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Entre as pistas e a resistência: Diana Rossi fala sobre machismo no hip hop

DJ e dançarina de Cascavel relembra trajetória na cultura urbana e relata episódios de desvalorização profissional, além de destacar a importância da união entre mulheres e do posicionamento dos artistas

Julia Maraschi · · 6 min de leitura
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... — Crédito: Divulgação

A música e a dança fazem parte da trajetória de Diana Rossi há quase duas décadas. DJ e dançarina de Cascavel, ela construiu sua relação com a cultura hip hop a partir dos movimentos do corpo e, anos depois, encontrou nas pick-ups uma nova forma de expressão artística. Em entrevista a Valéria Mendes, no podcast Mais+, da Gazeta do Paraná, a artista compartilhou experiências profissionais, desafios enfrentados por mulheres na cena musical e reflexões sobre representatividade, cultura e política.

Ao longo da conversa, Diana relembrou situações em que teve sua capacidade profissional questionada e precisou reafirmar seu lugar como artista. Para ela, o machismo aparece em atitudes cotidianas, inclusive quando contratantes e profissionais de eventos preferem conversar com seu noivo, que também é DJ, mesmo quando ela é a responsável pelo trabalho contratado.

“Eu tô no flyer, eu sou contratada, mas quando chega ali eles perguntam coisas técnicas. [...] Normalmente eles se dirigem a ele”, relatou.

Segundo Diana, situações como essa são recorrentes e revelam uma estrutura em que homens ainda são vistos como referência técnica, enquanto mulheres precisam demonstrar constantemente sua competência. A artista afirma que tem se posicionado diante desses episódios e conta com o apoio do noivo, que procura direcionar as conversas para ela quando percebe que sua atuação está sendo desconsiderada.

Da dança às pistas

A trajetória de Diana na dança começou por volta de 2002, em um projeto social no qual teve contato com balé, jazz e dança moderna. A aproximação com o hip hop veio alguns anos depois, quando começou a praticar street dance, participar de grupos de competição, batalhas e workshops.

Hoje, a artista acumula quase 19 anos de experiência com a dança ligada à cultura hip hop. A atuação como DJ, por outro lado, começou há cerca de cinco ou seis anos, depois que ela passou a se interessar pelos equipamentos e pela construção de sets musicais.

O primeiro contato com a discotecagem veio por meio de estudos e cursos. Diana também buscou aprender sobre mixagem, funcionamento dos equipamentos e comportamento do público em diferentes ambientes. Inicialmente, tocava funk, mas depois direcionou o trabalho para o hip hop, estilo com o qual se identifica.

A artista conta que demorou a se reconhecer publicamente como DJ por respeito à cultura e por receio de ser vista como alguém que havia ingressado na área por influência do companheiro.

“Eu ficava: ‘Não, não, deixa para depois’. [...] Eu sempre tive muito essa questão: se eu começar através de você, eu sei que as pessoas vão me ver embaixo da sua asa”, contou.

Com o tempo, Diana passou a investir na própria formação e a construir sua identidade artística. Ela destaca, porém, que o acesso a cursos especializados ainda é limitado na região e que parte do aprendizado acontece por meio da internet e da troca de experiências com outros DJs.

O peso do machismo

A construção de uma carreira na música também trouxe situações de desvalorização. Diana relata que, em determinados eventos, mulheres precisam entregar mais do que os colegas homens para receber o mesmo reconhecimento. Além de questionamentos sobre sua capacidade técnica, ela já enfrentou tentativas de redução de cachê que considera injustas.

Em uma das situações relatadas no podcast, a artista foi contratada para tocar em uma festa junto com o noivo. Posteriormente, recebeu um pedido para diminuir o próprio cachê, enquanto o valor combinado com ele permanecia inalterado. Diante da situação, decidiu não participar do evento.

“Eu falei para ela: ‘Olha, infelizmente não tem como, então você pode me tirar da line’”, relembrou.

Para Diana, o episódio atingiu diretamente o reconhecimento de seu trabalho, estudo e dedicação. Ela também ressalta que a desvalorização não se limita ao pagamento: aparece quando sua competência é atribuída a um homem ou quando sua presença artística é tratada como secundária.

A hipersexualização das mulheres na cultura hip hop também foi abordada durante a entrevista. Na avaliação da DJ, artistas mulheres frequentemente sentem que precisam oferecer algo além da própria música ou performance para serem reconhecidas.

“Eles podem chegar no palco e só cantar ou só dançar ou só tocar. A gente não pode. A gente tem que ter um a mais para alguém falar assim: ‘Nossa, ela é boa’”, afirmou.

União e posicionamento

Apesar das dificuldades, Diana observa mudanças na cena local e destaca a importância da aproximação entre mulheres que atuam na cultura hip hop. Para ela, o apoio mútuo é fundamental para ampliar espaços e enfrentar situações de preconceito.

“Se a gente não se une, quem é por nós, né, senão a gente mesmo?”, questionou.

A artista também defende que homens conscientes dessas desigualdades assumam uma postura ativa no enfrentamento do machismo. Segundo ela, o apoio precisa ir além de declarações e aparecer em atitudes concretas, como reconhecer a profissional responsável pelo trabalho e interromper comportamentos que desconsideram as mulheres.

A conversa ainda abordou a relação entre cultura e política. Diana acredita que o hip hop não está separado das questões sociais e que artistas podem usar diferentes formas de expressão para se posicionar. Ela ressalta, entretanto, que cada pessoa tem condições e limites distintos para manifestar publicamente suas opiniões.

“Eu acho que sim, a gente tem que se posicionar”, afirmou, ao defender que os artistas considerem também as dificuldades enfrentadas por grupos com menos privilégios.

O trabalho por trás do set

Além das questões sociais, Diana explicou como prepara suas apresentações. Diferentemente da ideia de que um DJ pode simplesmente escolher qualquer música na hora, ela conta que organiza previamente os sets, estuda quais faixas combinam entre si e considera o perfil do evento e do público.

A mixagem, em grande parte, acontece ao vivo. Durante a apresentação, a artista observa a reação das pessoas e adapta a condução musical conforme a resposta da pista.

“Cada evento que eu vou fazer, eu faço um estudo antes de quais são as músicas legais para tocar nesse evento, qual que é o público”, explicou.

Diana afirma que gosta especialmente de tocar rap nacional e destaca as artistas mulheres que fazem parte de suas referências musicais. Entre as DJs que admira, cita Sinara e Miabi, ressaltando o trabalho das profissionais na construção e condução das pistas.

Atualmente, a música e a dança não são sua única fonte de renda. Diana trabalha também em outras atividades e define a atuação artística como uma forma de manter a conexão com a arte e a cultura. Mesmo diante das dificuldades financeiras e da desvalorização, ela segue participando de festas, batalhas de rima e eventos culturais.

Ao final da entrevista, a DJ agradeceu pelo espaço para compartilhar sua trajetória e destacou a importância de iniciativas que dão visibilidade a artistas da cultura hip hop. Sua participação no Mais+ reforça uma discussão que atravessa sua experiência: além de ocupar as pistas, mulheres como Diana reivindicam o reconhecimento de sua competência, de seu trabalho e de seu lugar na cultura.

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