Gcast
Antonio Carlos Kakay Antonio Carlos Kakay Antonio Carlos Kakay Cidinha Marcon Cidinha Marcon Cidinha Marcon Julia Maraschi Julia Maraschi Julia Maraschi Marcos Formighieri Marcos Formighieri Marcos Formighieri Oswaldo Eustáquio Oswaldo Eustáquio Oswaldo Eustáquio Roberto Veloso Roberto Veloso Roberto Veloso Sergio Ricardo Sergio Ricardo Sergio Ricardo
Público › Economia

Crise de banco no Paraguai chega à fronteira com o Paraná e ameaça comércio de Ciudad del Este

Intervenção no Ueno Bank bloqueia contas, deixa clientes sem acesso ao dinheiro e provoca alerta de empresários sobre possível paralisação das vendas; crise pode atingir trabalhadores, comerciantes e fornecedores ligados à economia paranaense

Gazeta do Paraná · · 8 min de leitura
Ueno Bank
Ueno Bank — Crédito: Divulgação

A intervenção do Banco Central do Paraguai no Ueno Bank, uma das maiores instituições financeiras do país, chegou à fronteira com o Paraná nesta terça-feira (3) e provocou preocupação entre comerciantes, trabalhadores e correntistas de Ciudad del Este. Na cidade paraguaia, separada de Foz do Iguaçu pela Ponte da Amizade, centenas de clientes procuraram uma agência bancária em busca de informações sobre suas economias, enquanto entidades empresariais alertaram para o risco de paralisação parcial do comércio. A crise financeira pode ter reflexos também sobre brasileiros que trabalham, mantêm negócios ou possuem relações comerciais no país vizinho.

A situação é especialmente sensível para o Oeste do Paraná, cuja economia mantém relações comerciais com o Paraguai. Ciudad del Este concentra estabelecimentos que recebem consumidores brasileiros e integra uma rede de negócios que envolve importadores, distribuidores, transportadores e prestadores de serviços dos dois lados da fronteira. Embora ainda não exista um levantamento de prejuízos sofridos por empresas paranaenses, a suspensão das operações de uma instituição financeira utilizada por milhões de paraguaios abre a possibilidade de dificuldades em pagamentos e transações comerciais.

O Banco Central do Paraguai anunciou a intervenção depois de constatar que o índice de solvência do Ueno Bank havia caído para menos de 50% do mínimo exigido pela legislação. A decisão foi aprovada por unanimidade na segunda-feira (2) e divulgada na madrugada desta terça-feira. Com a medida, foram suspensos os serviços bancários, incluindo transferências, movimentações de contas, saques e utilização de cartões emitidos pela instituição.

Clientes encontram agência fechada na fronteira

Em Ciudad del Este, centenas de correntistas procuraram a unidade do Ueno Bank localizada na Avenida Julio César Riquelme, no bairro Ciudad Nueva, na região do quilômetro 7. Segundo o jornal paraguaio Última Hora, os clientes encontraram a agência fechada e passaram a cobrar explicações sobre a disponibilidade dos recursos depositados.

Entre os correntistas estavam trabalhadores preocupados com a impossibilidade de acessar salários e economias. Um dos clientes ouvidos pelo jornal, identificado como Víctor Cañete, relatou a insegurança provocada pela suspensão das movimentações. Outros usuários procuraram a instituição para tentar retirar dinheiro, mas não conseguiram atendimento.

O episódio evidencia uma das particularidades da crise na região de fronteira. Ciudad del Este mantém intensa circulação de trabalhadores, consumidores e empresários brasileiros, especialmente moradores de Foz do Iguaçu e de municípios do Oeste paranaense. Para quem utiliza contas bancárias paraguaias no exercício de atividades profissionais ou empresariais, a interrupção dos serviços pode representar dificuldades imediatas para cumprir compromissos financeiros.

Comércio teme paralisação

A Associação de Importadores e Comerciantes do Paraguai (Asimcopar) divulgou um comunicado manifestando preocupação com as consequências da intervenção. Segundo a entidade, duas em cada três operações eletrônicas realizadas nas multiloja s paraguaias passam por contas do Ueno Bank, o que demonstra a participação da instituição nas transações comerciais do país.

A associação advertiu que a suspensão dos serviços poderá provocar uma semiparalisação do mercado, com consequências para estabelecimentos comerciais e demais integrantes da cadeia de negócios. A estimativa apresentada pelo setor não corresponde a um levantamento oficial de transações, mas revela a dimensão da preocupação entre empresários.

A situação pode ser particularmente delicada para comerciantes que utilizam o banco para receber pagamentos de clientes e posteriormente quitar compromissos com fornecedores. Com os valores temporariamente indisponíveis, empresas podem enfrentar dificuldades para repor estoques, pagar despesas e manter suas atividades.

No caso de Ciudad del Este, esses problemas podem ultrapassar a fronteira. Empresas brasileiras que fornecem mercadorias ou prestam serviços a estabelecimentos paraguaios podem enfrentar atrasos caso seus clientes tenham recursos bloqueados. Até o momento, porém, não há confirmação pública de fornecedores paranaenses que tenham registrado perdas diretamente relacionadas à intervenção.

Pequenos negócios podem enfrentar dificuldades por até 30 dias

O presidente da Federação Paraguaia de Micro, Pequenas e Médias Empresas (Fedemipymes), Luis Tavella, alertou que a crise poderá comprometer as atividades de pequenos negócios durante um período de 15 a 30 dias.

Segundo o dirigente, o Ueno Bank ampliou o acesso de empreendedores ao sistema financeiro, atendendo segmentos que anteriormente encontravam dificuldades para abrir contas ou obter serviços bancários. Por isso, a suspensão das operações atinge empresas que dependem da instituição para receber vendas e financiar a compra de mercadorias.

O impacto pode ser ainda mais significativo diante da proximidade das vendas de fim de ano. Novembro, dezembro e janeiro representam meses importantes para o comércio paraguaio, especialmente para estabelecimentos que dependem do movimento de consumidores.

Tavella também pediu cautela para evitar que a crise de uma instituição provoque uma perda generalizada de confiança no sistema financeiro. O Banco Central paraguaio sustenta que o problema é específico do Ueno Bank e não representa uma situação generalizada de insolvência no país.

Brasileiros podem ser afetados?

Os efeitos sobre brasileiros dependem do tipo de relação financeira mantida com o Paraguai. Trabalhadores que recebem salários em contas do Ueno Bank, empresários que utilizam a instituição para movimentar recursos e pessoas que mantêm economias depositadas no banco estão diretamente sujeitos às restrições anunciadas.

A situação é diferente para consumidores brasileiros que apenas atravessam a Ponte da Amizade para fazer compras. Cartões emitidos por instituições brasileiras não foram bloqueados pela intervenção. Entretanto, estabelecimentos paraguaios que dependam dos serviços do Ueno podem enfrentar dificuldades para receber pagamentos ou manter determinadas operações.

Outro possível reflexo envolve empresas do Paraná que mantêm relações comerciais com clientes paraguaios. A indisponibilidade temporária de recursos pode comprometer pagamentos e a reposição de mercadorias, embora ainda não existam dados que permitam dimensionar eventuais prejuízos na economia paranaense.

Também não foi divulgado um levantamento sobre o número de brasileiros com contas no Ueno Bank ou sobre a quantidade de empresas do Oeste do Paraná que utilizam diretamente os serviços da instituição.

Depósitos têm garantia, mas dinheiro segue indisponível

O Banco Central do Paraguai informou que os depósitos possuem cobertura do Fundo de Garantia de Depósitos até o limite de 228,3 milhões de guaranis por pessoa física ou jurídica, em cada instituição financeira. A garantia corresponde a 75 salários mínimos paraguaios e é aplicada ao conjunto dos depósitos de cada cliente, não individualmente a cada conta.

As autoridades estabeleceram um prazo de até 15 dias para concluir uma etapa do procedimento de resolução, que envolve a identificação dos ativos e passivos da instituição. O Banco Central também anunciou um primeiro pagamento de até 10 milhões de guaranis aos depositantes, por meio do fundo garantidor, com procedimentos complementares para os demais valores cobertos.

A existência da garantia não significa que os recursos possam ser movimentados imediatamente. Enquanto os mecanismos de restituição são organizados, os clientes permanecem sujeitos às restrições operacionais. Para valores superiores ao limite garantido, a recuperação dependerá dos procedimentos previstos na legislação paraguaia.

Crise financeira também provoca reação política

A intervenção atingiu uma instituição com aproximadamente três milhões de clientes e cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos administrados, incluindo valores ligados ao sistema previdenciário paraguaio.

A crise também provocou a renúncia do presidente do Banco Central do Paraguai, Carlos Carvallo, após solicitação do presidente Santiago Peña. Carvallo havia ocupado funções no Ueno Bank, enquanto Peña manteve vínculos empresariais anteriores com o grupo controlador da instituição.

As autoridades paraguaias investigam operações de crédito envolvendo empresas relacionadas aos controladores do banco. Segundo o Banco Central, a identificação dessas operações exigiu análise da movimentação dos recursos e contribuiu para os ajustes financeiros que culminaram na intervenção.

O episódio também mobilizou o Congresso paraguaio. A Câmara dos Deputados convocou uma sessão extraordinária para quarta-feira (4), com o objetivo de discutir um projeto de lei destinado a ampliar excepcionalmente a proteção dos recursos públicos depositados no Ueno Bank, incluindo fundos previdenciários.

Fronteira acompanha os desdobramentos

Para a região de Foz do Iguaçu, a principal preocupação econômica está na capacidade de recuperação das operações comerciais de Ciudad del Este. A cidade paraguaia funciona como um dos principais polos de compras da fronteira e mantém relações econômicas com municípios brasileiros, especialmente no Oeste do Paraná.

A extensão dos efeitos dependerá da velocidade com que os depósitos forem restituídos e da capacidade das empresas paraguaias de transferir suas operações para outras instituições financeiras. A proximidade das vendas de fim de ano aumenta a preocupação dos comerciantes, que dependem da circulação de consumidores e da disponibilidade de recursos para manter os estoques.

Enquanto as autoridades paraguaias trabalham na resolução da instituição, a crise já produz consequências concretas em Ciudad del Este, com clientes sem acesso ao dinheiro e empresários alertando para dificuldades operacionais. Do lado brasileiro, o impacto econômico ainda precisa ser mensurado, mas a integração comercial entre os dois países coloca o Paraná entre as regiões que podem sentir os reflexos da intervenção.

Compartilhar: f X W T

Comentários (0)

  • Seja o primeiro a comentar.