Do tio à irmã: documentos revelam parentes de Sandro Alex em cargos públicos no Paraná
Gabinete de Marcelo Rangel atuou em indicações envolvendo o próprio tio, enquanto Giovanna Cruz de Oliveira aparece em registros da Assembleia; documentos ajudam a reconstruir a presença da família na estrutura pública.**
Enquanto Sandro Alex disputa o Governo do Paraná, documentos públicos ajudam a reconstruir uma parte menos conhecida da trajetória da família Oliveira nas estruturas do Estado.
A apuração da Gazeta do Paraná encontrou documentos relacionados a indicações de Ricardo Luiz Torquato de Linhares, tio de Sandro Alex e Marcelo Rangel, para funções públicas. Os papéis remontam ao período em que Marcelo era deputado estadual e registram movimentações de seu gabinete envolvendo o próprio parente.
A apuração também localizou a irmã dos dois políticos, Giovanna Paola Cruz de Oliveira, em registros funcionais da Assembleia Legislativa do Paraná.
Os documentos não permitem, isoladamente, afirmar a ocorrência de nepotismo. A caracterização jurídica depende de fatores como a autoridade responsável pela nomeação, a natureza do cargo e eventual relação de subordinação. O que os registros revelam objetivamente é a presença de integrantes da família em diferentes estruturas públicas e, no caso de Ricardo, documentos relacionados à atuação política para sua indicação.
O tio indicado para o Conselho da Sanepar
Um dos documentos mais antigos localizados pela reportagem é de janeiro de 2011.
Na época, Marcelo Rangel exercia mandato na Assembleia Legislativa. O expediente dirigido à Casa Civil apresenta Ricardo Luiz Torquato de Linhares para uma vaga no Conselho Fiscal da Sanepar. Ricardo é tio de Marcelo Rangel e de Sandro Alex.

O documento ganha relevância justamente por não se limitar a revelar posteriormente que um parente ocupou determinado posto. Ele registra uma movimentação política envolvendo o nome do familiar para uma função na estrutura estadual. E não foi o único documento encontrado.
Um ano depois, outro cargo
Em fevereiro de 2012, aparece uma nova movimentação envolvendo Ricardo.
Desta vez, expediente relacionado ao gabinete encaminha os dados do tio de Marcelo para ocupar um cargo na Secretaria de Estado do Esporte, em Curitiba.

A documentação mostra, portanto, que o nome de Ricardo apareceu em indicações para diferentes estruturas estaduais em um intervalo relativamente curto.
Meses depois, surge um terceiro documento. Em julho de 2012, um novo expediente solicita a substituição de Ricardo por Louise Cruz de Linhares.
É justamente nesse documento que aparece uma expressão especialmente reveladora sobre a natureza política da vaga: o posto é tratado como cargo “de minha indicação”.
Os três papéis, vistos em conjunto, documentam uma sequência: primeiro o nome de Ricardo aparece para o Conselho Fiscal da Sanepar; depois, para uma função na Secretaria do Esporte; por fim, há pedido de substituição relacionado à vaga.
A indicação política para cargo público não configura automaticamente irregularidade. O parentesco entre indicado e agente político também não permite, sozinho, concluir pela existência de nepotismo. Mas os documentos demonstram que Ricardo não apareceu casualmente anos depois na estrutura pública: seu nome já circulava em indicações relacionadas ao núcleo político do sobrinho.
Ricardo efetivamente entrou na estrutura pública
A trajetória posterior de Ricardo mostra que sua passagem pelo poder público não ficou apenas nos documentos de indicação.
Em 2011, ele foi diretor administrativo e financeiro do Teatro Guaíra. Anos depois, com Marcelo Rangel já eleito prefeito de Ponta Grossa, Ricardo passou a integrar a administração municipal.
Durante a gestão do sobrinho, ocupou funções como chefe de gabinete e secretário municipal, chegando à Secretaria Municipal de Administração e Recursos Humanos. Registros da época também apontam passagem pela Secretaria de Governo e pela presidência da Funepo.
Quando Marcelo iniciou seu segundo mandato, em 2017, Ricardo foi mantido no primeiro escalão municipal.
A relação entre os dois, portanto, atravessou momentos diferentes: documentos relacionados a indicações no período em que Marcelo estava na Assembleia e, posteriormente, participação efetiva do tio na administração comandada pelo sobrinho em Ponta Grossa.
E Ricardo voltou ao Estado
A trajetória não terminou com a Prefeitura. Atos oficiais mostram que Ricardo voltou à estrutura do Governo do Paraná.
Em junho de 2022, decreto assinado pelo governador Ratinho Junior nomeou Ricardo Luiz Torquato de Linhares para exercer o cargo comissionado de assessor, símbolo DAS-3, na Casa Civil, a partir de 1º de julho daquele ano.
Posteriormente, ele passou a exercer atividades ligadas à estrutura regional do Estado em Ponta Grossa.
Registros oficiais da Secretaria das Cidades também mostram Ricardo entre os nomes vinculados à regional de Ponta Grossa. A designação foi posteriormente revogada em junho de 2025.
A sequência encontrada pela reportagem atravessa, assim, mais de uma década: documentos de 2011 e 2012, passagem pela administração de Marcelo Rangel e retorno posterior à estrutura estadual.
A irmã dos dois políticos também aparece na Assembleia
Ricardo não é o único integrante da família encontrado pela Gazeta em registros públicos.
Giovanna Paola Cruz de Oliveira, irmã de Sandro Alex e Marcelo Rangel, aparece em registros funcionais da Assembleia Legislativa do Paraná.
Uma consulta ao Portal da Transparência da Alep localizou Giovanna como servidora comissionada, matrícula 3016707, nível G5, com lotação na Comissão de Educação.
Em maio de 2020, por exemplo, o portal registra R$ 14.463 referentes ao cargo em comissão e R$ 1.805,73 em benefícios. A remuneração bruta indicada naquele mês chega a R$ 16.268,73. Depois dos descontos obrigatórios apresentados pelo sistema, o valor registrado é de R$ 12.695,92.
A presença de Giovanna na Assembleia, entretanto, não começou em 2020.
Documentos levantados pela reportagem mostram seu nome em registros da Alep anos antes. E a relação já havia chegado ao debate público em 2014.
Naquele ano, Sandro Alex e Marcelo Rangel procuraram a Polícia Federal após a circulação de um panfleto apócrifo contra os irmãos. Reportagem publicada à época registra que o material fazia acusações de nepotismo e expunha, entre outros familiares, Giovanna, identificada então como funcionária da Assembleia Legislativa.
Sandro e Marcelo contestaram o material e buscaram a Polícia Federal para identificar seus responsáveis.
O episódio não comprova as acusações feitas no panfleto. Mas demonstra que a presença da irmã na Assembleia já era publicamente conhecida pelo menos em 2014.
Cargo comissionado não significa automaticamente nepotismo
A existência dos vínculos familiares exige uma distinção importante.
A nomeação de um parente para a administração pública pode ser alcançada pelas regras contra nepotismo em determinadas circunstâncias, mas o simples parentesco não permite enquadrar automaticamente qualquer ocupação de cargo público como irregular.
É necessário saber, entre outros elementos, quem possuía competência para nomear, qual era a natureza do cargo, a estrutura de subordinação e se houve eventual nomeação cruzada.
Por isso, a Gazeta do Paraná não afirma, a partir dos documentos encontrados até agora, que as nomeações constituíram nepotismo.
O fato documental é outro: parentes próximos de Sandro Alex e Marcelo Rangel aparecem durante anos em estruturas públicas e, no caso de Ricardo, há papéis registrando movimentações relacionadas à sua indicação para funções estaduais.
Uma história que começou antes da candidatura ao governo
A relevância desses documentos ganha outra dimensão em 2026.
Sandro Alex não disputa mais apenas um mandato parlamentar. Ele concorre ao Governo do Paraná e apresenta sua trajetória política ao eleitorado de todo o Estado.
Essa trajetória nasceu em Ponta Grossa e está profundamente ligada à família Oliveira.
Sandro e Marcelo construíram carreiras próprias e ocuparam diferentes cargos eletivos. Isso não torna Sandro responsável por atos administrativos praticados pelo irmão, pelo tio, pela irmã ou por qualquer outro familiar.
Da mesma maneira, parentesco não transforma automaticamente uma nomeação em irregularidade.
Mas os documentos encontrados pela reportagem permitem olhar para além das biografias individuais.
Eles mostram que, enquanto os irmãos ampliavam sua influência política, outros integrantes da família também passaram por estruturas públicas.
No caso de Ricardo Linhares, os registros permitem acompanhar uma trajetória que começa em documentos relacionados a indicações estaduais, passa pelo primeiro escalão da Prefeitura administrada pelo sobrinho e chega novamente ao Governo do Paraná.
No caso de Giovanna, os registros mostram uma passagem prolongada pela Assembleia Legislativa, já conhecida publicamente há mais de uma década.
É uma parte da história da família Oliveira que ganha interesse estadual justamente no momento em que um de seus integrantes pede aos eleitores para comandar o Paraná.
Esta é a primeira reportagem da série especial “Os Oliveira”, em que a Gazeta do Paraná reconstrói, a partir de documentos públicos, a trajetória política, empresarial e familiar do grupo de Ponta Grossa do qual surgiu o candidato ao Governo Sandro Alex.
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