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Vitória democrata nos EUA limita agenda de Trump e pode influenciar dólar e juros no Brasil

Oposição conquistou maioria na Câmara e no Senado e terá poder para barrar propostas do presidente; resultado já repercute nos mercados, com recuo do dólar e dos rendimentos dos títulos americanos

Repórter Gazeta do Paraná · · 6 min de leitura
Vitória democrata nos EUA limita agenda de Trump e pode influenciar dólar e juros no Brasil
— Crédito: Divulgação

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vitória do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, realizadas na terça-feira (3), mudou o equilíbrio de forças no Congresso americano e impôs novos obstáculos à agenda do presidente Donald Trump. Com o controle da Câmara dos Representantes e do Senado, a oposição terá mais poder para barrar propostas do governo, fiscalizar a administração e influenciar decisões econômicas. O resultado também repercute nos mercados internacionais e pode afetar o comportamento do dólar, dos juros e dos investimentos no Brasil.

Até a manhã desta quarta-feira (4), os democratas haviam conquistado 228 das 435 cadeiras da Câmara, acima das 218 necessárias para garantir a maioria. No Senado, o partido alcançou 54 das 100 cadeiras, incluindo os independentes que atuam em sua bancada. Ainda havia disputas em apuração, mas a mudança no comando das duas Casas já estava confirmada. 

As eleições de meio de mandato, conhecidas como midterms, renovam todos os assentos da Câmara e aproximadamente um terço do Senado. A votação não altera o comando da Presidência, mas define a composição do Congresso pelos próximos dois anos. Os novos parlamentares assumem em janeiro de 2027.

Trump terá mais obstáculos no Congresso

Com a maioria nas duas Casas, os democratas passam a controlar a pauta legislativa e as comissões parlamentares. Também poderão ampliar a fiscalização sobre o governo, abrir investigações e dificultar a aprovação de projetos relacionados a gastos públicos, impostos e outras medidas defendidas por Trump.

O presidente, porém, mantém o poder de veto sobre projetos aprovados pelo Congresso. Para derrubar um veto presidencial, os parlamentares precisam reunir dois terços dos votos na Câmara e no Senado.

A nova composição também amplia a influência democrata sobre a análise de indicações para cargos que dependem de aprovação do Senado. O resultado, portanto, não impede o governo de atuar, mas torna mais difícil aprovar propostas que dependam de apoio legislativo.

A derrota republicana ocorre em meio ao desgaste político de Trump e à insatisfação de parte dos eleitores com o custo de vida nos Estados Unidos. Durante a campanha, o preço dos combustíveis e as despesas das famílias estiveram entre os temas que pressionaram o debate eleitoral.

Resultado já repercute nos mercados

A mudança no controle do Congresso provocou reações nos mercados internacionais. Nesta quarta-feira, o dólar recuou diante de outras moedas, enquanto os títulos do Tesouro americano registraram valorização e os rendimentos caíram.

Investidores avaliam que o controle democrata pode dificultar a aprovação de novas medidas de estímulo fiscal, como cortes de impostos e ampliação de gastos, reduzindo a pressão sobre o endividamento do governo americano. A perspectiva de maior regulação sobre o setor de tecnologia e inteligência artificial também entrou no cálculo dos mercados, diante da possibilidade de impacto sobre o crescimento econômico.

Os rendimentos dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos são uma referência para o mercado financeiro global. Quando esses papéis oferecem retornos mais elevados, podem atrair recursos de investidores internacionais, que passam a buscar aplicações consideradas mais seguras em detrimento de mercados emergentes.

Com a queda dos rendimentos americanos, parte desse movimento pode perder força, favorecendo a procura por ativos de países como o Brasil. Nesse cenário, o real pode ganhar espaço diante do dólar e as taxas de juros negociadas para períodos futuros podem recuar.

Na manhã desta quarta-feira, o dólar era negociado em torno de R$ 5,46, após recuo acompanhado pelo enfraquecimento da moeda americana no mercado internacional. O movimento, porém, também ocorre em meio a fatores internos, incluindo as expectativas sobre a política fiscal brasileira e a decisão do Banco Central em relação à taxa Selic. 

Efeitos sobre investimentos no Brasil

A reação dos mercados não significa que o resultado das eleições americanas determinará sozinho o rumo do câmbio ou dos juros brasileiros. O comportamento dessas variáveis depende também das decisões do Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, do desempenho da economia americana, das contas públicas brasileiras e do cenário internacional.

Uma eventual redução dos juros americanos pode tornar aplicações em países emergentes mais atrativas. Com maior entrada de recursos, o Brasil poderia registrar valorização do real e queda nas taxas futuras de juros. Isso tende a favorecer empresas que dependem de crédito e investimentos, além de reduzir parte da pressão sobre o custo de financiamento.

Por outro lado, conflitos entre a Casa Branca e o Congresso podem aumentar a incerteza política e provocar oscilações nos mercados. A dificuldade de aprovar o orçamento e outras medidas econômicas também pode afetar as expectativas dos investidores.

Na Bolsa brasileira, os efeitos podem variar conforme o setor. Empresas exportadoras podem se beneficiar de um dólar mais alto, mas também ficam expostas a mudanças nos preços das commodities e na demanda internacional. Já companhias mais endividadas e segmentos dependentes de crédito, como varejo e construção, tendem a sentir os efeitos de juros elevados.

Relação entre Trump e Lula entra no radar

A relação entre os governos de Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também permanece entre os fatores observados pelos investidores. Os dois países já tiveram atritos comerciais e diplomáticos, incluindo a imposição de tarifas sobre produtos brasileiros e medidas adotadas pelo governo americano com base em legislações comerciais.

Com a maioria democrata no Congresso, Trump poderá encontrar mais resistência para avançar com novas medidas legislativas relacionadas ao comércio exterior. A oposição também terá maior capacidade de fiscalizar decisões do Executivo e questionar ações da administração.

Isso, entretanto, não significa o fim das tarifas adotadas pelo presidente. A legislação americana prevê diferentes instrumentos para impor taxas sobre produtos importados, entre eles a Seção 232, relacionada à segurança nacional, e a Seção 301, utilizada em casos de práticas comerciais consideradas desleais.

Em fevereiro, a Suprema Corte dos Estados Unidos derrubou tarifas impostas por Trump com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA). A decisão, no entanto, não alcançou as medidas fundamentadas nas Seções 232 e 301, que possuem bases legais distintas.

Para o Brasil, o cenário dependerá tanto das decisões comerciais de Washington quanto da condução da política econômica doméstica. A vitória democrata pode alterar as condições externas de financiamento e o fluxo de investimentos, mas o comportamento do dólar e dos juros continuará condicionado a uma combinação de fatores internos e internacionais.

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