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UFMT reacende debate sobre misoginia e violência simbólica em ambientes universitários

Casos registrados em universidades e institutos federais reacendem o debate sobre misoginia, comportamento coletivo e os limites entre “brincadeira” e violência em ambientes acadêmicos

Por Julia Maraschi

UFMT reacende debate sobre misoginia e violência simbólica em ambientes universitários Créditos: Divulgação

A Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) tomou a decisão de suspender as aulas presenciais do primeiro semestre da turma de Engenharia Civil na quinta-feira (14) por tempo indeterminado, após a repercussão de mensagens envolvendo uma suposta “lista de alunas estupráveis” e reacendeu um debate que tem se repetido em universidades brasileiras ao longo de 2026. A troca de mensagem ocorreu entre dois alunos da Faculdade de Engenharia e da Faculdade de Direito no campus de Cuiabá. Em nota, a faculdade diz prezar pela segurança e estabilidade no campus. 

“Lista de alunas estupráveis”

Mais do que a gravidade do conteúdo investigado, o episódio chama atenção pela sensação de liberdade com que estudantes compartilham mensagens violentas, ofensivas e misóginas em grupos privados. De acordo com a UFMT, a investigação começou após a circulação de conversas entre dois alunos, no qual apontavam e comentavam sobre características físicas das estudantes. A repercussão ganhou mais força após um policial federal, identificado como pai de um dos acusados, ir até a instituição e, segundo a universidade, fazer ameaças relacionadas à continuidade do curso dos demais alunos. 

Diante da repercussão, a universidade decidiu manter a suspensão das aulas presenciais por tempo indeterminado para parte dos estudantes enquanto as investigações seguem em andamento. Em nota, a instituição afirmou que busca preservar a segurança da comunidade acadêmica e colaborar integralmente com as autoridades. 

Acontecimentos semelhantes 

O caso da UFMT, no entanto, não é isolado. Desde o início de 2026, outras instituições como Instituto Federal Sul-rio-grandense de Pelotas (RS) e a Universidade Federal do Paraná em Curitiba (PR) passaram por casos semelhantes. Em março, na  IFSul, estudantes denunciaram a circulação de um ranking feito por oito alunos, no qual criaram uma lista contendo fotos e conteúdos misóginos envolvendo 29 meninas e 1 menino; os adolescentes foram suspensos e indiciados por ato infracional análogo ao crime de cyberbullying.  

Já na Universidade Federal do Paraná (UFPR), o Diretório Acadêmico Nilo Cairo expôs, no mês de abril,  mensagens enviadas por suspeitos, que listavam alunas, principalmente estudantes de medicina, como alvo e chegavam a oferecer recompensa em dinheiro para quem cometesse o estupro. A Polícia Civil conduz a investigação, e a Polícia Militar reforçou o patrulhamento em torno dos prédios da universidade em Curitiba (PR). Foi informado pela reitoria, que acionou os setores de segurança institucional e instaurou um processo na Corregedoria para identificar os envolvidos. A entidade também iniciou protocolos de acolhimento às vítimas. 

Violência naturalizada e sensação de impunidade 

A repetição dos casos questiona o que faz os alunos sentirem a liberdade de produzir, compartilhar e incentivar conteúdos de violência contra a mulher. Dados publicados pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 registrou 87.545 vítimas de estupro e estupro de vulnerável, e equivale a aproximadamente um caso a cada seis minutos no país. Porém o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estima cerca de 822 mil estupros por ano no Brasil, considerando vitimização não denunciada. 

As respostas das instituições também evidenciam uma tentativa de endurecimento diante desse tipo de ocorrência, com abertura de sindicâncias, investigações internas, suspensão de alunos e acionamento das autoridades policiais. Ainda assim, os episódios reacendem debates sobre prevenção, educação digital e os limites entre liberdade de expressão e violência psicológica. 

 

Créditos: Redação Acesse nosso canal no WhatsApp