do atendimento na instituição
Enquanto o Outubro Rosa reforça a importância do diagnóstico precoce e do acesso ao tratamento do câncer, pacientes de Curitiba relatam enfrentar dificuldades para dar continuidade à assistência médica pelo plano de saúde Amil. As denúncias envolvem atrasos em autorizações e aplicações de medicamentos, direcionamento para o Hospital Erasto Gaertner sem concordância dos beneficiários, informações sobre um suposto descredenciamento do Instituto de Oncologia do Paraná (IOP) e questionamentos sobre o compartilhamento de dados pessoais e médicos.
Os relatos são de pessoas em diferentes etapas do tratamento, incluindo pacientes com câncer de mama, linfoma de Hodgkin e doenças autoimunes. Há beneficiários que estão há anos sob os cuidados das mesmas equipes e outros que acabaram de receber o diagnóstico e dependem da liberação de medicamentos para iniciar ou manter o protocolo terapêutico.
Em comum, afirmam que foram informados de que o atendimento passaria a ser realizado no Erasto Gaertner, em alguns casos por ligações do próprio hospital, que já dispunha de informações sobre os pacientes e seus tratamentos. Parte deles recorreu à Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) para tentar permanecer no IOP.
Desde fevereiro, uma decisão liminar da Justiça do Paraná assegura a continuidade do atendimento desses pacientes no instituto. Segundo os beneficiários, as dificuldades para obter autorizações no local onde já realizam o tratamento persistem, apesar da decisão judicial e da manifestação de que desejam continuar com as equipes que conhecem seu histórico clínico.
Para quem enfrenta uma doença grave, a situação ultrapassa uma disputa administrativa entre operadora e prestadores de serviços. Os pacientes relatam insegurança diante da possibilidade de mudanças durante o tratamento, além do receio de que atrasos comprometam a eficácia dos procedimentos.
Paciente fez imunoterapia em outro hospital com medo de perder a aplicação
Um dos beneficiários, que realiza imunoterapia no IOP há aproximadamente um ano e meio, afirma ter desenvolvido uma relação de confiança com a instituição e seus profissionais.
“Estou tão acostumado com o lugar e com as pessoas que costumo dizer que o IOP virou nosso segundo lar. A gente se dá muito bem com toda a equipe”, relata.
Na aplicação mais recente, porém, ele afirma ter descoberto que o procedimento havia sido autorizado para o Hospital Erasto Gaertner, sem que tivesse solicitado a mudança. Segundo o paciente, o próprio hospital entrou em contato, já com seus dados, para informar que o tratamento seria realizado na instituição.
Como a data da aplicação estava próxima, ele decidiu fazer o procedimento no Erasto Gaertner, temendo que a tentativa de reverter a autorização provocasse um atraso.
“Minha aplicação já estava muito em cima da hora. Fiquei com medo de entrar naquele processo de ligar para um, falar com outro e acabar perdendo a aplicação. Por isso, fiz no Erasto. Mas eu não queria mudar. Quero continuar meu tratamento no IOP.”
O paciente afirma ter registrado reclamação na ANS e solicitado a continuidade do atendimento no instituto. Até o momento do relato, ainda não sabia onde realizaria a próxima sessão.
Paciente com câncer de mama questiona informações sobre descredenciamento
Uma paciente diagnosticada com câncer de mama em 2020 conta que realizou quimioterapia no IOP e retornou à instituição para dar continuidade ao acompanhamento e à medicação após outras etapas do tratamento.
Em fevereiro deste ano, ela afirma ter recebido um e-mail da Amil informando sobre o descredenciamento do instituto. Na sequência, recebeu uma mensagem pelo WhatsApp do Hospital Erasto Gaertner, comunicando que seu tratamento havia sido direcionado para lá e que seus dados tinham sido encaminhados pela operadora.
Segundo a paciente, o hospital chegou a marcar consultas, mas ela não aceitou a transferência e insistiu para permanecer no IOP.
Recentemente, relata ter recebido outra ligação da Amil sobre a mudança do atendimento.
“Eu perguntei: tem algum problema de descredenciamento? Perguntei por que queriam me transferir, porque eu estava muito contente com o IOP”, conta. Segundo ela, não houve esclarecimento para as perguntas.
A paciente afirma que conseguiu continuar o acompanhamento no instituto, mas permanece insegura diante das comunicações sobre a transferência e das informações que recebeu a respeito do credenciamento.
Aos 78 anos, paciente aguarda aplicação e relata dores
Aos 78 anos, uma beneficiária acompanhada há aproximadamente oito anos no IOP afirma que a possibilidade de mudança interrompeu a previsibilidade de um tratamento contínuo. Ela é atendida pela mesma médica e recebe periodicamente uma medicação biológica para tratar artrite reumatoide.
“Estou há uns oito anos no IOP e com a mesma médica. Ela conhece todo o meu histórico. Por que eu vou mudar?”, questiona.
Segundo a paciente, a Amil entrou em contato para perguntar se ela gostaria de realizar o tratamento no Erasto Gaertner. Ela recusou e questionou se o instituto havia deixado de integrar a rede credenciada.
Posteriormente, afirma ter sido procurada diretamente pelo hospital, que informou que o tratamento passaria a ser realizado lá. A paciente diz que nunca forneceu seus dados à instituição nem autorizou o compartilhamento de suas informações.
Ao consultar o aplicativo da operadora, encontrou a aplicação autorizada para o Erasto Gaertner. Ela decidiu não realizar o procedimento no hospital e afirma que aguarda a liberação para continuar no IOP.
“Quando começa a faltar uns 15 dias para a aplicação, já volto a sentir todo o incômodo de novo. Meus dedos estão doendo, inchando. E agora eu não sei quando vou conseguir fazer. Eu já deveria ter recebido minha aplicação hoje”, relata.
Ela afirma ter procurado os canais de atendimento e a ouvidoria da Amil, além da ANS, para tentar resolver a situação.
Diagnóstico de linfoma foi acompanhado por demora em autorizações
Outra paciente relata que a insegurança começou logo após receber o diagnóstico de linfoma de Hodgkin, em junho. Segundo ela, uma biópsia confirmou a doença, identificada pelo médico como estágio 3, e foi estabelecido um protocolo de seis ciclos, com 12 aplicações.
Enquanto aguardava as autorizações, afirma ter ligado repetidamente para a operadora. Parte das medicações foi liberada inicialmente, mas um dos medicamentos exigiu nova solicitação.
Dias depois, já com o protocolo em andamento, ela voltou a enfrentar demora relacionada a uma aplicação e procurou novamente a Amil e a ouvidoria.
“Quando a gente recebe um diagnóstico de câncer, o médico fala, mas parece que a gente não acredita. A primeira coisa que passa pela cabeça é que vai morrer. Eu estava desesperada para começar o tratamento”, conta.
Durante esse período, a paciente afirma ter recebido uma ligação informando que deveria transferir o tratamento para o Erasto Gaertner. Ela também relata que o hospital entrou em contato, já com seus dados, para informar que o atendimento seria realizado lá.
“Eu perguntei: ‘Como assim, mudar?’. Meu médico está lá, eu já comecei o tratamento lá, conheço toda a equipe. Eu queria começar e terminar no mesmo lugar, eu sei dos meus direitos. E não posso quebrar o ciclo, senão preciso começar o tratamento do zero”, afirma.
Os relatos mostram diferentes consequências da situação: um paciente que realizou uma aplicação em outro hospital por medo de perder a data, uma mulher de 78 anos que espera autorização enquanto sente o retorno dos sintomas e uma paciente recém-diagnosticada que precisou insistir para obter liberações durante o início do protocolo.
Compartilhamento de dados de saúde levanta questionamentos
Além da continuidade do atendimento, os pacientes questionam como informações sobre diagnósticos, medicamentos e procedimentos chegaram a outros prestadores de saúde antes de concordarem com a mudança.
Uma beneficiária que realiza tratamento no IOP afirma que recebia normalmente a medicação pela instituição até ser informada de que o fornecimento passaria a ocorrer por meio da 4Bio, clínica localizada em São Paulo, com entrega em sua residência, em Curitiba.
Ela diz que não havia solicitado a alteração e questionou como seria garantida a conservação do medicamento durante o transporte, já que o produto exige refrigeração.
Ao consultar o aplicativo da Amil, encontrou dois pedidos relacionados à medicação: um vinculado ao IOP e outro atribuído à 4Bio. Segundo ela, o segundo pedido apareceu posteriormente como cancelado por duplicidade.
A situação se agravou durante uma viagem, quando recebeu três e-mails da 4Bio. Um deles continha uma nota fiscal e informações pessoais e médicas de outra paciente, incluindo nome, CPF e dados relacionados à medicação utilizada.
“Eu não mandei prescrição, relatório, nada. Quando recebi informações de outra pessoa, decidi não mandar. Se eu recebi dados dela, fiquei pensando no que poderia acontecer com os meus”, relata.
A paciente afirma que seus dados foram repassados pela Amil à clínica sem que tivesse solicitado a mudança. O episódio levanta uma questão adicional: além de esclarecer a origem das informações utilizadas para direcionar os tratamentos, é necessário apurar como dados de uma beneficiária foram encaminhados a outra pessoa por meio de uma comunicação da prestadora.
A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) classifica informações de saúde como dados pessoais sensíveis, submetidos a regras específicas de tratamento. O compartilhamento pode ocorrer em hipóteses previstas na legislação, inclusive em determinadas situações relacionadas à tutela da saúde, mas precisa ter fundamento legal e respeitar os princípios de finalidade, adequação e necessidade.
Por isso, os relatos exigem esclarecimentos sobre quais informações foram compartilhadas, com quais instituições, para qual finalidade e com que fundamento legal. Também é necessário apurar as circunstâncias do envio dos documentos pertencentes à outra paciente.
Decisão judicial e regras da ANS
A continuidade do atendimento no IOP é um dos principais pontos da controvérsia. Segundo as informações apresentadas pelos pacientes, a liminar concedida pela Justiça do Paraná em fevereiro garante que o tratamento seja mantido na instituição.
Os beneficiários afirmam que, apesar da decisão, têm enfrentado autorizações direcionadas a outro hospital e dificuldades para realizar procedimentos no local em que já são acompanhados.
A regulamentação da ANS estabelece condições para alterações na rede assistencial das operadoras, incluindo exigências de comunicação e critérios específicos para substituição de prestadores. A aplicação dessas regras depende das circunstâncias de cada caso, do tipo de prestador e da situação contratual.
No caso relatado, o IOP sustenta que permanece credenciado à Amil. Essa informação torna necessário esclarecer por que pacientes dizem receber comunicações de transferência e encontrar procedimentos autorizados para outra instituição, mesmo manifestando expressamente o desejo de continuar no instituto.
Também cabe esclarecer se os procedimentos adotados pela operadora estão de acordo com a decisão judicial e com as normas aplicáveis da ANS. A avaliação sobre eventual descumprimento da liminar e irregularidades no tratamento de dados depende da análise dos fatos e das manifestações das partes envolvidas.
Atrasos preocupam pacientes em tratamento contra o câncer
A preocupação com o tempo não é apenas emocional. Um estudo publicado em 2020 no British Medical Journal (BMJ), que reuniu dados de mais de 1,2 milhão de pacientes, identificou associação entre atrasos de quatro semanas no tratamento e aumento da mortalidade em diferentes tipos de câncer, incluindo o de mama. O impacto varia conforme o tipo de tratamento e a doença.
Para quem depende de quimioterapia, imunoterapia ou outros medicamentos em intervalos definidos, a demora na autorização pode provocar insegurança e exigir intervenções para evitar interrupções. Os efeitos clínicos de cada atraso, porém, dependem do protocolo prescrito e devem ser avaliados pela equipe responsável.
O contexto reforça a relevância das denúncias. A estimativa nacional do Instituto Nacional de Câncer (Inca) aponta cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano no Brasil no triênio 2026–2028. No Paraná, a previsão para 2026 é de 45.910 novos casos de neoplasias malignas, incluindo câncer de pele não melanoma. Desse total estimado, 4.300 correspondem ao câncer de mama no Estado, dos quais 820 em Curitiba.
É justamente durante o Outubro Rosa, período de mobilização pela prevenção, pelo diagnóstico precoce e pelo acesso ao tratamento do câncer de mama, que os pacientes decidiram tornar públicas as dificuldades relatadas.
Para eles, a questão central é garantir que decisões administrativas não coloquem em risco a continuidade da assistência e que informações médicas sejam tratadas com a proteção exigida por lei.
IOP afirma que continua credenciado
Procurado, o Instituto de Oncologia do Paraná informou que continua credenciado e que está fazendo todos os esforços para acolher, amparar e resolver os problemas dos pacientes impactados.
O instituto também declarou repudiar atos de ilegalidade e desrespeito entre agentes de um setor que, segundo a manifestação, deveria trabalhar para salvar vidas, e não provocar medo, revolta e insegurança.
Os relatos apresentados apontam para a necessidade de esclarecimentos da Amil e do Hospital Erasto Gaertner sobre os critérios utilizados para direcionar os tratamentos, as autorizações emitidas, o contato direto com os beneficiários e o compartilhamento de informações pessoais e médicas.
Para os pacientes, a prioridade é objetiva: continuar o tratamento no local em que escolheram ser atendidos, sem atrasos evitáveis e sem precisar enfrentar uma nova disputa a cada aplicação. Em meio às campanhas do Outubro Rosa, eles cobram que o direito à assistência seja acompanhado de segurança, transparência e respeito à decisão judicial.
O que diz a Amil
A Amil informa que possui em Curitiba instituições credenciadas em oncologia aptas a prestar atendimento médico de excelência aos seus beneficiários.
Em fevereiro deste ano, a operadora reorganizou sua rede assistencial na cidade e comunicou ao IOP as alterações em seu credenciamento, bem como aos beneficiários assistidos, em estrita conformidade com a regulamentação vigente.
É importante destacar que a opção oferecida possui todos os níveis de atendimento para um paciente oncológico, desde terapias ambulatoriais, internações e até transplante.
A Amil adota um plano de acolhimento no qual o cliente é informado sobre a mudança com 30 dias de antecedência. Nessa interação, são apresentadas opções equivalentes para a continuidade do tratamento, esclarecidas eventuais dúvidas e solicitada autorização para o contato do novo prestador. Todo o processo é conduzido por um equipe especializada multidisciplinar, com atenção à conclusão dos ciclos terapêuticos e ao monitoramento da satisfação dos beneficiários.
Sobre a discussão judicial em curso, a Amil esclarece que ela está relacionada às condições contratuais entre a operadora e o IOP e, portanto, não se confunde com a assistência devida aos beneficiários, que continua sendo plenamente assegurada.
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