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Cidades que deram vitória à direita também colocaram petistas entre os mais votados

Levantamento dos resultados das eleições de 2026 no Paraná revela contrastes entre as escolhas para presidente, governador, Senado e Legislativo. Em municípios onde Flávio Bolsonaro e Sergio Moro venceram, candidatos do PT lideraram disputas para deputado federal.

Gazeta do Paraná · · 9 min de leitura
Cidades que deram vitória à direita também colocaram petistas entre os mais votados

Em Diamante d’Oeste, no Oeste do Paraná, a eleição de 2026 produziu um retrato que dificilmente caberia em um mapa dividido apenas entre direita e esquerda. Lula venceu a disputa presidencial com 1.555 votos, equivalentes a 52,62% dos válidos. Para governador, o município também deu a vitória a Requião Filho, apoiado pelo presidente. Mas, quando a apuração avançou para o Senado, a Câmara Federal e a Assembleia Legislativa, as preferências eleitorais ganharam outras cores.

Gleisi Hoffmann, do PT, liderou a votação para o Senado com 1.410 votos. Na sequência apareceram Filipe Barros, do PL, com 1.118, e Deltan Dallagnol, do Novo, com 1.006. Para deputado federal, o mais votado foi Dilceu Sperafico, do PP, com 482 votos, seguido por Zeca Dirceu, do PT, com 315. Já na eleição para deputado estadual, Zado, do PL, terminou em primeiro, com 528 votos, enquanto Professor Lemos, do PT, ficou em terceiro, com 202.

O resultado revela uma característica que também aparece em outros municípios paranaenses: a preferência por um campo político na disputa presidencial não determina necessariamente quais candidatos terão maior votação nos demais cargos.

Em cidades onde Flávio Bolsonaro e Sergio Moro venceram, candidatos petistas conquistaram a liderança na disputa para deputado federal. Em outras, os resultados para governador contrariaram as alianças anunciadas pelos presidenciáveis durante a campanha.

Os números mostram que a polarização nacional, embora tenha marcado profundamente a eleição, não é suficiente para explicar todas as escolhas feitas nas urnas.

 

Flávio venceu, mas Zeca Dirceu liderou

Em Cruzeiro do Oeste, no Noroeste paranaense, Flávio Bolsonaro conquistou 7.335 votos para presidente, equivalentes a 60,35% dos válidos. Sergio Moro, apoiado pelo presidenciável, também venceu a disputa pelo governo estadual, com mais da metade dos votos.

O resultado das duas eleições majoritárias parecia confirmar a predominância conservadora no município. Entretanto, na escolha para deputado federal, o cenário foi diferente.

Zeca Dirceu, do PT, terminou em primeiro lugar com 4.101 votos. O segundo colocado, Felipe Francischini, recebeu 717. A vantagem do petista foi expressiva: sua votação correspondeu a quase seis vezes a do concorrente mais próximo.

A liderança de Zeca Dirceu em uma cidade onde Flávio Bolsonaro ultrapassou 60% dos votos válidos evidencia que a disputa legislativa não reproduziu a mesma distribuição de forças observada na eleição presidencial.

Isso não significa, necessariamente, que os mesmos eleitores tenham escolhido Flávio e Zeca Dirceu. Lula recebeu 4.065 votos para presidente no município, quantidade próxima à votação obtida pelo deputado. Os dados municipais não permitem identificar individualmente a combinação de votos feita por cada pessoa.

Ainda assim, o resultado mostra que a força de uma candidatura petista no Legislativo pode conviver com uma ampla vantagem da direita na eleição presidencial.

 

Em Guaporema, Sandro venceu Moro

A situação se repetiu em Guaporema, também no Noroeste, mas com uma diferença importante na disputa pelo governo estadual.

Flávio Bolsonaro venceu para presidente com 859 votos, equivalentes a 58,32% dos válidos. Para governador, entretanto, o vencedor não foi Sergio Moro, candidato que recebeu o apoio declarado do presidenciável.

A preferência ficou com Sandro Alex, apoiado por Ratinho Junior, que conquistou 836 votos, ou 59,46%. Moro recebeu 359 votos, enquanto Requião Filho somou apenas 208.

A disputa estadual revelou, portanto, uma divisão dentro do próprio campo conservador. Mesmo com o apoio de Flávio Bolsonaro a Moro, o candidato de Ratinho Junior conseguiu uma votação muito superior no município.

Na eleição para deputado federal, surgiu outro contraste. Zeca Dirceu, do PT, terminou em primeiro lugar, com 407 votos, superando Beto Richa, que recebeu 349.

O petista conquistou quase o dobro da votação de Requião Filho, candidato a governador apoiado por Lula. Sua liderança mostra que a identificação partidária nacional não explica, isoladamente, o desempenho das candidaturas legislativas.

Guaporema deu a vitória a Flávio Bolsonaro para presidente, escolheu Sandro Alex para governador e colocou um petista na primeira posição para deputado federal.

 

Iguatu também contrariou a lógica dos blocos

Em Iguatu, no Oeste, Flávio Bolsonaro foi o mais votado para presidente, com 48,72% dos votos válidos. Sergio Moro liderou a eleição para governador, com 37,32%.

Mais uma vez, porém, o PT apareceu na primeira colocação para deputado federal. Zeca Dirceu recebeu 343 votos e superou os demais candidatos ao cargo.

A disputa para o Senado também apresentou uma distribuição competitiva entre candidaturas de diferentes campos políticos. Gleisi Hoffmann, do PT, liderou com 666 votos, seguida de Filipe Barros, do PL, com 645, e Deltan Dallagnol, do Novo, com 611.

A proximidade entre as votações mostra que candidatos associados à esquerda e à direita encontraram espaço eleitoral relevante no mesmo município, ainda que a preferência para os principais cargos do Executivo tenha favorecido candidaturas conservadoras.

Como cada eleitor podia escolher dois senadores em 2026, a presença desses nomes entre os mais votados não comprova, por si só, que uma mesma pessoa tenha dividido suas escolhas entre campos adversários.

 

Lula venceu, mas seu aliado ficou em terceiro

Se em Cruzeiro do Oeste, Guaporema e Iguatu a direita venceu para presidente enquanto o PT liderou a disputa para deputado federal, Nova Cantu apresenta uma situação diferente.

No município, Lula conquistou 2.298 votos para presidente, equivalentes a 48,98%, contra 2.148 de Flávio Bolsonaro. Entretanto, o candidato apoiado pelo petista ao governo estadual não conseguiu reproduzir esse desempenho.

Sandro Alex terminou em primeiro lugar com 1.599 votos, ou 39,99%. Sergio Moro ficou em segundo, com 1.460, enquanto Requião Filho, apoiado por Lula, terminou apenas em terceiro, com 920.

A diferença entre a votação presidencial de Lula e a votação estadual de Requião Filho chegou a 1.378 votos. Embora os resultados não revelem para quais candidatos migraram as preferências individuais, demonstram que o apoio presidencial não garantiu ao aliado estadual desempenho equivalente.

No Senado, Alexandre Curi liderou com 2.238 votos, seguido de Gleisi Hoffmann, com 1.877. Filipe Barros recebeu 1.460 e Deltan Dallagnol, 1.410.

Na Câmara Federal, Hermes Frangão Parcianello foi o mais votado, com 1.458 votos. Tião Medeiros apareceu em segundo, com 737, e Zeca Dirceu, do PT, em terceiro, com 517. Para deputado estadual, Professor Lemos, também do PT, ficou entre os primeiros colocados.

O município evidencia que a vitória presidencial de Lula não se traduziu automaticamente em vantagem para Requião Filho e que as disputas legislativas seguiram uma distribuição própria de preferências.

 

Nem os palanques nacionais foram suficientes

Os resultados ganham relevância quando confrontados com os alinhamentos políticos anunciados durante a campanha.

Flávio Bolsonaro declarou publicamente apoio a Sergio Moro para o governo do Paraná. Lula, por sua vez, apoiou Requião Filho. Sandro Alex representava a continuidade da administração Ratinho Junior e também disputava espaço entre os eleitores conservadores.

As alianças ofereciam ao eleitor referências relativamente claras. Mas os resultados municipais mostram que essas indicações não foram reproduzidas de maneira uniforme.

Em Cruzeiro do Oeste, Flávio e Moro venceram, acompanhando o alinhamento nacional. Em Diamante d’Oeste, Lula e Requião Filho também terminaram na primeira posição.

Já em Nova Cantu, Lula venceu para presidente, enquanto Requião Filho ficou em terceiro para governador. Em Guaporema, Flávio Bolsonaro liderou a disputa presidencial, mas Sandro Alex superou Moro por ampla margem.


Os contrastes mostram que o apoio dos presidenciáveis não foi determinante em todas as localidades. Também revelam uma competição interna pelo eleitorado conservador, especialmente entre Moro e Sandro Alex.

Quando a análise inclui deputados federais e estaduais, o quadro se torna ainda mais complexo. Candidaturas com vínculos regionais e trajetórias políticas próprias podem conquistar votações expressivas mesmo em municípios onde seu partido foi derrotado na eleição presidencial.

 

O eleitor votou na direita e na esquerda?

A diversidade dos resultados municipais levanta uma pergunta importante: os paranaenses estão atravessando as fronteiras ideológicas na hora de votar?

Os números sugerem que as preferências eleitorais são mais complexas do que a divisão entre dois campos políticos, mas exigem uma distinção fundamental.

Uma cidade pode dar vitória a Flávio Bolsonaro para presidente e colocar um petista em primeiro lugar para deputado federal sem que os mesmos eleitores tenham necessariamente escolhido ambos. Grupos diferentes podem explicar esses resultados.

Para demonstrar o voto cruzado individual, é necessário comparar os totais absolutos de votos com o comparecimento às urnas e identificar situações em que a sobreposição entre grupos políticos seja matematicamente inevitável.

Também é preciso considerar as particularidades de cada cargo. Na eleição para deputado, a votação pode ser influenciada por vínculos locais, atuação parlamentar, relações políticas regionais e reconhecimento pessoal. No Senado, a possibilidade de escolher dois candidatos cria combinações ainda mais variadas.

Portanto, os resultados não autorizam concluir que a polarização tenha desaparecido ou que os eleitores tenham abandonado suas convicções ideológicas. O que demonstram é que a preferência presidencial não determina, necessariamente, todas as demais escolhas.

 

Um Paraná além da polarização

A eleição de 2026 confirmou a força da direita no Paraná, com a vitória de Sergio Moro para governador e a ampla vantagem de Flávio Bolsonaro na disputa presidencial no estado.

Entretanto, os resultados de Diamante d’Oeste, Cruzeiro do Oeste, Guaporema, Iguatu e Nova Cantu revelam diferenças importantes na distribuição dos votos entre os cargos.

Em alguns municípios, candidatos petistas lideraram disputas legislativas apesar da vitória de Flávio Bolsonaro e Sergio Moro. Em outros, as preferências para governador contrariaram os palanques presidenciais. Também houve localidades onde candidaturas conservadoras alcançaram posições expressivas mesmo com a vitória de Lula.

Esses exemplos não representam, isoladamente, o comportamento de todos os 399 municípios paranaenses. Mas ajudam a mostrar que a eleição não pode ser compreendida apenas pela identificação partidária do candidato presidencial vencedor.

A polarização continua sendo uma força central na política brasileira. Ainda assim, entre a escolha do presidente, do governador, dos senadores e dos deputados, os resultados revelam espaço para outras influências e prioridades.

No Paraná, a disputa entre direita e esquerda ajudou a definir o resultado das urnas. Mas não contou, sozinha, toda a história.

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